Ilustrações de Leonor Pérez

Literatura infantojuvenil,

Passos sem mapa

Caminhantes narra, do ponto de vista da infância, a migração forçada e transforma o seguir adiante em gesto poético e político

17jan2026 • Atualizado em: 16jan2026

Entre as fronteiras em que texto e imagem se fundem e criam reflexões sobre deslocamento, perda e pertencimento está Caminhantes (Ovolê, 2025). O infantojuvenil da paranaense Denise Gonçalves e da chilena Leonor Pérez narra, para as infâncias, a experiência da migração forçada com cenas simbólicas que remetem às grandes crises contemporâneas. O livro acompanha personagens de todas as idades, sem nome ou nacionalidade, e em trânsito físico e emocional.

A escritora Denise Gonçalves e a ilustradora Leonor Pérez (Divulgação)

Em entrevista à Quatro Cinco Um, as autoras falam sobre o caminhar como resistência e o uso da linguagem poética para contar às crianças sobre as crises humanitárias. 

Como nasceu Caminhantes?
Denise Gonçalves: No princípio, eram apenas duas artistas querendo unir sua arte. Vivi no Chile entre 2017 e 2023 e a Leonor foi minha professora na universidade. Viramos amigas e convivíamos em nossos ateliês. Uma vez, vi personagens e texturas que a Leo estava experimentando com o nanquim. Eram manchas muito expressivas, com movimentos espontâneos e orgânicos. Fiquei maravilhada e ela me disse que também tinha se “acariñado destes seres” -— então me pediu um texto. Na época, estava refletindo sobre as minhas andanças por Chile, França e Brasil. Suas figuras também andavam para algum lugar. Começamos a imaginar uma jornada emocional (e política): a de migrantes no mundo e na história.

Ilustrações de Leonor Pérez (Divulgação)

Como o deslocamento humano se manifesta na narrativa? 
DG: As conexões são sutis, não revelam alguns dos conflitos reais, como o embate violento ou a insegurança alimentar, mas mostram as consequências de tais acontecimentos, principalmente o que sente uma pessoa que é migrante. Como a gestante que não tem a passagem de volta para o lar — uma mãe que chegou, com o filho pequeno, a um lugar que lhes é hostil, onde evitam lhes dirigir o olhar. Mas também é sobre o retorno depois de um tempo: o reencontro com uma pessoa amada ou a criança que nasce em um território seguro.

“Em um sistema opressivo e que desumaniza, um passo após o outro é um gesto mínimo de não rendição”

No que a linguagem poética contribui para falar de crises humanas?
DG: A psicanalista Clarissa Pinkola Estés conta, em A ciranda das mulheres sábias (Rocco, 2007), uma história que aponta uma direção. Ela era criança nos eua e esperava as tias na estação de trem, migradas dos campos de concentração na Europa. De longe, avistou três mulheres enormes saindo da locomotiva e ficou muito impressionada. Quando elas se aproximaram, percebeu que as tias estavam usando todas as roupas que possuíam e tinham escoriações e feridas no rosto, áreas sem cabelo na cabeça, mas a abraçavam e sorriam muito. Apesar da barbárie, as tias, em sua percepção infantil, eram gigantes. O que quero dizer é que a linguagem poética consegue dar corpo ao inenarrável. 

Leonor Pérez: Essa linguagem é poderosa porque não explica de maneira literal nem moralizante, mas acolhe a experiência sensível. Em vez de explicar as crises de forma didática ou descritiva, se refere a ela de modo sugestivo. A voz poética gera mais reflexões do que o tom moral, porque é aberta e permite a projeção da experiência de cada leitor. 

Por que não localizar os personagens em um tempo e lugar?
LP: Queríamos transmitir a universalidade da migração. Por isso há cenas em cidades e paisagens diversas, habitadas por pessoas com vestimentas que sugerem outras épocas e lugares.

Caminhar é imposição ou resistência?
LP: É um zoom, uma sinédoque da ação do deslocamento. Além de uma atividade cotidiana, é o reflexo de um movimento maior. Muitos migrantes atravessam quilômetros a pé, carregando malas, incertezas e vulnerabilidades. A imagem da caminhada infinita é uma representação eloquente do que significa o deslocamento forçado.

DG: Do ponto de vista político, os grandes deslocamentos humanos são permeados por atmosferas violentas e precárias, em que a preservação da vida se torna impossível. Então, caminhar pode ser mandatório para a sobrevivência. Por outro lado, os desejos de liberdade — viver dignamente e com direito à integridade do corpo — são básicos. Em um sistema opressivo e que desumaniza, creio que “um passo após o outro” é um gesto mínimo de não rendição.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.