A Feira do Livro, Poesia,

Adelaide Ivánova e Mar Becker exploram a genealogia das mulheres insubordinadas

As duas poetas comentam a importância da história e da ancestralidade das mulheres em suas obras

01jul2024 - 09h35 • 10jul2024 - 11h19
(Matias Maxx)

A genealogia das mulheres insubordinadas foi como a mediadora Irene de Hollanda definiu a temática dos livros das poetas Adelaide Ivánova e Mar Becker, que conversaram n’A Feira do Livro, na tarde deste domingo (30), na mesa “Asma, boca e cova profunda”, que aconteceu no Auditório Armando Nogueira com lotação máxima. 

“Resolvi que na ausência de uma genealogia de sangue iria criar essa figura, a Vashti, que não consegue descobrir quem são seus antepassados, que se ligam aos que resistiram aos portugueses”, afirmou a autora de Asma, que ainda revelou não saber a origem dos ancestrais. “Fica com esse vazio de onde a gente vem, qual o nosso pertencimento.”

Mar Becker (Matias Maxx)

Becker contou que também desconhece a genealogia da sua família e que vê isso como uma lacuna que pode ser preenchida pela escrita. “A gente se vê impelida a desenrolar esse fio e se valer da invenção se for preciso. A ficção aqui tem algo muito veraz, muito honesto. A minha escrita também vai muito por aí. Se os dados não estão disponíveis, perscruto essa escuta íntima, que reverbera na água”. “Ao se falar a verdade através da invenção, essa verdade possível acaba virando a própria verdade, porque é um mistério que está dentro da gente”, completa Ivánova.

A poeta pernambucana radicada em Berlim, estreou na literatura com Polaroides, pela editora Cesárea, de Recife, em 2014. Em seguida, publicou O martelo (Garupa, 2017), ganhador do prêmio Rio de Literatura, a partir de uma experiência pessoal de violência sexual que foi absolvida juridicamente. 13 nudes (Macondo, 2019), um livro sobre amor, foi seguido por Chifre (Macondo, 2021), que pode ser considerado, segundo a própria autora, como uma preparação para Asma.

A autora gaúcha, nascida em Passo Fundo (RS), foi finalista do prêmio Jabuti na sua estreia com A mulher submersa (Urutau, 2021), seguida por Sal (Assírio & Alvim, 2022) – ambas as obras foram reunidas no volume A canção derruída quando foi lançado em Portugal em 2022 também pela Assírio & Alvim. Todas essas obras, assim como Cova profunda é a boca das mulheres estranhas, trazem um inventário de mulheres profundas, que nascem, morrem e voltam incessantemente para assombrar o texto.

Tabus

Nesse sentido, para as duas escritoras, a literatura e a escrita servem para falar de tabus dentro das próprias famílias. No caso de Becker, tem a morte da avó materna, Manuela, que pode ter sido assassinada pelo próprio marido, seu avô, ou mesmo se suicidado. Era uma história com várias versões diferentes contadas entre os primos. Esse episódio traumático é tema de vários poemas de A mulher submersa.

“Essa é uma história que é particular, mas que é coletiva. Esse é o lugar da escrita, uma narrativa que se achava individual se descobre coletiva”, comenta a poeta gaúcha. “Foi difícil lidar com esse ponto da escrita, que era um tabu, e hoje sinto que houve um processo de reintegração da Manuela dentro da família.”

Da plateia, Marcelo, irmão de Becker, levanta a mão, interrompendo a irmã, para contar que faz dois anos que uma fotografia de Manuela está exposta na casa da família, pois sua imagem, assim como sua morte, era um segredo guardado no seio familiar. “A escrita de Mar foi uma forma de aceitar algo que todo mundo falava, mas ninguém admitia”, explicou.

“Essa história, que estava guardada, está sendo elaborada em palavras e pode ser trazida à tona com a escrita o que estava guardada. Se a minha mãe não podia elaborar, porque era algo muito próximo dela, falar do pai e da mãe, agora as filhas e as netas podem fazer isso por ela. É nosso dever ético falar”, declara ela, que recitou o poema “Todas as mulheres são iguais”, presente em A mulher submersa.

Já a poeta pernambucana traz a ideia do tabu no próprio título do seu livro, Asma, que faz menção a tabus familiares, que são escondidos e se perpetuam. “Asma é uma doença meio misteriosa. Uma das teorias que trata das suas origens possíveis vem da experiência traumática da mãe, que passa, pelo cortisol, asma para a criança. Ou seja, é uma doença de um trauma da mãe, e não do bebê”, observou.

Um tabu dentro da sua família se relaciona com casamentos endogâmicos em uma localidade pequena, que faziam com que muitos de seus familiares nascessem com algum problema físico ou mental.

Ivánova também se valeu das experiências da mãe, de outras mulheres da família, de figuras históricas e das próprias vivências pessoais para compor a personagem de Vashti, que aparece no primeiro capítulo no banco dos réus, sendo julgada por um suposto crime que não é revelado.

Adelaide Ivánova (Matias Maxx)

Nesse sentido, a poeta nascida em Recife comparou as resistências das mulheres em espaços cotidianos e domésticos com as dos movimentos sociais atuais e de populações vulnerabilizadas ao longo da história. As ações de resistência desses grupos são, em geral, criminalizadas e punidas pelo sistema judiciário. Novamente, histórias particulares que se tornam coletivas.

Em Asma, a protagonista se torna, por fim, uma curandeira, mas não da forma tradicional, passando receitas de ervas e remédios, mas sim contando histórias de insurreições que conseguiram a vitória através da revolta coletiva. “Um dos meus sonhos é que o meu livro possa oferecer uma cura para o nosso pessimismo histórico pela organização coletiva”, revela ela, que em seguida recitou “Prólogo em 80 bpm”, de Asma.

A conversa também girou em torno da fofoca, considerada pelo senso comum como algo negativo. Contudo, não deixa de ser uma forma de resistência entre as mulheres, pois é da “roda de chimarrão” entre as sulistas até as conversas entre as feministas dos anos 70 que informações foram trocadas. Informações sobre o comportamento dos homens, os rumores do que acontece entre os vizinhos, adultérios, segredos, entre outras notícias.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).