Literatura infantojuvenil,
O que emerge da memória
Em U-507, documentos históricos e ficção recontam o torpedeamento de navios brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial
20fev2026 • Atualizado em: 23fev2026Em agosto de 1942, o submarino alemão U-507 emergiu como sombra no Atlântico e afundou embarcações brasileiras na costa de Sergipe e Bahia, deixando centenas de mortos e precipitando a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. O episódio, pouco lembrado nos livros didáticos, é o ponto de partida de U-507 (Global), dos premiados Roger Mello e Felipe Cavalcante, que transformam destroços históricos em narrativa literária, sem atenuar a tragédia — mas também sem abdicar da imaginação.
Nesta entrevista para a Quatro Cinco Um, os autores relembram o trauma que atingiu suas famílias e a memória que deve continuar ecoando após a última página do livro.
O que foi o episódio com o U-507?
Roger Mello: É uma história que diz muito sobre o nosso país: apesar de ser bem documentada nos registros, pouco permanece na memória coletiva. Poucos sabem sobre o episódio que deixou seiscentas pessoas mortas, e que pode estar no passado de suas famílias, assim como faz parte da minha história familiar e da do Felipe. Afetou o país inteiro, porque os navios eram um dos pouco meios de transporte em atividade, e o principal para o contato com outros países. Seis navegações mercantis foram atacadas sem piedade por Harro Schacht, comandante do submarino U-507.
De onde veio a inspiração para transformar o episódio em ficção?
RM: Eu e o Felipe usamos a nossa família e algumas poucas pistas que eles nos deram. Começamos o livro com a informação poética inspirada em um passeio noturno por Aracaju. O irmão da minha mãe nunca tinha visto a Lua, porque era colocado para dormir cedo. Esse elemento parece algo que sairia dos livros de García Márquez. No livro, o Felipe adicionou mais um toque poético: o menino coloca a Lua no bolso da calça, que depois é posta para lavar. É o fantástico com um pé no real.
Felipe Cavalcante: Não há fato sem capacidade ficcional ou sobre o qual não consigamos inventar algo. Ao partir dessa perspectiva infantil sobre um momento triste da história, também conseguimos aproximar as crianças da memória coletiva do país.
As guerras que estão sendo televisionadas não são ficção, são o agora
O vilão se revela complexo. Porquê?
RM: Vilões caricatos não cativam, mas vilões complexos e com certa humanidade inquietam. Como a protagonista não tem contato com o comandante, é só pelo seu diário que temos outra leitura: há registros de que ele salvou pessoas em uma passagem próxima à costa da África, antes do episódio em Sergipe. Mas ele é um vilão, indubitavelmente. Encarna o próprio submarino como se fosse uma extensão da força da mente de guerra, e estava a serviço da banalidade do mal.
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Como criou a narrativa visual, que estará na exposição da Feira do Livro Infantil de Bolonha 2026?
FC: A criação partiu dos objetos, como o tecido que veio do mar e o próprio submarino, que se torna personagem junto aos navios que afundou e às histórias e objetos de memória que continham.
A pandemia atravessou U-507 porque, à época, eu colecionava milhões de recibos de compra. Muitas das texturas das ilustrações vieram da reação química entre papel e todo aquele álcool em gel, o que me trouxe a ideia para o maquinário do submarino e para as características mecanizadas das pessoas durante a guerra.
Porque falar sobre guerra com as crianças?
FC: A história não é tão nítida enquanto a vivemos, mas a encaramos de outra forma quando se torna dado histórico. Em U-507, não falamos só sobre um período ou algo que aconteceu, mas sobre parte da nossa memória que precisa ser revisitada. Isso tem função para todos, mas principalmente para as crianças, porque dialogam com essa memória enquanto estão vivendo. Essa postura é o futuro e o presente, pois as guerras que estão sendo televisionadas não são ficção, são o agora.
RM: É assim que entendemos a permanência dos danos. Essa história quase deixou de existir e para muitos parece que nem existiu. Às vezes, parece que é um trauma da nossa família, mas é um trauma do Brasil. E demora um tempo para criar essa perspectiva, ainda mais porque é difícil encontrar dados sobre o ocorrido em livros de história e na ficção. Mas não é irrelevante só porque aconteceu no menor estado da Federação.
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