O autor colombiano Fernando Molano Vargas (Divulgação)

Livros e Livres,

Desejos em campo

Romance colombiano dos anos 90 rompe estereótipos com amor entre adolescentes gays que jogam futebol, mas traz marcas do seu tempo

02set2026

Felipe tem dezesseis anos, quer ser jogador de futebol e se descobre apaixonado por Leonardo, seu companheiro de time e de classe. Para ele, as duas coisas cabem na mesma vida. Mas o mundo parece empenhado em impor uma escolha.

É dessa tensão que nasce Um beijo de Dick, primeiro romance do colombiano Fernando Molano Vargas. Publicado originalmente em 1992 e lançado agora no Brasil, o romance acompanha a descoberta amorosa e sexual de dois adolescentes na Bogotá do final dos anos 80. Felipe e Leonardo jogam, estudam juntos, brigam, sentem ciúmes e tentam entender o que está acontecendo entre eles. O futebol é uma das linguagens do desejo que os conecta.

Na Colômbia da narrativa ou aqui no Brasil, o futebol masculino é ambiente dos mais adversos à presença homossexual. Dos jogos de várzea aos grandes estádios, a homofobia circula nos xingamentos, nas piadas, nos cânticos e nos vestiários. Também aparece na dificuldade de admitir que um jogador possa dizer publicamente que é gay e continuar em campo.

Muitos homossexuais da minha geração, inclusive eu, cresceram afastados do futebol. Os insultos ensinavam cedo que aquele espaço não havia sido feito para nós. Era preciso esconder-se, suportar a violência fingindo não ligar para ela ou largar de vez esse universo hostil.

Felipe e Leonardo recusam essa escolha. Jogam juntos e se apaixonam no interior de um espaço que, a princípio, deveria impedir esse amor de avançar. Molano Vargas rompe, assim, com um estereótipo, pois seus protagonistas gostam da bola, da competição e do convívio com os colegas. O autor não vê nisso paradoxo e, portanto, entrega um romance juvenil de delicadeza e coragem.

Molano Vargas escreveu sob o impacto da epidemia de aids e do luto, mas a morte não domina sua narrativa

Escrito entre 1989 e 90, Um beijo de Dick venceu, em 1992, o concurso literário da Câmara de Comércio de Medellín. O prêmio deu visibilidade imediata ao escritor. Sua passagem pelos cursos universitários de literatura e de cinema aparece na forma do romance. Felipe narra como quem monta um filme enquanto vive a própria história: imagina cenas, ensaia diálogos, interrompe lembranças e muda seus desfechos.

A voz avança com a pressa de alguém que ainda não sabe organizar tudo o que sente. O turbilhão de sentimentos e de acontecimentos atropela a história. Por vezes, a oralidade se torna excessiva e a narrativa gira ao redor das mesmas hesitações. Mas é também daí que vem sua verdade, já que Felipe vai habitando cada vez mais sua própria adolescência.

O título vem de uma passagem de Oliver Twist, de Charles Dickens. Antes de fugir para Londres, Oliver se despede de Dick, amigo gravemente doente. Dick pede um beijo e o abraça junto ao portão. Onde outros leitores veriam apenas a despedida entre duas crianças, Molano Vargas viu dois meninos que se beijavam e se queriam.

O livro retoma essa imagem cerca de um século e meio depois e a transporta para o contexto sul-americano. Não reproduz a situação de Dickens, mas conserva algo da urgência, já que se trata de um gesto de afeto realizado quando o tempo parece curto, ainda que em cenários diferentes.

A morte ronda o romance de Molano Vargas desde a primeira frase, quando Felipe se lembra de Hugo, amigo que morreu ainda menino. A paixão por Leonardo ocupa o primeiro plano, mas Hugo não desaparece. Sua ausência permanece como uma sombra sobre a descoberta do amor.

Ausência

A biografia do autor dá outro peso a essa presença da morte. Molano Vargas morreu em abril de 1998, aos 36 anos, por complicações relacionadas à aids. Diego Molina, seu companheiro, morrera antes pela mesma doença. No romance, sua ausência aparece sobretudo na figura de Hugo, não diretamente em Leonardo.

Molano Vargas escreveu sob o impacto da epidemia, da própria doença e do luto. Ainda assim, a morte não domina sua narrativa. Há também festas, partidas de futebol e a descoberta atrapalhada do sexo. As cenas eróticas são diretas, mas narradas com certo pudor.

O sexo não aparece como desvio, ameaça ou punição, mas como parte da descoberta amorosa de Felipe e Leonardo. Isso não é irrelevante, considerando a dissociação e quase incompatibilidade entre sexo e afeto que foi típica da história gay no século 20.

O romance, no entanto, se recusa a virar manifesto. Felipe não é porta-voz de uma causa nem dispõe de um discurso pronto sobre identidade sexual. Ele deseja Leonardo antes de saber explicar o que esse desejo significa. A política da narrativa está na naturalidade com que acompanha o sentimento dos dois, sem exigir deles uma pedagogia dirigida ao leitor.

A despeito da naturalização do amor entre homens na história, o mundo não é acolhedor. A família vigia, a escola suspeita e a violência pode surgir a qualquer momento. Quando o pai de Felipe descobre o relacionamento, reage com brutalidade. O amor não passa incólume à homofobia, mas não é definido por ela.

Limites

Visto hoje, Um beijo de Dick também revela limites de sua época. Para afirmar que Felipe e Leonardo vivem uma história de amor como qualquer outra, o autor por vezes os afasta da figura depreciada do “marica”. Ao imaginar um filme sobre dois rapazes, Felipe ouve de Leonardo que as pessoas poderiam enxergar ali “uma história de maricas” e não uma história de amor.

A respeitabilidade dos protagonistas parece depender, em alguns momentos, de serem masculinos, atléticos e pouco identificados com as bichas afeminadas.

O futebol ocupa papel central nessa operação. Ele permite a Molano Vargas romper com o estereótipo segundo o qual homens gays seriam frágeis, femininos ou incapazes de participar dos rituais masculinos. Mas também corre o risco de sugerir que certos gays são mais aceitáveis porque permanecem próximos do modelo dominante de masculinidade.

A narrativa é atual não apenas pela recente Copa do Mundo, mas também porque vivemos um mundo que patrulha a sexualidade e o gênero

Não se trata de cobrar de um romance escrito há mais de três décadas o vocabulário político de hoje, nem de diminuir a coragem de publicar uma história de amor entre dois adolescentes. Trata-se de reconhecer as fronteiras que a narrativa atravessou e aquelas que deixou de pé.

O beijo de Dick não pretende representar a variedade das experiências LGBTQIA+. O que faz é abrir uma passagem específica: a possibilidade de que meninos gays joguem futebol, desejem um ao outro e sejam tratados como protagonistas de uma história de amor.

A narrativa parece ser ainda mais atual não apenas pela recente Copa do Mundo, mas também porque vivemos um mundo que patrulha a sexualidade e o gênero de adolescentes em nome de uma cruzada de proteção das infâncias, moral e conservadora.

Contra uma visão adultocêntrica, o romance evidencia que esses rapazes têm vontades, desejos e capacidade de tomar decisões sobre a própria vida e seus amores. Felipe e Leonardo gostam de futebol e gostam um do outro. Imaginar um mundo em que não seja preciso escolher entre uma coisa e outra já é um enorme avanço.    

Quem escreveu esse texto

Renan Quinalha

É professor de direito da Unifesp e autor de Movimento LGBTI+: Uma breve história do século 19 aos nossos dias (Autêntica).

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