Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

Preta Fernanda

Cabo-verdiana foi o centro das atenções nos bailes mais concorridos de Lisboa do final do século 19 até o início do 20

01set2021 - 04h51 | Edição #49

Comecei a ler o diário Recordações d’uma colonial (Memórias da Preta Fernanda), escrito por A. Totta e F. Machado, quando pesquisava sobre a presença africana em Lisboa. Acredito que a história da cidade não se pode contar sem incluir os milhares de africanos que, ao longo dos séculos, se fixaram na capital portuguesa, enriquecendo-a e reinventando-a. Decidi seguir os nomes que a literatura fixou e, movido por uma obsessão por personagens noturnas, destaquei figuras misteriosas que, durante a sua vida, parecem ter vivido várias.

Para aqueles que desconhecem o nome de uma das mais fascinantes coquettes da Lisboa do início do século 19, Preta Fernanda foi a alcunha  de Andresa do Nascimento, a cabo-verdiana que agitou a bacoca capital lusa durante o reinado dos Braganças. Fernanda tornou-se uma figura incontornável, o centro das atenções nos bailes mais concorridos, nos teatros, nas praças de toiros onde, além de espectadora, arriscou entrar na arena no lugar do toureiro. Diz-se que privou com a “Geração dos Vencidos da Vida”, de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, assim como com os futuristas Guilherme de Santa-Rita e Almada Negreiros. Romântica incurável, teve os amantes que quis. Por uns se apaixonou perdidamente, com outros a relação não evoluiu além do que podemos estabelecer como uma relação comercial entre dois adultos.

Imagino-a na Lisboa que Eça cristalizou nas páginas d’Os Maias. Uma mulher negra que viveu a queda da Monarquia e o surgimento da Primeira República, testemunha de tantas transformações sociais e políticas em Portugal e com uma história de vida tão singular que, se não fosse pelas notas na imprensa e por uma portaria régia de 3 de março de 1880 assinada pelo conde de São Marcelino e por Júlio Mário de Vilhegas — e publicada no Diário do Governo —, a chamaríamos de mito. O ofício enaltecia o espírito patriótico da “indígena” Andresa do Nascimento, de Cabo Verde, por se ter oferecido a servir de modelo à figura feminina projectada para adornar o pedestal de uma estátua em troca de um subsídio diário de 560 réis.

A obra em bronze, encomendada ao escultor italiano Giovanni Ciniselli para homenagear o marechal marquês de Sá da Bandeira, encontra-se na praça Dom Luiz 1º, no Cais do Sodré, e nela a figura do fidalgo da casa real aparece imortalizada empunhando, com o braço esquerdo, o estandarte-símbolo da Liberdade, enquanto junto a ele um génio segura um facho em representação da luz que emana da Liberdade. Na parte posterior assenta a estátua da História, com o porte sereno da imparcialidade, e na parte anterior uma figura de mulher, a Preta Fernanda, representando a África, aponta ao filho o estadista que abolira a escravatura nas colónias portuguesas.

Teve uma vida tão singular que, se não fosse pelas notas na imprensa e por uma portaria régia de 1880, a chamaríamos de mito

Segundo o livro, as festas que Fernanda organizava na casa que geria, localizada na antiga rua do Mundo (hoje rua da Misericórdia), eram uma extensão da vida boémia que se vivia no Chiado. A comunidade masculina recebe-a de braços abertos; já os padres da Igreja do Loreto e da Igreja da Encarnação — e as fiéis e influentes beatas da alta sociedade que os seguiam — consideraram-na uma ameaça aos bons costumes que promoviam.

