A escritora Lilian Sais (Divulgação)

Fichamento,

Lilian Sais

Novo romance da escritora e doutora em letras clássicas encerra a ‘tetralogia da perda’, concebida após a morte do pai

01abr2026 | Edição #104

As regras (DBA) joga com memórias pessoais e coletivas, como grandes partidas de futebol, e pura invenção, num terno e elegante acerto de contas com a figura paterna.

As regras é o último livro do que chamou de “tetralogia da perda”. O que é essa série? 
São quatro livros que dedico ao meu pai depois da morte dele: na plaquete Palavra nenhuma (Círculo de Poemas, 2024), perde-se o pai; em A cabeça boa (DBA, 2025), perde-se o chão; e, no Diário da casa nova (Macondo, 2025), perde-se tudo, até o luto. As regras, o último, é um acerto de contas entre as regras do meu pai e as minhas. Decidi revisitar a relação com ele a partir dos jogos de futebol a que a gente assistia juntos. 

Neste romance você escreve que “O ponto final é o que veio antes”. Foi isso o que aconteceu? 
Foi o primeiro livro da tetralogia que pensei em escrever e o último a sair. Acho que encerra mais do que a tetralogia — é um projeto estético que fui desenvolvendo ao longo de dez anos, em dez livros publicados. 

Isso me lembra outra frase do livro: “Quanta energia se gasta para não sair do lugar”. Mas parece que você saiu de algum lugar, não? 
Não sei o quanto escrever me ajudou a elaborar o luto, mas certamente me ajudou a desviar a atenção. A partir do momento em que você começa a colocar as palavras no papel, tem outros problemas para resolver: qual verbo usar, qual o corte do verso. Coloquei muita energia nisso. 

A literatura foi uma forma elegante (e terna) de acertar as contas com o pai? 
Meu pai nasceu na década de 40 — era um homem muito conservador, machista. Fomos próximos em um momento da infância filtrado por esse gosto pelo futebol, essa vontade de agradá-lo, mostrar que eu, mulher, podia ser o filho que ele sonhava ter. Na adolescência, a gente tinha muitas rixas, por causa das regras que ele colocava. Mais tarde, quando descobrimos que minha mãe tinha um câncer terminal, a gente se reaproximou e entendi que não iria mudar a cabeça de um homem de sessenta anos. Ele era do silêncio; não tinha muita habilidade para colocar seus problemas em palavras. Eu escolhi ser escritora, e de temas pesados, que tem a ver com uma escrita autobiográfica ou autoficcional. É um acerto de contas pelo que revelo e pelo que ele silenciou a vida toda.

(Divulgação)

Você diz que não é um livro de memórias. É o quê?
É 50% para cada lado. A escrita autobiográfica que mais me interessa brinca com a ideia de criação. Escrevo sobre meus sonhos e fotos, mas vários sonhos foram inventados, várias fotos não existiram. E, no final, crio algo totalmente ficcional sobre como eu acho que poderia ter sido o último dia do meu pai.

Como é sua relação com o futebol hoje, sem seu pai? 
Sempre tive atração por esportes em geral. Queria ser ciclista — olha que loucura! O futebol tem uma coisa absurda: entre os esportes, é o menos meritocrático — o [José Miguel] Wisnik já escreveu isso. Do nada, um time pior pode ter um lance e vencer a partida. Sempre me interessaram essas reviravoltas e as narrativas que decorrem delas. Mas perdi meu interesse pela seleção brasileira masculina. Também comecei a gostar mais de ver jogos bem jogados do que torcer por meu time. 

No livro, você é são-paulina. Ainda torce para o time? 
Virei casaca; sou botafoguense. Assisti a uma final da Copa do Brasil no Rio — a primeira vez no Maracanã — com uma torcida organizada muito simpática chamada Botachopp. Eles são apaixonados pelo time e animados, mesmo sabendo que não vão ganhar. Vi o Botafogo fazer gols que foram anulados injustamente, um drama. A vida é mais ou menos assim, um setor do Botafogo. 

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.

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