Fichamento,

Cidinha da Silva

Escritora mineira relança livro esgotado desde 2018 e fala das matérias-primas que compõem sua escrita

01fev2021 - 02h00 | Edição #42

Na reedição lançada pela editora Oficina Raquel, os contos e crônicas de Oh, margem! Reinventa os rios!, de Cidinha da Silva, seguem o fluxo de um rio ao abordar desde racismo e “lugar de fala” até esporte, amor e sexo.

Essa edição foi organizada como o fluxo de um rio. Como isso afeta o ritmo da narrativa? 
Quisemos imprimir um ritmo diferente à narrativa, esse ritmo do rio que, como todo ser vivo, nasce, diz ao mundo que chegou, depois se espalha, ganha outros lugares, depois se apazigua, fica mais estável e, finalmente, deságua. Os textos foram organizados nesse ritmo das águas.

O livro é formado por contos e crônicas. Vê diferença na hora de escrever cada um deles? 
Vejo bastante diferença. A crônica pode ter personagens ou não e elas podem ser planas; sua existência já empresta certo charme ao gênero. Contos precisam ter personagens bem definidas, redondas, que nos marquem, que a gente não esqueça — isso é imperativo. A crônica pode ser mais objetiva. Se a autora quiser, pode entregar tudo para quem lê e o texto consegue manter-se como uma boa crônica. O conto, necessariamente, não entrega tudo ao leitor. 

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Na obra há tanto histórias mais pesadas, como “Thriller”, quanto outras mais bem-humoradas, como “Acabou, Norma, acabou!”. Como saber o tom certo para cada uma?
Pela prática e técnica de escrita, e pela natureza da crônica, que tem como matéria-prima nosso cotidiano de montanha-russa. Humor e ironia são coisas delicadas e podem matar um texto se forem mal aplicadas; em compensação, podem torná-lo inesquecível quando usadas de maneira inventiva, guardando os limites da ética. Criar boas figuras de linguagem é algo desafiador para todo mundo que escreve. Nas histórias mais duras, o desafio é não fazer uma transposição direta da realidade para o texto; nesse caso, a poesia, a beleza e a profundidade dos sentimentos humanos ajudam muito.

Em um dos textos, o conceito de “lugar de fala” é usado por um coletivo branco feminista contra um professor negro. Como evitar essa distorção de conceitos criados para nos libertar, mas que acabam por contribuir para a manutenção de opressões?
Essa é uma boa pergunta para o pessoal que está na linha de frente do ativismo político; não é o meu caso. Como escritora, cronista em especial, estou sempre atenta ao meu redor, escuto muitas histórias, passeio por diferentes universos, recolho sementes, mudas, raízes, frutos, submeto tudo isso a uma espécie de compostagem (ideia inspirada numa observação da Angélica Freitas) e depois devolvo ao mundo como texto literário. Imagino que essa atenção e essa escuta para nossas contradições e paradoxos sejam passos iniciais significativos nessa luta diuturna pela transformação do mundo e pela manutenção da coerência e ética ao fazê-lo.

Em “Musashi e Spider” há a discussão sobre ídolos. Você sente que é um ídolo no universo literário brasileiro? Como espera que sua literatura seja lida?
Primeiro essa pergunta me fez rir, depois a achei capciosa, porque podemos ter entendimentos distintos do que seja ser ídolo. Desse modo, quero definir o que considero como ídolo na literatura. O ídolo está ligado ao mundo pop, suas ferramentas e modos de circulação. Ele tem milhares de seguidores nas redes sociais, lota espaços enormes quando faz eventos presenciais, vende seus livros como pão quente. Eu não sou ídolo e não acho que tenha as condições para um dia sê-lo. Quanto à segunda parte da questão, quero que minha literatura seja lida pelas pessoas que se interessarem por ela e que elas se sintam convidadas a descobrir as várias complexidades que a compõem.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #42 em janeiro de 2021.