Literatura brasileira,

Escrever é aprender a morrer

Em entrevista, o psicanalista Christian Dunker ajuda a entender por que autores contemporâneos elaboram o luto por meio da escrita

23out2023 - 12h29 | Edição #75

A autora espanhola Rosa Montero diz, em A ridícula ideia de nunca mais te ver, que a primeira coisa que a dor arranca é a palavra. Já a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em Notas sobre o luto, afirma que esse sentimento derrota as palavras. Mas, se a dor e o luto arrancam e derrotam a palavra, por que tantos autores recorreram a ela para falar sobre a morte? Segundo o psicanalista Christian Dunker, isso ocorre porque a escrita pode fazer parte do processo de lidar com a morte.

Dunker, inclusive, escreveu seu recém-lançado Lutos finitos e infinitos, sob o impacto da morte de sua mãe. Em entrevista à Quatro Cinco Um, ele explica as seis etapas do luto, tomando como base Freud e Lacan para trazer seus próprios adendos e reflexões sobre o tema. Um deles é que não há regra geral. De acordo com o ele, a morte é algo “impossível de ser vivido”, pois é vivenciada através do outro, sendo um acontecimento que costuma se refletir no incompreensível e no indizível, como mostra uma safra de lançamentos que usam a escrita para elaborar o luto, entre os quais Holograma, de Mariana Godoy; Parte de mim, de Daniele Tavares; e As pequenas chances, de Natalia Timerman.

Ausência

Dunker diz que no primeiro dos seis momentos do luto a perda é sentida como ausência, e é comum agir como se a pessoa morta ainda estivesse por perto e fosse retornar a qualquer instante. É o que vemos em Holograma, livro de Mariana Godoy lançado pela Círculo de Poemas, em que o eu-lírico diz:

deve estar querendo alguma coisa 
que só eu sei onde está […]
grito já vou
e lembro que o enterro dele
foi ontem.

Godoy elabora o luto por seu pai, morto há onze anos, a partir da poesia. A poeta Daniele Tavares faz algo parecido em Parte de mim (Quelônio):

Não gritei, não chorei, não tive nenhuma reação. 
Eu só queria ver você. […]/ 
Fazemos cerimônia para a morte, como se ela pudesse 
nos fazer mais mal do que já fez.

O livro é uma espécie de conversa com a filha Manoela, que morreu há oito anos, e entrelaça relatos sobre a dor da perda, lembranças boas e ruins e trechos do diário da filha.

Perda de si

Para Dunker, o segundo estágio do luto é o da devastação sobre o eu, em que a pessoa não sabe mais quem é, sente-se outra, como se uma parte de si tivesse morrido. Em As pequenas chances (Todavia), Natalia Timerman elabora a morte do pai e questiona:

E o que é o luto, senão essa repetição necessária, esse repisar, e o que é a vida, senão a mesma coisa. Esse infinito perder, perder-se de si, buscar-se.

Essa perda de si é associada a uma loucura provisória, em que a morte é sentida como um abandono, é um tema antigo e caro à literatura. Até Hamlet de Shakespeare sofreu delírios depois da morte do pai.

Angústia

Já a terceira fase, ainda segundo Dunker, seria a da angústia. Nela, a morte do outro não é mais sentida como uma ofensa ao amor de quem ficou. “Muitos literatos exploraram essa dimensão às vezes melancólica do luto, o sentimento de que ele se torna infinito porque é incurável, a gente não vai se curar da morte”, explica o autor. Esse estágio aparece na literatura a partir do retorno dos mortos (como em Frankenstein ou nas figuras de zumbis e fantasmas) e naqueles que perdem a potência da morte (como os vampiros). Associações como essas, entre as narrativas escritas e a psicanálise, são comuns ao longo de Lutos finitos e infinitos

Encadeamento literário

Para Dunker, a literatura seria “uma espécie de condição para o aparecimento da psicanálise”. Não à toa, na quarta e quinta etapas do luto, essa relação se estreita ainda mais. O quarto momento “é quando o seu luto se encadeia com outros que você já viveu e com o de outras pessoas. Você parou de ser agredido, não está mais em angústia, mas está às voltas com viver com essa notícia”, diz.

Segundo Dunker, a escrita pode fazer parte do processo de lidar com a morte

Podemos pensar a literatura como um instrumento para o encadeamento dos lutos — uma forma de conectar o luto de uma pessoa aos das demais. “Quando, depois de alguns meses, encontro um livro da Adélia Prado que diz ‘Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei’, acho que ali tenho a noção de que meu pai morreu”, diz Godoy em conversa com a Quatro Cinco Um. “A literatura mostra que tem algo não encaixado, consegue traduzir uma coisa que é tão difícil de se dizer”.

O luto solitário

Em Lutos finitos e infinitos, Dunker cita uma pesquisa que sugere que o luto entre os brasileiros é vivido cada vez de forma mais envergonhada e individualizada, movimento comum em outros países. Antigamente a morte era pública, o luto era “parte visível dos nossos contratos sociais”. Havia ritos fúnebres que mobilizavam o espaço coletivo, funerais dentro das casas e narrativas orais. Essas ações mudaram com a modernidade, quando a morte passa a se concentrar em hospitais, os enterros se tornam privados e as narrativas religiosas ou orais sobre a morte sofrem um declínio.

