A escritora Lina Meruane (Isabel Wagemann/Divulgação)

Literatura,

O rosto é fluido

Chilena de origem palestina, Lina Meruane fala sobre o genocídio em Gaza, a importância do corpo em seus livros e as múltiplas identidades que podemos ter

11ago2025

Em algum aeroporto do mundo, um homem que divide o elevador com a escritora chilena Lina Meruane pergunta: “Are you a hebrew?” [Você é hebraica?]. O questionamento arranha os ouvidos de Meruane, que tem origem palestina por parte de pai e italiana por parte de mãe. “Estranha maneira de perguntar se sou judia ou se sou israelense, misturando a identidade religiosa e nacional com o idioma”, escreve ela em “Rostos do meu rosto”, ensaio acrescentado à nova edição ampliada de Tornar-se Palestina, que a editora Relicário acaba de lançar com tradução de Mariana Sanchez e prefácio mais do que especial do escritor Milton Hatoum.

Misturando alemão e inglês, ela responde com outra pergunta: “Why? Do I look like one? [Por quê? Eu me pareço com uma?]. O homem, com um sorriso no rosto, retruca que ele talvez tenha visto uma de suas caras, a sua “mediterranean face” [cara mediterrânea]. “Passei anos explicando que não sou francesa nem italiana nem grega nem egípcia nem marroquina nem turca nem espanhola, que nem sequer sou totalmente palestina, por mais que o olho treinado da Segurança Israelense tenha advertido na hora minha palestinidade a única vez em que viajei à Palestina”, escreve em seguida.

Essa não foi a primeira nem a última vez que lhe perguntaram se era israelense. Corta para sua primeira viagem à Palestina, em uma esquina em Jerusalém. Uma mulher lhe faz uma pergunta em uma língua que ela desconhece. Desculpando-se, Meruane diz em inglês que não fala nem hebraico nem árabe. A mulher, claramente ofendida, a repreende no que Meruane identifica como hebraico. “E entendi que seu mi po medaber aravit bijlal equivalia à furiosa pergunta: quem é que fala árabe aqui? Como eu me atrevia a pensar que ela pudesse ser árabe? Mas ela tinha falado comigo em hebraico, pensei, ela tinha me olhado, tinha visto meu rosto, tinha acreditado que estava falando com uma israelense.” Logo depois, a autora chilena questiona: “Quantos rostos há em um rosto?”.

‘Possuímos identidades que são ativadas e desativadas pelo olhar e pela projeção dos outros’

“Nessa parte, quis fazer uma reflexão sobre a fluidez das identidades, como as identidades se ativam em momentos de crise”, explicou ela em entrevista à Quatro Cinco Um em São Paulo, onde estava para participar d’A Feira do Livro, realizada em junho na praça Charles Miller, no Pacaembu. “Eu não sou feminista até que minha identidade como mulher seja tensionada. Eu não sou palestina até que saia do Chile, onde os palestinos são uma comunidade assimilada, e chego nos Estados Unidos onde, após o ataque às Torres Gêmeas [em 11 de setembro de 2001], os palestinos são vistos como os autores desse atentado. Ou então a Israel, onde me identificaram como palestina como se eu fosse uma pessoa suspeita. A partir daí, eu, que nunca havia realmente pensado em termos identitários, começo uma reflexão sobre o modo como possuímos uma série de identidades que são ativadas e desativadas pelo olhar e pela projeção dos outros.”

Tornar-se muitas

Meruane começou a fazer esses questionamentos à medida que passou a viajar mais pelo mundo e muitas pessoas tentavam adivinhar qual era sua identidade partindo da sua aparência, de seu nome, de sua forma de falar ou de vestir. A autora, por sinal, vive em trânsito: entre os Estados Unidos, onde leciona escrita criativa em espanhol na Universidade de Nova York; Espanha, país de origem de seu marido; e Chile, sua terra natal, à qual sempre retorna. “Não é só o rosto, é o rosto acompanhado de uma série de outros elementos. Por isso, eu podia ser turca, ou podia ser francesa em Paris, ou ser peruana no Peru”, conta.

A identidade, ela percebe, é cultural e relacional, depende do lugar onde se está. “Por que acham que sou israelense e não árabe? A minha maneira de entender isso foi que o jeito como falo inglês tem algo que não soa estadunidense, claramente sou de outro lugar. E, se falo inglês, não posso ser árabe, se me visto de forma ‘moderna’, não posso ser árabe, porque existe um estereótipo de como mulheres árabes falam e se vestem. E o mais próximo de uma mulher árabe usando roupas ‘modernas’ é ser israelense. Isso me fez pensar como temos necessidade de saber quem é o outro, de localizar a sua origem para tirar conclusões sobre quem essa pessoa é e o que ela pensa, antes de realmente conhecê-la”, avalia.

Em “Rostos do meu rosto”, ela relata sua segunda viagem à Palestina, o (re)encontro com os Meruane que ficaram por lá, e amplia as discussões em torno da identidade e da importância da linguagem nos conflitos. Nesse sentido, Tornar-se Palestina, publicado originalmente no México em 2013 e no Brasil em 2019, continua infelizmente bastante atual. Na visão de Meruane, o que se passa agora em Gaza e na Cisjordânia não difere muito do que ocorria dez, vinte ou setenta anos atrás. O genocídio do povo palestino nunca parou.

