Literatura infantojuvenil,
Crescer sem podas
HQ de Ing Lee sobre o irmão aposta na convivência para escapar de estereótipos recorrentes na representação do espectro autista
17abr2026 • Atualizado em: 27abr2026A exemplo de um famoso conto de fadas, algumas histórias começam com sementes mágicas, mas nem todas precisam ser cortadas quando crescem demais. EmJoão pé-de-feijão (VR Editora), HQ autobiográfica da ilustradora e quadrinista Ing Lee, o gesto é outro: acompanhar, de perto, a descoberta dos muitos significados de crescer, a partir da convivência da artista com o irmão caçula João, uma criança no espectro autista.
Nesta entrevista para a Quatro Cinco Um, a mineira reflete sobre a recusa silenciosa ao conto tradicional e a estigmatização do autismo e propõe leituras que focam no que germina do cotidiano, sem moral, atalhos, diagnósticos ou explicações.
De que pé brotou a ideia para a HQ?
Veio de uma ideia que minha mãe me deu em 2021, quando tive uma lesão na mão e comecei a desenhar em um caderninho. Ela sugeriu que eu fizesse um livro sobre o meu irmão João, fez um roteiro e até me deu alguns caminhos. Estava muito prejudicada com a lesão, então a ideia teve de esperar.
Em 2023, a PlayGround [canal de mídia] me chamou para fazer séries de webtiras e senti que era o momento oportuno. Na época, eu estava me mudando de Belo Horizonte, minha cidade natal e onde morava com meus pais, para São Paulo. Estar longe deles foi uma mudança assustadora. O tempo que tive com o meu irmão e com a minha família foi canalizado para a HQ, que serviu também como um tributo à relação que construímos ao longo dos anos e uma forma de compilar essa sequência de acontecimentos.
O que simboliza o broto acima da cabeça do personagem do João?
Quando era caloura na faculdade de artes visuais, desenhei o meu irmão (ainda bem criança) com um brotinho na cabeça. Anos depois, criando a HQ, trouxe o elemento ao longo da narrativa: conforme o leitor vai descobrindo o diagnóstico do João, que vai crescendo e amadurecendo, a plantinha cresce também. No começo, durante as primeiras suspeitas, ela é pequena; quando ele está triste, murcha. Ela simboliza esse processo, além de ser uma metáfora para o conto “João e o pé de feijão”.
Na história original, o menino escala o pé, que cresce descontroladamente, e encontra um ogro; então o rouba e corta o galho. Mas eu não tinha interesse em cortá-lo. Muitas das abordagens com pessoas autistas é a de tentar podar e controlar. O João cresceu e segue crescendo de forma livre, confortável com quem ele é. Na minha visão, ele faria amizade com o ogro, não o mataria. Ele é desse tipo.
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Por que propõe menos explicações ao falar de neurodivergência?
Sou uma pessoa com deficiência — sou surda oralizada. Muitas vezes tenho de estar na posição de explicar o que isso significa: não me comunico por libras; uso um aparelho e faço leitura labial. É comum explicar tudo isso, mas há dias em que você fica de saco cheio. Acontece o mesmo com o João: as pessoas perguntam, às vezes com curiosidade, às vezes com certo preconceito. Por isso quis focar na convivência, nos recortes do dia a dia e nas nossas experiências juntos para além da visão estigmatizada — de uma vida trágica.
‘Foquei nos recortes do dia a dia para além da visão estigmatizada — essa ideia de uma vida trágica’
Também quis trazer um ponto de vista diferente — não o parental, que é o mais comum e costuma girar em torno do sofrimento dos pais, mas o de uma irmã. Quis propor um olhar para a humanidade de pessoas como o meu irmão, que costumam ser despersonalizadas pela condição. O João é uma criança mestiça como eu, brasileiro-coreana. Mas, para ele, o autismo é percebido antes da mestiçagem; na minha experiência, ainda que eu seja uma pessoa com deficiência, a raça é percebida antes.
Falta representação do autismo em outras mídias?
Sim. No geral, parece existir apenas dois tipos de autista. Um deles é “o esquisito”, que possui um hiperfoco muito específico e não sabe socializar muito bem. Então se torna o alívio cômico — muitas vezes, ele é Savant [condição rara de pessoas no espectro autista que exibem habilidades extraordinárias ou prodigiosas]. Creio que há interesse em mostrá-los assim porque alguns pais encontram o consolo, ao receber o diagnóstico, de que os filhos possam ser gênios. O outro tipo retratado é o de nível de suporte mais severo — nesses casos, o foco sempre está muito mais nos pais e cuidadores. Ambos são reais, mas a representação escassa limita as outras formas de existir no espectro autista. Precisamos de novas histórias.
Como a linguagem dos quadrinhos contribuiu para a história?
É uma linguagem que une escrita e desenho e, nesse encontro, posso ver uma terceira coisa, uma linguagem própria e nova: há os gestos, expressões e tons do João. Um texto, por mais descritivo que seja, não daria conta disso.
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