Ilustração de Mariana Zanetti (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

No compasso do asfalto

É pico! mostra a cidade como um território de invenção, resistência e liberdade — tudo isso em cima de um skate

18out2025 • Atualizado em: 17out2025

Em É pico! (Baião), o skatista profissional Murilo Romão e a ilustradora Mariana Zanetti transformam o movimento dos corpos em cima de um skate em motivo para repensar os espaços públicos e o ir e vir da cidade.

Nas ilustrações, que lembram vídeos de skate, os personagens deslizam entre o concreto e o imaginário, provocando sobre o que é cair, levantar e seguir — seja sobre quatro rodinhas ou pelo compasso das palavras. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Romão fala sobre a cena do skate no Brasil, planejamento urbano inclusivo e a importância das crianças viverem a cidade.

O escritor e skatista profissional Murilo Romão (Divulgação/Guilherme Veloso)

Como surgiu a ideia de transformar o universo do skate em literatura?

Conheci a Mariana Zanetti por conta de seu livro O jacaré fujão no Triângulo (Acácia Cultural, 2023), com a Sabrina Fontenele. Uma das ilustrações é o Anhangabaú novo — a parte que chamamos de Memorial depois do movimento Salve o Vale. Nos conhecemos e, conversando sobre skate e amigos  em comum, pensamos em fazer algo juntos. Na reunião com a editora, levei exemplos de livros sobre a prática, e a Mari usou os vídeos que faço enquanto ando de skate pela cidade. Ela escolheu gravações que têm bastante significado e fez do É pico! um livro em frames, com o texto como se fosse a legenda.

O skate é mais do que um esporte? É linguagem, técnica ou política?

O skate representa a ideia de usar a cidade de outro jeito. Frequentamos lugares que estão abandonados e o skate consegue resgatar, despertar o interesse de outros — que até se apropriam do lugar. Por isso estamos sempre buscando um espaço novo [risos]. Ocupar a cidade de uma forma diferente e reivindicar lugares, como fizemos na treta do Anhangabaú, é política.

O que foi a “treta” do Anhangabaú?

O vale do Anhangabaú antigo era um lugar clássico para o skate desde os anos 90. Mas aí começaram a colocar os tapumes. Nos manifestamos e formamos, com outros grupos, o movimento Salve o Vale.

Na época da consulta sobre o projeto do vale, falaram que teria uma pista de skate. Agora, olha que louco é ter que falar para a Prefeitura que a gente não quer pista [risos]. Queríamos um pico de skate, um monumento — algo que fosse para todo mundo e não só para nós.

Você se vê em diálogo com outros autores brasileiros que escrevem a partir das ruas?

Sim, meus vídeos de skate são inspirados pelo João do Rio; pela arquiteta Paola Berenstein, autora do livro Elogio aos errantes; e pelo João Antônio, de Malagueta, Perus e Bacanaço. Os raps que ouvimos sempre reverenciam esses autores marginais, isso de ver e viver a rua. Skate e hip-hop se conectam por essa ideia. Parece que a cidade está sempre tentando limpar e afastar essas manifestações culturais, mas a gente dá um jeito [risos].

O que o leitor de É pico! aprende sobre a cena do skate?

A ideia é fazer um convite para que a gente use a rua, principalmente agora que a cidade está tão fechada em meio ao discurso de violência e de medo. E também incentivar a sair um pouco das telas. A molecada passa muito tempo no celular e no videogame, mas precisa viver a cidade real.

No skate você vê gente rica, pobre e de classe média interagindo e trocando ideias

O skate também permite a interação entre várias parcelas da sociedade: você vê gente com mais dinheiro, gente pobre e gente da classe média trocando ideias, às vezes interagindo com pessoas em situação de rua, que participam desses espaços. Isso tudo é importante para a criançada conhecer a própria cidade.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

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