Livros e Livres,

Assassinos dos corpos divergentes

Wagner Schwartz fala das violências sofridas por quem foge à norma e de como sua imagem foi instrumentalizada na ‘guerra cultural’ da extrema direita

01jan2024 - 00h00 | Edição #77

Fui morto na internet. Sou testemunha. Se você esteve off-line em 2017, preciso lhe contar: me submeteram a um linchamento virtual, a centenas de ameaças de morte, a notícias falsas, a comparações com o anticristo. Motivo: uma mulher e a sua filha de quatro anos participaram de minha performance La Bête, no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, no dia 26 de setembro de 2017. Detalhe inconveniente e suficiente para o público das telas: eu estava nu.


A nudez da cópia imperfeita, de Wagner Schwartz

Assim começa “Memórias póstumas de La Bête”, a primeira parte de A nudez da cópia imperfeita, do escritor e coreógrafo Wagner Schwartz. La Bête é inspirada na série Os Bichos, de Lygia Clark (1920-88), conjunto de peças de metal articuladas feitas para serem manipuladas, adquirindo novas formas. Na performance, o corpo nu e passivo de Schwartz é manipulado conforme a vontade do público e, em uma apresentação no MAM, uma menina tocou seu pé. Um vídeo desse momento viralizou nas redes e quem passou a ser manipulada foi a imagem. Seguiram-se fake news, indignação e linchamento virtual do artista, numa sequência parecida com o caso da exposição Queermuseu. A mostra com temática LGBTQIA+ em Porto Alegre foi cancelada uma semana antes do episódio envolvendo Schwartz, depois de uma campanha bem-sucedida da extrema-direita na guerra cultural que se acirrava. 

Nesse seu segundo livro — em 2018, Schwartz lançou Nunca juntos mas ao mesmo tempo, pela Nós —, ele remonta de forma não linear o ocorrido no museu e o que se sucedeu. Não é uma resposta a seus detratores (que incluem Jair Bolsonaro, João Doria, o MBL, pastores neopentecostais e oportunistas de plantão). À Quatro Cinco Um, o artista disse ter usado o que fizeram com ele para criar seu próprio texto. Usando referências que vão do narrador defunto Brás Cubas, de Machado de Assis, ao urinol do dadaísta francês Marcel Duchamp, Schwartz conta das violências que sofreu e não quer que sejam esquecidas. As ameaças a sua integridade física e psíquica vêm de décadas antes da criação de La Bête, desde a infância e a adolescência, quando tentaram negar seu corpo e matar sua subjetividade, como conta no livro e na entrevista. 

Você diz no livro que as pessoas não suportam um homem nu. Por quê?
Porque elas se veem nuas. A nudez que não é pornografia incomoda muito mais. E o corpo nu masculino é mais tabu que o feminino, porque o homem blindou sua sexualidade enquanto colocou o corpo feminino à venda, na publicidade, nas garrafas de cerveja. O corpo masculino preservou seu sexo e, quando o mostra, é sempre em ereção. Acredito que [a performance] La Bête chocou por mostrar o membro sexual sem nenhuma função; isso é um problema para a sociedade machista e falocêntrica. O falo que mostrei no museu não demonstrava poder, era simplesmente uma parte de um corpo. A sociedade só entende o corpo que viola, penetra, não está preparada para ver o corpo nu em sua simplicidade, não sabe o que fazer com isso. Quando viram, fizeram o que fizeram.

Uma manipulação de imagem originou ataques de ódio e você teve que sair de cena, e do Brasil. É uma espécie de exílio, palavra que diz evitar?
Exílio é uma palavra ligada a eventos traumáticos da história e isso me impede de usá-la para definir minha saída do Brasil em 2017. Eu trabalho na França desde 2005, mas sempre venho para o Brasil. Estou há catorze anos com meu marido francês, tenho residência em Paris, pago meus impostos lá, não tive que sair do Brasil com a mala na mão e chegar num lugar sem saber como vai ser. Isso aconteceu com muitas pessoas na época da ditadura militar e, mais recentemente, com a Marcia Tiburi, o Jean Wyllys. Eu tive o privilégio de poder desviar da violência.

Mas não dá para dizer que saiu do país por vontade própria, tranquilamente. Como foi isso?
Em 2017, com as fake news e os ataques sendo replicados por pessoas como Jair Bolsonaro, João Doria, por esse grupo de manipulação retórica e imagética que é o MBL, viver minha vida ficou muito arriscado. Eles criaram um personagem que se parece muito comigo e que as pessoas queriam pegar. Me tiraram do meu contexto e colocaram minha imagem no contexto deles, autoritário, que goza com a ignorância. Não sei viver nesse contexto, precisei pensar com os advogados que foram contratados pelo MAM para me defender como seria minha saída do Brasil. Apesar de estar correndo risco, eu não poderia sair durante os ataques para não parecer uma fuga. Eu não teria direito a apoio jurídico, proteção policial — que em todo caso é uma ficção, veja o caso recente da Mãe Bernadete, ela tinha proteção e foi esse horror. Voltando à minha situação, além de correr risco, eu não tinha trabalho aqui. A partir do momento que você é perseguido pela extrema direita, perde os empregos que a esquerda te dá.

Por não quererem se arriscar?
Exatamente. Falo das instituições de esquerda; os colegas que dirigem festivais independentes no Brasil não largaram a minha mão, estavam preocupadas comigo, querendo programar apresentações de La Bête, diziam que era preciso dar uma resposta para o que estava acontecendo. Só que meu corpo estava ameaçado, eu não podia. E já tinha trabalhos agendados em Paris. Decidi com as advogadas a data que pegaria o avião, fui acompanhado até o embarque, usei boné, óculos, bigode falso. Foi a primeira vez que, em vez de dizer que estava indo para a França, disse que estava fugindo. Quando o verbo muda, a ação e o corpo mudam; nesse caso, o corpo adoeceu. No livro conto todo o processo de adoecimento e transformação. Talvez já pudesse usar a palavra cura, mas vou com calma: ainda há trabalho a fazer, quem sabe seja para a vida inteira.