“O que está acontecendo agora não é radicalmente diferente do que estava acontecendo antes. É simplesmente uma aceleração e uma intensificação de um processo colonial genocida”, diz. “Quando começou o 7 de Outubro de 2023, a imprensa e as pessoas falavam como se fosse algo que aconteceu de um dia para o outro. Não é o caso. Foi uma data conveniente e estratégica para a manutenção do discurso de legítima defesa do Estado de Israel”, ela afirma. “A autodefesa coloca Israel no lugar eterno da vítima. Isso faz parte de uma longa história. Gaza estava cercada desde 2006, sendo uma prisão a céu aberto, e vivia um regime de fome imposto por Israel.”

“A violência é precedida por sua formulação verbal”, já alertava Meruane em Tornar-se Palestina. Ou seja, a linguagem escolhida para descrever o que acontece em disputas e conflitos é de vital importância. O modo como nomeamos as coisas nos faz inevitavelmente escolher lados. “Tudo o que Israel estava fazendo com Gaza antes fica esquecido quando há um ataque do Hamas no sul de Israel, e Israel impõe o 7 de Outubro de 2023 como o início da chamada guerra. Não é uma guerra, porque não há dois Estados nem dois contingentes militares similares”, reflete.

Sinais do corpo

Se em Tornar-se Palestina a violência está na imposição de identidades a partir do olhar de terceiros, Sinais de nós gira em torno da ausência dos corpos. Nesse ensaio autobiográfico também lançado pela Relicário, com tradução de Elisa Menezes, Meruane recorda os dias em que foi aluna de um colégio inglês durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, quando não estava ciente dos sinais da brutalidade desse regime: colegas que paravam de ir às aulas, pais de alguns alunos que desapareciam ou a presença de agentes da Central Nacional de Informaciones na escola, que faziam a segurança de um neto de Pinochet. Era um momento em que “a Junta Militar decretava que as denúncias eram falsas ou que os desaparecimentos e as execuções eram suposições, pois não havia corpos que os comprovassem”, escreve a autora no livro. Perguntas não deviam ser feitas. O silêncio que imperava nesse cotidiano também causou cicatrizes nunca plenamente fechadas.

Os fantasmas dos corpos desaparecidos reaparecem em Sistema nervoso (Todavia, 2020), traduzido por Sérgio Molina. Nesse romance com uma estrutura bastante intrincada, Ele, um dos protagonistas ao lado de Ela, é um antropólogo forense que estuda ossos, inclusive de pessoas que desapareceram durante a ditadura chilena. Tanto Ele quanto Ela passam a sofrer de anomalias físicas enigmáticas que são descritas em detalhes pelo narrador, da mesma forma que Ela se recorda do histórico de doenças da própria família no Chile.

“Entendi que o corpo é um alvo do poder, que é o objeto da política, quando li Vigiar e punir, de Michel Foucault. Qual era o alvo da ditadura? Os corpos. Corpos que eram sequestrados, torturados, assassinados, desaparecidos. É uma forma de amedrontar outros corpos rebeldes”, explica Meruane. “A ditadura chilena também manipulou um discurso muito normativo sobre o corpo feminino, mandando-o de volta para casa, a fim de cumprir funções maternas, que estão ligadas diretamente à capacidade de seus corpos. As mulheres tinham que ficar em casa tendo filhos e cuidando deles.”

Ensaio furioso e cáustico que defende o direito das mulheres de não serem mães, Contra os filhos (Todavia, 2018), traduzido por Paloma Vidal, é de alguma maneira uma resposta a esse discurso, que vem sendo atualizado de maneira mais light na forma do “sagrado feminino” ou até em defesa da sustentabilidade do meio ambiente. A partir de citações de escritoras que aceitaram esse papel ou fugiram dele, Meruane traça uma genealogia da tirania crescente dos modelos atuais de maternidade, que limitam a liberdade das mulheres.

Já no impressionante Sangue no olho, primeiro romance da autora publicado no Brasil — pela Cosac Naify, em 2015, com tradução de Josely Vianna Baptista e infelizmente fora de catálogo —, uma escritora diabética, filha de médicos chilenos e que vive em Nova York, tem sua visão comprometida quando seus olhos são tomados por sangue.

Cada vez mais dependente do companheiro, ela retorna ao Chile, onde se vê sufocada pelo cuidado familiar e as lembranças da ditadura de Pinochet. Meruane chegou a passar por um episódio parecido, mas não tão grave quanto o da personagem fictícia. Diabética desde criança, ela diz que sempre teve que estar atenta ao próprio corpo para se manter viva, e por isso sua escrita é muito corpórea; além do mais, vem de uma família de médicos. “Brinco que minha língua materna é a língua médica”, conta.

‘A consciência da doença, da vulnerabilidade, da fragilidade está muito presente nas mulheres’

Assim, em vez de negar o corpo, como fizeram muitos escritores homens ao longo da história, ela mergulha nas secreções, reentrâncias, nervuras, órgãos e sistemas da nossa fisicalidade. Afinal, para as mulheres é difícil fugir do próprio corpo. “Desde muito cedo, nossos corpos doem, sangram, maternam, se deformam na gravidez. São corpos que envelhecem, que cuidam de outros corpos. A consciência da doença, da vulnerabilidade, da fragilidade está muito presente nas mulheres. Também está presente na vida dos homens, mas de uma forma mais negada ou delegada às mulheres. Ao passo que os homens vivem menos com seus corpos, com exceção talvez para o sexo, as mulheres vivem seus corpos com mais intensidade”, pondera. “O corpo está por todos os lados. Por isso meus textos apresentam um temperamento muito visceral.”

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.