

A Feira do Livro, Literatura brasileira,
Violência se tornou racional no Brasil, apontam Bruno Paes Manso e Dan
Pesquisador e romancista que retratam a ascensão de milicianos em seus livros discutiram as relações entre política, religião e crime no país
06jul2024 • Atualizado em: 07jul2024Numa conversa sobre as relações cada vez mais intrincadas entre a política, a religião e o crime no Brasil de hoje, o pesquisador e jornalista paulistano Bruno Paes Manso e o escritor brasiliense Dan se encontraram neste sábado (6) n’A Feira do Livro e apontaram que a violência — praticada de forma ampla tanto por criminosos quanto por setores da polícia — tem no país propósitos racionais.
A análise aconteceu na mesa “Faroeste caboclo”, que teve mediação do editor da Quatro Cinco Um Amauri Arrais.

Paes Manso, que publicou A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (2020) e A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século 21 (2023), ambos pela Todavia, contou que percebeu isso ao observar que matadores e traficantes, por exemplo, possuem motivações bastante “humanas”, como a necessidade de dinheiro, vencer disputas de poder ou lidar com uma sociedade orientada por regras de mercado.
“Eles não são animais. Não é loucura, há racionalidade”, diagnosticou. “O PCC desconstruiu a ideia do crime como atividade ilegal”, disse sobre a facção criminosa, apontando que ela construiu uma “solução” possível numa sociedade onde tudo gira em torno do poder financeiro.
Para Dan, que estreou no romance ano passado com Vale o que tá escrito (2023), um faroeste urbano onde a trajetória de um miliciano se confunde com a construção de Brasília, um bom exemplo da relação intrínseca entre brutalidade e dinheiro são as gratificações pagas a policiais no Rio de Janeiro pelos chamados “autos de resistência” — o assassinato de um suspeito sob alegação de legítima defesa e resistência à prisão.
“Não há violência grátis no Brasil. Isso se transforma em dinheiro. O homem econômico também sabe matar”, disse Dan.
Metanoia
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O romancista e Bruno Paes Manso também discutiram o papel da religião, sobretudo das igrejas evangélicas, como ponte entre criminosos e a política. O pesquisador contou que quando começou a entrevistar ex-matadores e ex-traficantes para sua pesquisa, há cerca de vinte anos, percebeu que as histórias de muitos deles envolviam pastores. Os antigos criminosos, disse, relatavam que os religiosos costumavam convencê-los afirmando “que era possível renascer numa nova identidade”, desde que houvesse arrependimento.
Por causa disso, revelou Paes Manso, A fé e o fuzil quase foi intitulado “Metanoia”, palavra que remete à transformação espiritual. “Ainda bem que mudaram”, brincou o autor. O livro nasceu, segundo ele, quando percebeu que o fenômeno religioso estava ganhando espaço público na política.
“A religião começou a ser usada para conseguir poder”, disse, em referência aos anos pré-bolsonarismo, à ascensão das milícias e sua associação ao mundo evangélico. É nesse momento, acredita Paes Manso, que “a extrema direita coloca a política como luta do bem contra o mal” e seus representantes “se enxergam como ungidos que representam o bem”.
Para o autor, a elite intelectual e as alas mais progressistas da sociedade brasileira tiveram dificuldade para compreender a força dessa crença por terem cultivado, por muito tempo, preconceitos. “A gente observava os evangélicos como pessoas iletradas que obedeciam a pastores, até que eles começaram a mandar no Brasil”, avalia Paes Manso.
Indagados por Arrais sobre o risco de medidas como o Projeto de Lei 1904/2024, o chamado “PL do estuprador”, voltarem a ser propostas, os convidados apontaram que retrocessos não são surpresas. “Houve a vitória de uma narrativa diante do absurdo que [o projeto de lei] era”, considera Paes Manso. “Mas os algoritmos engajam as pessoas e fazem elas se sentirem parte dessa luta contra o mal”, disse, lembrando a influência da internet e das redes sociais.
“Usar valores bíblicos para justificar questões públicas é um retrocesso imenso, mas esse risco existe se a ʽguerra santaʼ avançar. Precisamos de diálogo, mas também temos de marcar posição”, disse o pesquisador.
Ao comentar a questão, Dan recorreu a uma frase do geógrafo Aziz Ab’Saber: ”O que resta da ditadura? Tudo, menos a ditadura”, disse o escritor, que afirmou não considerar o bolsonarismo “uma coisa anômala ou nova”.
“Num país onde as relações são tão entremeadas pela violência que ela não precisa nem ser exercida para moldar o comportamento das pessoas, o que me espanta é ter demorado tanto para alguém como Bolsonaro chegar à Presidência”, declarou.
Entretenimento e masculinidade
Arrais ainda perguntou sobre a relação ambígua que a violência pode despertar, lembrando de comentários em redes sociais de leitores do romance de Dan. “Muitos diziam que, ao terminar o livro, queriam abraçar os milicianos e tomar cerveja com os bicheiros”, provocou o mediador.
“Espero que não saiam daqui dizendo que faço apologia ao crime”, respondeu Dan, de forma bem-humorada. “Não escrevo para ensinar nem para aprender nada, mas para imaginar vidas diferentes e personagens complexos”, explicou. “Não tenho interesse quando abro um livro e vejo um personagem mau, burro e vilão.”
Ele comentou que, ao imaginar um miliciano ou um policial corrupto, gosta de se divertir durante a criação do personagem. “Tem um lado lúdico”, disse o escritor, que ainda falou sobre seu gosto pessoal pela violência. “É terrível ser abordado pela polícia, mas isso nunca me fez parar de ter vontade de ver o programa de TV em que as pessoas são abordadas pela polícia. O assunto violência está na minha vida tanto como raiva quanto como entretenimento.”
Em outro momento, os autores discutiram o quanto pesquisar e escrever sobre a violência, um universo tão masculino, os fez refletir sobre a própria masculinidade. “Escrevo sobre gênero e sobre homens. E poucos comportamentos são tão vinculados a homens quanto a violência”, avalia Paes Manso. Mas o que mais lhe impressionou, disse, foi o convívio com mulheres, como muitas mães que perderam seus filhos para o crime.
“Meu livro também é uma história de ‘hominho’”, definiu Dan. “Mas, como ficcionista, procuro escrever também sobre mulheres que matam. Acho que escrevendo histórias de homem acabo tendo mais dúvidas, mais incertezas sobre o mundo”, disse o autor, que revelou ser um fã da Tetralogia Napolitana da escritora italiana Elena Ferrante, muitas vezes considerada “literatura para mulheres”.
“Tive até febre [ao ler]”, brincou o escritor brasiliense, acrescentando que devorou os quatro romances numa mesma semana. “Os homens [que não leram] tão dando mole.”
A Feira do Livro 2024
29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.
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