Escrever ajudou nesse processo?
Muito. Acho que a cura acontece no plano verbal, quando você se distancia do sofrimento e consegue dar nome para ele, descrevê-lo e, no caso de A nudez da cópia imperfeita, jogar ironicamente com ele. O livro, caros leitores, faz chorar, mas também faz rir. O que escrever me trouxe de cura foi a percepção das dores coletivas. Meu livro foi escrito com e para essas dores.

Por isso escreve também de suas dores de infância?
Fui atrás delas porque me ajudaram a passar por essa dor mais recente. Eu adoeci, mas era uma dor que conhecia: desde criança sou atacado por mentiras. O que uma criança faz quando está sendo atacada? Se refugia no seu imaginário, e foi o que fiz. Não foi a primeira vez que fui ameaçado de morte. A primeira foi quando um pastor e toda uma congregação condenaram meus próprios desejos dizendo que eu não poderia ser gay, que eu tinha que matar meu desejo, que meu corpo tinha que morrer para eu poder ascender ao paraíso.

‘Tenta mandar um projeto de museu queer para uma instituição considerada progressista e me conta’

Isso não era só uma ameaça, era a morte. Nessa época, tentei o suicídio, como conto no livro. Quis mostrar que as ameaças não estão só na voz dos ignorantes da extrema direita. Hoje me chamam de pedófilo ou o que seja e não faz nenhum sentido para mim. Mas faz para as instituições e para o mercado de arte. É isso que dói, não o Bolsonaro me chamando sei lá do quê, isso só atesta a ignorância dele. Estou sendo legal ao dizer ignorância, né? Mas não quis escrever só sobre os eventos [desencadeados pela performance de La Bête], não iria criar uma resposta para essas pessoas. Usei o que elas fizeram comigo para criar o meu texto, transformar o tabu em totem.

Você acha que continua exilado da cena, da programação cultural?
As instituições de arte contemporânea não querem discursos arriscados. Tenta mandar um projeto de museu queer para uma instituição considerada progressista e depois me conta.

Isso me lembra uma frase citada no livro: “Para que ter um corpo se preciso manter trancado num estojo?”
A frase vem [da escritora] Katherine Mansfield, em Bliss. Uso no meu caso porque meu corpo demorou para se desconectar da tortura simbólica sofrida dentro da igreja. Só aos 28 anos consegui me relacionar com uma pessoa, no caso, um homem. Até então era virgem, não conseguia lidar com a imagem de mim morto queimando no inferno. Quando entrei na universidade, já estava me distanciando desses dogmas, mas meu corpo ainda não estava preparado, nem digo para transar, só para se relacionar mesmo. Será que o Ministério Público não tinha que fazer uma CPI dos maus-tratos a crianças dentro das igrejas e congregações para entender como elas sofrem ali dentro? A minha história é ver um objeto trancado dentro de um cubo de vidro, como [as esculturas de Lygia Clark] Os Bichos, ver um pensamento trancado dentro de um corpo, uma sexualidade trancada dentro de uma condição religiosa e ideológica. Em Volta Redonda [RJ], onde cresci, minha vida era ficar trancado, me manifestar como homossexual seria pedir para morrer. Hoje, quando sou atacado, sei onde encontrar o esconderijo.

Ainda se tranca?
Não. Se não posso fazer minhas performances, vou escrever. O livro é minha maneira de continuar em performance. Em um lançamento na UERJ dei um depoimento que escorreu de forma tão líquida que as pessoas acharam que era um espetáculo. Olha aí, a cura não seria saber que agora meu lugar de apresentação não é o teatro, mas sim a livraria e a biblioteca? O espaço da escrita e da palavra permite a minha presença sem censura, é o meu jeito de dizer “vocês não vão me calar”.

‘O livro é minha maneira de continuar em performance, é o meu jeito de dizer: vocês não vão me calar’

Não te calaram nem mataram, embora no livro você use um narrador morto, como o Brás Cubas, de Machado de Assis. Entendo que matou a personagem criada pelo discurso de ódio, que não era você. Mas La Bête foi enterrada?
Boa pergunta. La Bête foi enterrada viva, pode ser que seu corpo seja encontrado respirando ou não. Quero que volte para o lugar onde sempre esteve, o de uma performance de arte contemporânea que discute o papel de sujeito e objeto. Mas é sempre visto como aquele evento em que uma criança tocou e fui atacado pela extrema direita. Será que preciso parar de falar disso para que a performance volte a acontecer?

Não deveria continuar falando?
Vou falar pelo resto de minha vida. Minha raiva e meu impulso vêm daí. Não preciso falar “uma criança tocou no meu pé e eu estava pelado”, mas tudo que decorreu disso não posso e não quero esquecer. Quem sofreu violência não quer que os outros esqueçam. É preciso ficar atento à história e saber que os assassinos da subjetividade, do corpo, do desejo e da arte divergentes ainda estão aqui. 

Este texto faz parte do especial “Livros e Livres”, sobre literatura LGBTQIA+, realizado com o apoio do Fundo de Direitos Humanos do Reino dos Países Baixos e publicado na edição #77 da Quatro Cinco Um

Editoria com apoio do Fundo de Direitos Humanos da Embaixada do Reino dos Países Baixos

Desde 2023, o Fundo de Direitos Humanos da Embaixada do Reino dos Países Baixos apoia a cobertura especial Livros e Livres, dedicada a títulos com temática LGBTQIA+

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #77 em novembro de 2023.