Crítica Literária,

Discurso identitário pode ser muito moralizante, diz Eliane Robert Moraes

Em lançamento da coleção Ensaio Aberto no Rio, autoras falam sobre as escritas possíveis e parte da literatura que não quer ser incluída

31out2023 - 19h09 | Edição #75

Num mundo em que a “putaria generalizada” é acessível a um clique, movimentos identitários carregam um viés moralista que pode dificultar a plena liberdade literária, onde deveria caber tudo o que é “marginal”. A reflexão partiu de Eliane Robert Moraes, durante o lançamento, no Rio de Janeiro, da coleção Ensaio Aberto, na segunda, 31, na Pontifícia Universidade Católica (PUC).

“Sou favorável aos discursos identitários, no entanto, eles também são muito moralizadores. Há uma complicação com a questão do cancelamento”, disse a autora de A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo, que reúne dezesseis ensaios sobre pornografia — ou erotismo, pois a crítica literária não vê diferenças entre os termos — na obra de grandes autores brasileiros.

A escritora argumenta que escritores como Reinaldo Moraes, autor de Pornopopeia, provocam desconforto se forem enxergados com olhar moralizante. “Existe uma dificuldade com a literatura dele hoje. É o macho que sai, que nem louco, comendo todas. Não há espaço”, disse ela, que no livro também analisa textos de Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Roberto Piva, entre outros.

O mesmo tratamento é dado a outros romances da parte “maldita” da literatura, observa a professora da USP, como O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst. “É uma obra-prima, mas existem coisas assustadoras, que não estão dentro do livro. Nunca se quis traduzi-lo na França. Por quê? Terra de [Marquês de] Sade e [Georges] Bataille…”, questionou. “É muito complexo esse livro hoje, sobre uma menina de oito anos que se prostitui e acha ótimo.”

Durante uma palestra na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) em 2018, a crítica literária disse ter sido acusada num artigo de apoiar a pornografia infantil por ter falado sobre o livro de Hilda Hilst, enquanto a atriz Iara Jamra leu trechos de Lori Lamby.

Um dos debatedores do evento, o professor Marcelo Jacques Moraes ressaltou o trabalho de “organização da pornografia brasileira” de Robert Moraes que, afirma, bebeu na fonte de Georges Bataille — autor francês que analisou em sua obra a questão do corpo e do erotismo.

Para o professor da UFRJ, a autora traça o “abrasileiramento” da tradição literária europeia, principalmente a francesa: “Uma das coisas interessantes é a mutação, ao longo da história, da prostituta. Um momento fulcral é a passagem daquela boa puta, a prostituta apaixonada para a puta das grossas, pensando com o vocabulário da Hilda”.

Para Robert Moraes, a despeito do acesso às mais diversas aberrações sexuais pela internet, ainda há um espaço de transgressão que não é assimilável por parte do público. “No caso da puta, por exemplo, existe uma moralização muito grande do dinheiro, que vem do século 19 para cá”, disse.

A literatura, no entanto, pode ser irresponsável, embora esta não seja uma tarefa simples, como defende a autora. “A gente tem uma obsessão por inclusão, o que tem a ver com os movimentos identitários. Tudo que é excluído, temos que incluir. Mas há uma parte em jogo da experiência que a literatura traz que não é incluível. E há autores que não querem ser incluídos, que se mantém guardiões dessa sujeira”, disse.

Fantasia do pós-Barthes

A questão da perda, da fragmentação, da dificuldade de escrever e do inacabamento das obras é o tema que conduz o outro livro de estreia da coleção Ensaio Aberto. Não escrever [com Roland Barthes], de Paloma Vidal, traz textos que navegam entre a reflexão e a criação em torno do crítico francês.

O ponto de partida é Vita nova, romance que Barthes não concluiu, e o curso “A preparação do romance”, interrompido por sua morte, em 1980. “Parte do livro tem a ver com a fantasia do pós-Barthes. O que ele estaria fazendo e escrevendo, trazendo-o para o presente o tempo inteiro. Pensar nessas escritas possíveis, a partir do último seminário que ele deu, abrindo muitas portas para se refletir sobre o futuro incerto e improvável da literatura”, disse a professora da Unifesp.

Ao longo dos ensaios sobre Barthes, Vidal cita a todo momento um romance que não consegue escrever, mesmo que tenha lançado, em 2020, a curta ficção Pré-história, antecedido por vários outros livros, entre romances, ensaios, contos e poesia.

“O que se escreve enquanto não se escreve o livro fantasiado? Escrevi vários livros pequenos enquanto acompanhava Barthes fantasiando o romance com ‘R’ maiúsculo, à la Proust. E ele também — inclusive livros fora do livro, como a encenação do romance em público em suas aulas”, afirmou.

Idealizada e coordenada por Tatiana Salem Levy, pesquisadora da Universidade NOVA de Lisboa, e Pedro Duarte, professor da PUC-Rio, a coleção Ensaio Aberto nasceu de uma parceria entre as duas instituições e as editoras Tinta-da-China, em Lisboa, e Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), em São Paulo.

“Os dois livros se inserem no que pensamos para a coleção. A ideia de um ensaio aberto, na concepção do teatro, a última apresentação antes da peça ser encenada, um processo, algo que está em construção; e a ideia de ensaios universitários, mas com uma escrita aberta para um público mais amplo”, disse Salem Levy.

Quem escreveu esse texto

Denis Weisz

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.