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‘Tragédias acontecem quando o Estado desaparece’, diz argentina Camila Fabbri

Autora comparou situação atual da Argentina, sob Milei, ao contexto de 2004, em que 194 pessoas morreram em um incêndio em uma boate em Buenos Aires

06jul2024 - 14h42
Fotografias de Filipe Redondo

Os paralelos com a boate Kiss são muitos: em 30 de dezembro de 2004, em Buenos Aires, jovens se apertavam na superlotada boate República Cromañón para assistir ao show do grupo de rock Callejeros quando efeitos pirotécnicos causaram um incêndio, que acabou matando 194 pessoas e deixando mais de 1 400 feridos.

A escritora argentina Camila Fabbri havia ido à apresentação do dia anterior, mas muitos de seus amigos estavam presentes no dia da tragédia e acabaram se tornando personagens do livro O dia em que apagaram a luz (Nós), que foi o tema da mesa mediada pela jornalista Anna Virginia Balloussier, abrindo A Feira do Livro neste sábado (6).

Fabbri, que tinha quinze anos à época e perdeu amigos, lembrou que o incêndio marcou a sua geração – “teve consequências diretas e indiretas infinitas” –, mas que também foi algo que estava inserido num contexto social e político mais amplo muito específico.

Anna Virginia Balloussier e Camila Fabbri

“Acho que o livro não marca muito isso, mas é importante saber em que contexto se deu a tragédia da Cromañón. Em 2001, vivíamos uma crise econômica e social muito grande, milhares pessoas tinham ido às ruas protestar [contra o desemprego e o bloqueio de contas bancárias] e houve mortes. E a geração da Cromañon são os filhos dessa tragédia social”, disse Fabbri, ao fazer um paralelo com a situação atual da Argentina, mais uma vez imersa em uma crise econômica e governada pelo presidente de extrema direita Javier Milei.

“Não havia ninguém cuidando dos jovens, [Buenos Aires] era uma cidade abandonada pelo Estado. E isso é muito parecido com o que está acontecendo agora. Quando o Estado desaparece e há uma crise muito grande, acontecem essas coisas, e os jovens são os grandes afetados. Eles vão se divertir, ouvir música, e não tem ninguém olhando para as condições desses lugares”, afirmou a autora.

Questionada se ela tem a intenção de escrever sobre os anos Milei, e se acha que isso vai impactar a literatura argentina, ela respondeu que não tem planos desse tipo, mas que sim, deve haver algum impacto. “Talvez seja a única coisa boa que possa sair do governo de Milei. Acho que isso lamentavelmente vai alimentar muitas futuras ficções, mas o temor é que os danos sejam irreparáveis. Não sabemos direito quanto vai durar, e não é só ele, é toda a extrema direita em torno dele. Não achávamos que isso existia na Argentina”, lamentou.

Recorte íntimo

Embora não tão conhecida pelo público brasileiro, a tragédia da Cromañon teve um grande impacto na Argentina e foi amplamente coberta pela imprensa. Mas Fabbri, que é sobretudo escritora de ficção, afirma que queria contar a história a partir de outra perspectiva.

“Tentei contar de um lugar mais íntimo, mais privado, que é minha experiência de crescer numa cidade muito atravessada por essa tragédia. Eu tinha quinze anos, éramos muito jovens, isso fez parte da nossa educação sentimental”, contou.

“Lembro de nos reunirmos na porta da escola no dia seguinte porque tínhamos que ir ao IML reconhecer amigos ou aos velórios. 48 horas antes estavam todos vivos cantando uma canção e agora estavam mortos em um caixão. É uma forma de crescer como se nos tivessem arrancado pela raiz. É o que acontece com as tragédias, é a ordem estabelecida que é subvertida.”

Para narrar esse evento traumático de forma mais íntima, Fabbri optou por não tratar diretamente das investigações e julgamentos, e não falar com os músicos e outras figuras públicas. Ela começou a contatar amigos da época para pedir que lhe contassem suas lembranças.

“O núcleo do livro, para mim, são esses encontros – tomar um café comendo medialunas [espécie de croissant argentino] com um amigo, conversar fumando um baseado, pessoas que contam coisas muito extraordinárias, como sobre quando acordaram do coma, de forma muito natural, e hoje vivem suas vida”, contou. “Não é um livro sobre a tragédia, é um livro sobre nós. Eu queria fazer um recorte mais sensível, um recorte que a imprensa não fez.”

Para isso, é claro, foi preciso um pouco de ficção. “Os relatos duros dos fatos em si são reais – o que aconteceu, quantas pessoas morreram, o que poderia ter sido feito para evitar, tudo isso é real. Mas tomei liberdades em imaginar o que seria o futuro de alguns personagens – que estão vivos, são meus amigos, me deram seus testemunhos. O livro tenta contar o passado, o presente e o futuro, e o futuro eu inventei”, concluiu.

Além de O dia em que apagaram a luz, Fabbri acaba de ter traduzido para o português a coletânea de contos Estamos a salvo, também pela Nós.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Natalia Engler

É jornalista e pesquisadora de comunicação e gênero.