Literatura infantojuvenil,

O poder do baobá

A autora potiguar Inaldete Pinheiro de Andrade coloca a árvore no centro da narrativa para tratar do tráfico atlântico e do retorno às raízes

14abr2022 - 10h53 | Edição #56

De origem africana e símbolo de força e resistência, o baobá é o protagonista de Uma aventura do Velho Baobá, da autora potiguar radicada no Recife Inaldete Pinheiro de Andrade, lançado pela editora Pequena Zahar. Com belas ilustrações de Ianah Maia, feitas de geotinta, o livro narra a viagem cruzando o Atlântico do Velho Baobá para visitar seus parentes no continente africano. Pinheiro de Andrade, de 75 anos, tem uma longa vivência com a militância, sendo uma das fundadoras do Movimento Negro de Pernambuco, com uma atuação forte nas escolas. Além de escritora, ela também é pesquisadora, buscando trazer a herança africana para o centro do debate. Autora de livros como Escritos das escravidões e Escritos das liberdades (ambos da editora Castanha Mecânica) e de doze livros infantis, ela conversou com a Quatro Cinco Um sobre seu amor pelo baobá, a diferença que faz uma boa biblioteca nas escolas públicas e a importância de abordar temas difíceis de forma lúdica para as crianças. 

Alguns de seus livros: Cinco cantigas para se contar (1989), Pai Adão era nagô (1989), editado pelo Centro de Cultura Luiz Freire, Racismo e antirracismo na literatura infantojuvenil (2001), pela Etnia Produção Editorial, A calunga e o maracatu (2007), editado pela Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife, e Baobás de Ipojuca (2008), pelas Edições Bagaço, são exemplo de sua preocupação com a educação em cultura afro-brasileira.

De onde surgiu a vontade de escrever para crianças?
Comecei a escrita com a poesia, mas quando participei do movimento negro, em 1979, logo no início das primeiras reuniões, uma companheira que morava nos bairros populares tinha uma escolinha de bairro, nada oficial. Ela disse também que essas crianças eram insultadas e desrespeitadas por estarem ligadas a um terreiro em Pernambuco. Elas tinham medo de se levantar, já incorporaram cedo essa vergonha. Quis que as crianças soubessem como um terreiro se movimentava. Fiz um texto e chamei em homenagem a Pai Adão Nagô, que era um sacerdote, já falecido, do terreiro mais antigo de Pernambuco. Botei o nome do livro Pai Adão era nagô, porque era um nome muito conhecido aqui em Pernambuco, era uma figura muito emblemática. Era um texto datilografado, e junto com ele veio um outro, Cinco cantigas para se contar. Eu aproveitava cantigas de ninar ou cantigas de roda: “Atirei o pau no gato” e “Escravos de Jó”, com o verso “Guerreiros, com guerreiros fazem zig, zig, zaz”. Explicava que esse “zaz” era o momento da fuga dos escravizados. E os textos ficaram muito bonitos, sem modéstia. As crianças não sabiam interpretar com detalhes, então faziam por desenhos. Saiu cada desenho muito bonito. Um grupo que trabalha com educação popular, uma ONG, achou tão bonito aquele resultado que resolveu publicar. Foi aí que nasceram os meus primeiros dois livros em 1989. A partir daí, eu tomei gosto pela literatura infantil, porque esse livro foi muito apreciado.

Da onde veio essa simbologia do baobá para o seu livro? 
É a árvore de referência que nós temos, pelo menos eu e algumas poucas pessoas da militância. É como se fosse a presença africana nessa árvore. Pernambuco tem muitos baobás, no Brasil, é o estado que tem mais baobás, digo isso sem medo. Muitas pessoas plantam sem a referência que eu tenho, porque é uma árvore bonita. Outras têm a convicção desse símbolo. A gente encontra muitos baobás inesperadamente em Recife, muitos eu sei onde estão, reconheço, visito. Mas outros são uma surpresa muito agradável de encontrar, e ele me atrai. Meu olhar vai em cima dele. Isso começou em 1980, mais ou menos. Perto da minha casa tinha uma praça que vendia plantinhas ornamentais, e eu ia comprar para plantar na minha casa. E nessa sementeira tinha uma árvore imensa, eu não sabia que árvore era aquela porque não tinha identificação. Quando viajei para fora do Brasil, percebi essa mesma árvore, tinha um baobá atrás do outro. Aí fiz a ponte de que era aquela árvore que eu conhecia aqui e que não sabia qual era. Depois que eu voltei e constatei que era a mesma árvore, a paixão eternizou. O baobá é um mote para poder falar das questões étnicas. E todos os baobás que menciono no livro existem em Pernambuco. São reais. A história é real, só que tem a licença poética.
 