“Hoje, a gente fala pouco e temos uma certa vergonha do processo de luto. Ele é cada vez mais um assunto profundamente individual, solitário e próprio”, diz Dunker. Uma hipótese que ele traz no livro é a de que as pessoas procuraram novas formas sociais de falar sobre o luto, que atendessem a essa “condição de privatização” dos tempos modernos. “A leitura é uma experiência de intimidade, então, na medida em que há um declínio da oralidade ligada à morte, começa a haver uma tematização maior do luto em estrutura de escrita”, diz Dunker.

‘A literatura brasileira contemporânea é sobre isso: lutos abertos e não reconhecidos’, diz Dunker

Isso explicaria a existência contemporânea de tantas obras envoltas nessa temática. Ainda mais durante ou após a pandemia, período em que não havia a possibilidade de cumprir os rituais fúnebres usuais e o luto se tornou ainda mais solitário. Pessoas que sentiram a necessidade de falar sobre suas experiências recorreram à escrita. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Daniele Tavares diz ter vivenciado esse isolamento: “Eu me senti muito sozinha no meu luto, porque a dor é muito solitária. E tem uma pressão da sociedade, que diz: ‘Nossa, você ainda está chorando?’. Esse livro foi uma forma que encontrei de sobreviver”.

Ao longo de seu livro Dunker também analisa como o processo de escrita é contemporâneo ao trabalho de luto. “Não quer dizer que quando você termina o luto, você termina o livro. Mas é uma aproximação possível. Muitos dizem que depois que fizeram o livro puderam se separar e se integrar a essa pessoa que perderam.”

Reparação estética

O quinto e penúltimo momento tem a ver com isso — é o da reparação estética, “é aquele período em que você se pega escrevendo, esculpindo, pintando ou criando sonhos. Em uma outra disposição de humor ou apreciando e lendo uma obra”, diz Dunker. Godoy se integrou ao pai por meio do trabalho com a memória e a invenção. “Ficcionalizar algumas coisas é uma forma de mudar o que aconteceu, de deixar a cena mais bonita. É quase como dar uma nova chance ao que ocorreu”, diz. Tavares faz algo parecido, encontrando na escrita uma forma de registrar o que foi bom: “Consigo chegar na imagem da minha filha na praia, correndo feliz. Cheguei à conclusão de que seria um livro de celebração à vida dela”.

Para Dunker, a conclusão do luto não é o apagamento da memória, mas a possibilidade de ela seguir com você “sem te espicaçar por dentro”. “Ela passa a fazer parte do seu patrimônio experiencial, simbólico, e por isso todo luto é finito e infinito”, diz o psicanalista. O luto concluído pode tratar da morte como algo belo — o que as artes fazem bem.

‘Meu luto não vai servir ao outro se não for esteticamente pensado’, diz a escritora Mariana Godoy

O investimento de editoras nessas obras indica que há demanda por elas, o que Dunker vê como natural uma vez que a morte está em todos os âmbitos da vida: “É a perda tanto de pessoas queridas quanto de amores que acabaram ou que nunca aconteceram, também é o trabalho que se tem para lidar com mudanças de fases da vida, ou ainda a elaboração de perdas de trabalho, saúde e, diz o Freud, de uma nação”.

A partir da leitura, o luto se torna coletivo, e pode-se refletir sobre mortes anteriores ou vindouras. O compromisso de transmissão — algo que tanto a psicanálise como a literatura trazem, segundo Dunker — impulsiona a escrita. Mas há também um compromisso com a arte — Tavares falou que só faria sentido publicar o livro se houvesse “um valor literário”; Godoy disse que não queria que sua narrativa parecesse terapia, mas literatura: “É um pouco sobre tirar de mim uma coisa que vai servir ao outro. Meu luto não vai servir ao outro se não for esteticamente pensado”.

Compromisso de transmissão

O compromisso de transmissão está especialmente conectado à sexta e última etapa do luto, que o Dunker descreve como  o momento da libertação. “Quando você se apropria desse desejo [deixado pela pessoa que morreu], ocorrem efeitos de alegria, de liberdade, de reconciliação, de refazimento do pacto entre os que se foram e os que estão aqui, e uma implicação com os que virão”, explica. Esse pacto, ele chama de “trato dos viventes” — um acordo entre os que se foram, os que estão vivos e os que ainda não nasceram. Em seu livro, Dunker escreve:

Isso significa entender o luto como um processo de transição pelo qual os vivos reinstalam e dão lugar simbólico aos que se foram, recriando, continuamente, a cultura. Os viventes colocam-se também como intermediários entre os que nasceram e morreram e os que ainda não nasceram, perspectivando futuros possíveis.

Segundo o psicanalista, o luto que “não vai para frente” gera formas patológicas de viver: “Não é custo grátis. O luto tem uma força indutiva de agressividade, de violência, de sofrimento, de sintomas sociais e individuais”, explica. Para o autor, isso é o que ocorreu historicamente no Brasil — podemos olhar para o luto “como afeto fundador” e enxergar o país a partir de uma população de enlutados, devido à violência presente em nossa história (como a escravidão, o descaso com os povos indígenas, a ditadura militar, a invasão em comunidades etc.). 

“Eu entendo que a literatura brasileira contemporânea é basicamente sobre isso: lutos abertos, não reconhecidos, e que reaparecem em patologias”, diz Dunker. A literatura ajuda a encarar lutos, para então concluí-los. Se escrever é aprender a morrer, como dizia Montaigne, então que a literatura continue nos ensinando.

Quem escreveu esse texto

Bruna Meneguetti

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.