A Feira do Livro, Crítica Literária,

‘Escrita erótica trata de dimensão humana fundamental’, diz Eliane Robert Moraes

A crítica literária e o romancista Reinaldo Moraes falaram sobre as fronteiras nem sempre muito claras entre pornografia e erotismo

03jul2024 - 16h39 • 10jul2024 - 11h52
Fotografias de Matias Maxx.

No fim de tarde de uma fria terça-feira de inverno, que tipo de coisa dá para fazer envolvendo fantasias eróticas e boas doses de libertinagem? N’A Feira do Livro, a resposta foi falar, de forma bem-humorada e sem pudores, de escrita erótica e seus muitos significados. 

A mesa “A parte maldita brasileira”, sobre as representações do sexo na literatura nacional, reuniu a crítica literária Eliane Robert Moraes e o romancista Reinaldo Moraes, que conversaram com a jornalista Marie Declercq sobre as fronteiras nem sempre muito claras entre pornografia e erotismo e apontaram que na literatura o sexo anda de mãos dadas com a transgressão. 

O bate-papo começou com Declercq perguntando se existe diferença entre pornografia e erotismo. Uma questão que Eliane Robert Moraes reconheceu como inquietante. “Normalmente o senso comum pensa a pornografia a partir da obscenidade, do baixo calão. Mas os grandes mestres da escrita sexual às vezes são extremamente obscenos”, disse a ensaísta. 

Como exemplo, ela leu o “Soneto 423 Perversivo”, de Glauco Mattoso, em que o poeta contrapõe o coito “político e correto” da mera penetração ao gozo que pode ser provocado pelo cheiro de um sovaco ou pela sola de um sapato. “Isso é pornografia ou erotismo? Eu não sei”, admitiu.

“Pornografia é o sexo dos outros”, resumiu Reinaldo Moraes, citando uma famosa frase de autoria tão indefinida quanto um bom ditado popular — já foi atribuída ao romancista americano Henry Miller e ao jornalista e multiartista brasileiro Millôr Fernandes, mas provavelmente deriva de uma definição do surrealista francês André Breton: “A pornografia é o erotismo dos outros”.

Para o autor paulistano, que publicou pela Companhia das Letras o romance Pornopopeia (2009), a coletânea de crônicas sexuais O cheirinho do amor (2013) e deve lançar este ano um novo volume da trilogia inaugurada com Maior que o mundo (2018), que mescla boas doses de devassidão, humor e cultura erudita, a pornografia é mais gráfica que o erotismo e prescinde de uma narrativa. 

O escritor paulistano Reinaldo Moraes

Mas, numa história erótica, o obsceno, o depravado, o indecente — chame do que quiser — funciona como um ingrediente que realça o sabor. “A obscenidade é como um tempero da narrativa, tempero mesmo. Dá a característica daquele prato que é servido”, comparou.

A escrita despudorada, porém, pode muito bem abrir mão dos palavrões e termos explícitos de modo a alcançar sentimentos e pensamentos insuspeitos. É o que acontece no conto “A noite da Paixão”, do grande escritor curitibano Dalton Trevisan, que Reinaldo Moraes fez questão de ler para a plateia. 

Na história, o protagonista Nelsinho, um canalha que caça mulheres nas ruas e não é nem misógino, mas “pós-misógino” segundo Moraes, transforma o ato sexual com uma prostituta numa paródia religiosa. “Apesar de toda a baixeza, não tem um único palavrão”, lembrou. 

“É interessante como o sexo pode ser dito de tantas formas, inclusive de forma casta”, disse Eliane Robert Moraes. “São infinitas formas de falar dessa dimensão humana fundamental que é o erotismo. A sugestão te leva para outros lugares.”

Transgressão e censura

Questionada sobre o fato de escritores que exploram o sexo e o erotismo terem ganhado a alcunha de malditos, a crítica literária atribuiu a má fama à transgressão que esses autores no fundo operam. “Essa ideia [de malditos] nasce no século 19, um século circunspecto, muito europeu e vitoriano. No germe o maldito é contra o pacto social, rompe com a noção de bem e mal, é quem está na margem. Maldito é o escritor que está totalmente na contramão da sociedade”, afirmou Robert Moraes.

A professora, crítica literária e pesquisadora de literatura erótica Eliane Robert Moraes

Os dois repudiaram tentativas de cancelamento da literatura erótica. “O nome disso é censura e a censura nunca é produtiva na literatura. Na boa ficção vale tudo”, disse a ensaísta. “A literatura não é um programa de ação. Você não lê o Reinaldo [Moraes] ou o Marquês de Sade e sai fazendo igual”, prosseguiu. Para ela, a literatura erótica tem como propósito encenar o impossível, com excessos que não podemos reproduzir na vida real. “Ela nos alimenta e alimenta nossos sonhos”, afirmou.

Parte maldita

No ano passado, Robert Moraes lançou A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo (Tinta-da-China Brasil), com ensaios sobre a presença do erótico na obra de grandes autores nacionais como Machado de Assis, Manuel Bandeira, Hilda Hilst e Roberto Piva.

Ao comentar as queixas que leitores ou espectadores mais pudicos expressam em redes sociais sobre cenas de sexo “desnecessárias” em livros ou filmes, ela foi direta: “É um jeito de ser moralista sem se declarar”. Reinaldo Moraes lembrou que, desde Santo Agostinho, o sexo é associado à luxúria e, portanto, a um pecado. “A luxúria é um pecado que contribui para a manutenção da humanidade”, brincou o autor.

A crítica literária ainda destacou a presença crescente de mulheres na escrita erótica, sobretudo desde meados do século passado. “No século 19 as mulheres não tinham espaço, mas conforme avançamos no século 20, a presença feminina vai aumentando, sobretudo da metade para cá”. Ela provocou risadas na plateia ao lembrar que Hilda Hilst “mudou a paisagem literária brasileira escrevendo o que chamava de ‘putaria das grossas’”.

Mais recentemente, o panorama ficou mais plural e diverso. “Nos anos 90, o número de mulheres escrevendo contos eróticos e poemas eróticos é muito grande”, disse a ensaísta. “É super bem-vindo isso se manifestar, assim como a expressão homoerótica. E atualmente estamos vendo a expressão transexual também”, ressaltou.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista e roteirista, traduziu As aventuras de uma garota negra em busca de Deus (Bissau Livros)