Literatura brasileira,

Corpos protagonistas

Em romance de Eliana Alves Cruz, os corpos reprimidos, adoecidos e normatizados do Brasil do século 18 ecoam os de 2020

08jul2020 - 06h16 | Edição #36 ago.2020

Orikis, para os iorubás, são versos curtos que sintetizam e evocam as forças dos orixás. Um dos mais famosos orikis de Exu, divindade primordial do movimento e fruição dos corpos, diz que “ele matou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje”. Na sentença, marcada por múltiplos significados, está expressa uma verdadeira filosofia da História: quando miramos o passado com os olhos do presente, evitando anacronismos, somos capazes de reinterpretá-lo. Ao fazer isso, entendemos que o voo do pássaro é contínuo, permanece, aponta para o futuro. É no oriki de Exu que penso ao ler o novo romance de Eliana Alves Cruz. O livro reafirma uma característica marcante de sua obra, já presente nos anteriores Água de Barrela e O crime do cais do Valongo: ao lançar a pedra no pássaro do passado para elaborar as tramas das narrativas, Eliana consegue ser profundamente contemporânea. 

O cenário do novo romance é o Rio de Janeiro do século 18. A cidade, transformada pela descoberta de metais preciosos na região das Minas Gerais, sente os impactos da chegada de milhares de africanas e africanos sequestrados e embarcados, sobretudo, na costa centro-africana do Império do Congo, que então incluía Angola. É de lá que vem o nascido varão Kiluanji Ngonga, que depois de algumas trocas de nome passa a ser, em terras cariocas, Vitória, bela mulher com um corpo preto como o azeviche e o falo escondido por tiras de pano. Alforriada em virtude do uso que fez da sabedoria e das artimanhas mandingueiras dos calundus, guerreira que maneja a faca com destreza, Vitória é capaz de escutar o futuro e praticar as adivinhações que driblam o seu destino e os dos outros.
Apaixonado por Vitória, e atormentado pela culpa da paixão, surge Felipe, um “branco leitoso e quase sem manchas”. Herdeiro de uma linhagem de portugueses que combateram os franceses, durante as guerras pela conquista do recôncavo da Baía da Guanabara, Felipe está de casamento acordado com Sinhaninha, jovem trancada em casa e corroída pelos ciúmes em relação aos escravizados Zé e Quitéria.

No meio de tudo isso, em uma cidade descrita como cenário caótico em pleno paraíso, receios e expectativas entram em ebulição com a chegada do Frei Alexandre Saldanha Sardinha, visitador do Santo Ofício da Inquisição e autoridade capaz de atestar, ou não, a pureza de sangue dos antepassados de Felipe e Sinhaninha. Inúmeras famílias de origem portuguesa traziam do passado o segredo que não querem que ele descubra: a origem judaica capaz de inviabilizar desejos de fidalguia e de ascensão no clero e na administração pública. Era comum, à época, que os descendentes de judeus convertidos ao cristianismo para escapar da Inquisição fossem conhecidos na Península Ibérica como B’nei anussim (filhos dos forçados), ou marranos, palavra provavelmente oriunda da Idade Média, com o significado de suínos.

Fundada em Portugal em 1536 e extinta apenas em 1821, a Inquisição penalizou milhares, sob o argumento da defesa da moral religiosa e a purificação das almas pecadoras, com degredos, confisco, penitências espirituais e execuções pelo fogo ou pelo garrote. A extensa documentação sobre sua atuação no Brasil mostra centenas de processos por atentado à moral católica, feitiçaria, blasfêmia, cripto-judaísmo (prática da lei mosaica e dos ritos judeus em segredo), bigamia e sodomia — o chamado “amor repugnante”, exatamente o que marcava a relação entre o branco Felipe e a preta Vitória.

Cerzindo os fios da trama, amalgamando com engenhosidade os suspenses e reviravoltas em uma cidade que crescia de forma desordenada e um tanto caótica, como os sentimentos que então afloram entre os personagens, Eliana consegue prender a atenção a partir de um talento imenso para contar boas histórias, a ponto de deixar o resenhista tentado a revelar segredos que vão se avolumando. Assim, a trama eletrizante apresenta aquele que é, no fundo, o protagonista do romance: o corpo (livre/escravizado) e o que definimos como corporeidade.

Corporeidade

Na definição ocidental, corporeidade é a maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento de relação com o mundo. Minha perspectiva é outra: vejo-a a partir do complexo das macumbas brasileiras — o campo de saberes expressos nos espaços praticados como terreiros (rodas de samba, de capoeira, bailes, giras de santo, desfiles das escolas de samba, jogos de futebol etc.). Para as sabedorias africanas, corporeidade é a maneira pela qual o corpo fala, brinca, pulsa, domina a bola, ocupa o espaço vazio do campo com o drible, reconhece a ginga e o samba. O tambor e a bola também reconhecem o corpo, e interagem como instrumentos relacionais com o mundo, amalgamando-se ritmicamente em corpos de mandinga, transitando para reexistir, couro e corpo, como uma coisa só.

A colonialidade — e todo o livro é atravessado por essa ideia — é um empreendimento de ataque aos corpos. O corpo é atacado a partir da domesticação como arado (talhado para o trabalho); como corpo masculino viril; como corpo feminino destinado à reprodução e ao uso do macho. Todos os corpos são potenciais lugares do pecado, já que podem desafiar a cultura oficial de sociedades hétero-patriarcais e brancas, o poder temporal dos reis e o poder religioso dos padres. 

Os desejos contidos, os corpos reprimidos, amarrados, adoecidos, fiscalizados, normatizados, perpassam cada página e apontam para os subterrâneos de questões estruturais que ainda hoje nos assombram. Como contraponto, surgem os corpos que buscam ser protagonistas de seus desejos e modos de estar no mundo. O desafio do reconhecimento do próprio corpo e a tarefa de reconhecer o corpo do outro continuam sendo elementos da patologia da colonialidade, que vê corpos pretos como ameaças que precisam ser contidas, domadas e aniquiladas. Está aí o Brasil oficial que, em 2020, parece continuar no século 18. 

Entre sinhás, sinhazinhas, fidalgos, sacerdotes, inquisidores, escravizados, forros, judeus, cristãos, corpos brancos e pretos, o livro coloca a questão que desafia a todos nós: quem é, afinal, o escravo na história? Quem é livre? É possível ser livre quando alguém é escravizado? Dessa maneira, a pedra de Exu, pela caneta de Eliana Alves Cruz, continua o vai e vem da sua longa e desafiadora viagem.

Quem escreveu esse texto

Luiz Antonio Simas

Historiador, escreveu Almanaque brasilidades (Bazar do Tempo).
 

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.