Ilustração de Ianah Maia [Divulgação]

O seu livro fala também de buscar as próprias raízes, porque o Velho Baobá cruza o Atlântico para visitar os parentes na África.
Tem um pouco de navio negreiro, só que com o Baobá foi diferente. Ele teve a opção de ir e vir. Já não é um navio negreiro, é você fazer outra migração espontânea. É diferente. É aquilo a que nós não temos direito. É chegar lá em África e saber dos parentes lá em África. O Baobá veio e conheceu os parentes e voltou numa boa. Feliz, teve alegrias, teve tristezas, mas voltou numa boa. Voltou porque seu lugar no continente africano é uma analogia também.

Fiquei pensando se, por acaso, você também é esse Velho Baobá?
Eu sou a inventora dessa história. Eu sou uma velhinha contadora de histórias. Por eu ser uma das mais velhas do movimento negro em Recife, as pessoas têm esse carinho. As pessoas já me veem nisso, mas baobá, não. Tem que ter muito exercício para atingir o poder de baobá e isso é soberba.

Como foi o trabalho junto com a ilustradora Ianah Maia?
As editoras do livro me colocaram em contato com ela. Foi muito bom, eu só gosto de trabalhar assim. Os ilustradores e ilustradoras, todos fui eu que escolhi. Para mim, isso é fundamental. Quero que a ilustração diga o que estou falando. Nós  discutimos muito e chegamos a um ajuste. Tem outra vantagem nessa ilustração porque foi a primeira vez que a Ianah ilustrou um livro, porque ela trabalha com outras formas de expressão que não ilustração de livro, mas ela conseguiu dar o recado com a nossa ajuda. Orientamos, mostrei fotos de baobás, além do que ela viu na internet. Achei muito bonito o resultado final, com cores muito bonitas.
 


Ilustração de Ianah Maia [Divulgação]

Você foi uma das fundadoras do Movimento Negro do Recife, em 1979, e continua ativa na militância. Quais mudanças você sente com relação à inserção social das pessoas negras no Brasil daquela época para agora e como vê essa questão no mercado editorial?
Foi uma mudança visível e expressiva. Alguns escritores negros já têm acesso às grandes editoras. Conceição Evaristo demorou muito para ter essa visibilidade e, que bom, porque parece que agora ela está tirando o atraso. Nós somos contemporâneas, só que Conceição é escritora 24 horas. Então, ela não para de escrever e sempre tem um livro pronto. Hoje Conceição já tem acesso a essas editoras, é uma minoria que tem acesso. Aqui em Recife, é uma periferia do Brasil. Norte e Nordeste parece que não existem. Muito ainda precisa ser feito. Elisa Lucinda tem acesso, assim como Nei Lopes. Finalmente, eu posso contar uns dez [escritores negros] depois de tantas pessoas, e eu ainda vou ter dificuldade de contar outros dez e há muita gente boa ainda. Em contrapartida, autores africanos e norte-americanos estão aqui. E que bom, mas faltam mais publicações de autores negros brasileiros.

Qual livro você gostaria de ter lido na sua infância?
Eu não sinto falta de muita coisa, eu li o que quis, porque foi espontâneo, não porque a escola recomendou. Li os clássicos da literatura infantil, os irmãos Grimm; Ana Maria Machado foi minha autora predileta. Li muita literatura infantil não negra. Li 83 livros pra fazer uma pesquisa sobre a literatura infantil. Então, eu conheço bem a área por isso. Tenho muita coisa que ler ainda.

Como incentivar o hábito da leitura entre as crianças?
Uma excelente biblioteca e uma excelente bibliotecária, ou uma professora que goste de ler, que acha necessário que a criança leia, para desenvolver várias aptidões, e uma gerente de biblioteca que também trabalha junto da professora, e você tem um desenvolvimento fantástico. Se houver este equipamento: a bibliotecária, os livros (porque também não dá para botar qualquer livro) e um cantinho pros livros, a coisa deslancha.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.