Literatura infantojuvenil,
Festa de dois
Luiz Rufino invoca divindades gêmeas em narrativa sobre a infância entre tambores da cultura afro-brasileira
22set2025Pela voz de dois irmãos gêmeos, um feitiço se desfaz. O que sumiu reaparece, quem está perdido se encontra, caminhos se abrem. Mas tudo desses gêmeos, que parecem estar apenas brincando, é mais complexo — um com o pé na materialidade; o outro, no espiritual. Chamados de Ibejis na mitologia iorubá e sincretizados como os santos católicos Cosme e Damião, os dois são os protagonistas de Tambor encantado dos Ibejis (Pallas), escrito pelo carioca Luiz Rufino e ilustrado por Camilo Martins.
Na narrativa, o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mescla mito, filosofia dos orixás e ritmo ao mergulhar na ancestralidade afro-brasileira e celebrar a façanha dos rebentos de encontrarem liberdade no lúdico. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Rufino fala sobre encantamentos, conhecimento como resistência cultural e o caráter cíclico da vida.

Qual tambor encantado te deu a ideia para esse livro?
Dois grandes desejos. O primeiro era o de recontar narrativas comuns dos terreiros brasileiros, que são comunidades afro-religiosas, mas também são terreiros de folia e de brincadeira — a própria festa. Retomei uma narrativa iorubá presente na literatura oral de Ifá [oráculo africano] e tentei trazer para os dias de hoje. É preciso manter a toada dessas histórias contadas, porque a narrativa oral é tão antiga e tão pertencente ao agora e às perspectivas de um futuro.
O segundo foi pensar que há uma dimensão do mundo vinculada à saúde da vida que está profundamente implicada na alegria e em tudo que nasce conosco, mas que, por um desencantamento, uma adultização, acabamos perdendo aos poucos.
O que os Ibejis significam na cultura afro-brasileira atualmente?
Ibejis são divindades do complexo iorubano presentes do lado de cá do Atlântico — nos candomblés brasileiros, na santeria cubana e no culto da tradição do oráculo de Ifá. Elas remontam a algo muito comum na filosofia e na tradição dos orixás: pensar que a divindade que tem força no ser da criança é dupla, gêmea. Está relacionada à conexão entre o mundo material e o mundo imaterial e nos lembra que tudo tem um duplo.
Nós, que somos tão ocidentalizados e precarizados pelo racismo, nos tornamos devotos da razão em detrimento do espírito. Toda vez que falamos de espiritualidade, há quem ache que é uma coisa mística, fetichista. Na verdade, o que os Ibejis fazem é organizar uma saída tática que dobre, freie e drible essa falta de equilíbrio.
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Como explicar o orixá Iku? E o que leva ao desencanto que o travou?
Na perspectiva filosófica dessas tradições, Iku não é o oposto da vida; pelo contrário, é uma face dela. É o que dá sentido ao pensamento de que a vida é cíclica. As crianças entendem isso, são capazes de observar a natureza e o tempo, enquanto nós esquecemos que somos parte da natureza e temos uma relação de intimidade com o tempo. Crianças percebem a morte, reagem facilmente a ela. O problema é que vivemos em um mundo onde morrer não figura mais como o cumprimento de um ciclo e, sim, como uma antecipação, uma fratura, uma quebra. No livro, há elementos para que entendamos que o problema não é Iku, mas sim sua presença desconectada e atrelada à pressa, ao cansaço, à hiperprodução e à ausência de equilíbrio.
Como você vê a presença cada vez maior da cultura afro-brasileira nos livros infantojuvenis?
As comunidades negro-africanas na diáspora conseguiram manter e circular seus modos de saber, fazer e sentir o mundo através de pedagogias próprias. Crianças de comunidades afetadas por essa atmosfera de pensamento e conhecimento não são tratadas como na lógica ocidental e hegemônica, segundo a qual elas estão no mundo para se tornar adultas.
Nas tradições afro-brasileiras e indígenas, as crianças compõem uma existencialidade muito complexa e fundamentada, e não há tanta diferença em ser criança e ser ancião. O que muda é o momento em que você está fazendo a travessia no tempo, mas a força da vida é a mesma.
Uma das grandes saídas para uma vida plena é se dobrar ao encanto e ao mistério que está no miúdo
Além disso, essa presença maior parte da obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, prevista na Lei nº 11.645, de 2008. É importante que as crianças alcancem o debate não apenas para dar satisfação ao cumprimento da lei, mas para que estejam em contato com outras maneiras de pensar e sentir e possam questionar uma série de coisas que há muito tempo são consideradas verdades absolutas.
Como foi pensar a ilustração em parceria com o Camilo Martins?
Acho fantástico o tom contemporâneo que a arte de Camilo traz para a história, com crianças apresentadas sob o padrão estético do nosso tempo, vivendo nesta aldeia urbana que pode ser uma favela, uma periferia. Rodeadas de brincadeiras comuns, da alegria da vida comum. Até suas roupas lembram o uniforme da escola pública. Todos esses elementos trazem a sensação de que qualquer pessoa que ler e for para a rua enxergará a própria vida. Isso é iorubá, já que, nas narrativas míticas, tudo está acontecendo agora — o tempo é expandido, não é linear.
O que é ser um devoto das crianças?
Você pode ser devoto ao orixá Ibeji, pode praticar a ibejada e a falange de erê (na Umbanda), pode comungar os ritos de Cosme e Damião, mas o que há em comum é a confiança de que uma das grandes saídas para uma vida saudável e plena é se dobrar ao encanto e ao mistério que está no miúdo, sem buscar os parâmetros de grandeza das coisas. Toda criança refrata um pouco disso, mesmo as crianças dentro dos adultos. A devoção a elas é a grande intervenção no mundo. E acontece quando nos alegramos das nossas relações, brincamos, comemos juntos e resolvemos nossas brigas. É fazer festa, tocar tambor.
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