O poeta, jornalista e político Guerra Junqueiro, celebrado pelos seus versos satíricos que abriram caminho para a implementação da República e frequentador assíduo deste que ficou estabelecido desde sempre como o grande centro da cultura de Lisboa, afirmou: “Para ver o Mundo, só há dois píncaros: o Himalaia e o Chiado”. Localizado entre o Bairro Alto e a Baixa da cidade, ainda que sem o fulgor dos tempos das tertúlias intelectuais em estabelecimentos comerciais, essa zona da cidade continua a ser o espaço aonde os lisboetas convergem. Suas artérias principais eram o endereço das lojas que mantinham os alfacinhas (alcunha dada aos locais) a par das últimas modas de Paris. Seus cafés, entre os quais os históricos A Brasileira e Casa Havaneza, foram os pilares da vida social que juntava todas as classes sociais.

Fuga com o amante

Antes de agitar Lisboa, Fernanda tinha uma vida diferente: desejosa de mudar de vida, saiu da Ilha de Santiago, em Cabo Verde, sem se despedir dos pais, e fugiu com o amante, Jerónimo Antunes Martins, capitão do lugre-patacho Margarida 2ª, e seguiu-o até Dacar, no Senegal. O romance não demorou até esfriar e, ao ver-se abandonada em terra desconhecida pelo capitão, apaixona-se por Frederick Wilhelm von Kremps, negociante de cervejas alemão, que a traz para Lisboa. Casam-se, têm dois filhos e se divorciam. Fernanda deixa o lar e, depois de uma série de decepções amorosas, acaba por trabalhar como doméstica para d. Ernestina Cavalcanti, uma socialite de origem piemontesa cuja casa, na rua do Poço dos Negros, era palco de festas vistosas que reuniam a nata da sociedade lisboeta. Isso faz com que a jovem Andresa do Nascimento sonhe com os seus próprios eventos. A oportunidade surge de forma súbita. Os patrões decidem se mudar para o campo com a intenção de criar galináceos, Fernanda se recusa a segui-los e mergulha de cabeça na vida boémia da cidade.

Uma mulher negra, dona do seu nariz, merece ser estudada, numa época em que, com a Primeira República, os movimentos de intelectuais negros em Portugal e nos países colonizados (como a Associação dos Estudantes Negros e a Liga Académica Internacional dos Negros), bem como intelectuais e políticos da geração de Ayres de Menezes, Artur Monteiro de Castro, Alberto José da Costa e Pedro Gamboa, subiam o tom, e publicações assinadas por descendentes de africanos — como O Negro, de 1911 (cuja primeira edição foi recentemente relançada pelo Falas Afrikanas, de Cristina Roldão, José Pereira e Pedro Varela); A Voz D’Africa (1912-13 e 1927-30); Tribuna D’Africa (1913 e 1931-32); O Protesto Indígena (1921); Correio de Africa (1921-23 e 1924) — desafiavam e contradiziam os que defendiam uma hierarquia entre raças, bem como todos os que perpetuavam falsidades científicas para sustentar ideais racistas.

Gosto de perder-me no exercício especulativo sobre o que terá pensado Fernanda ao ler, na edição inaugural do jornal O Negro, o apelo feito ao povo português: “Reflictamos… A nossa escravidão é secular e em virtude d’ella temos soffrido todos os vexames e tirannias e em virtude d’ella temos sido o alvo aonde a inveja, o crime e o insulto teem crivado impunemente as suas settas venenosas”.

Em 1917, foi a única mulher que, por ocasião da conferência de Almada Negreiros, não abandonou a sala

A Preta Fernanda viveu em Lisboa até perto dos seus 65 anos, sem nunca deixar de frequentar eventos culturais. Em 1917, foi a única mulher que, por ocasião da Conferência-Manifesto Futurista de Almada Negreiros, no Teatro da República, não abandonou a sala quando este leu o Manifesto Futurista da Luxúria, de Valentine de Saint-Point. Ao apresentar-se, Fernanda fazia questão de oferecer o seu cartão de visita, no qual se lia, debaixo do nome, a legenda: “artista de baile”. Para a madame da rua do Mundo, a forma como a iríamos julgar no futuro a preocupava. E justifica a publicação do seu livro de memórias da seguinte forma: “Para que não me seja negado o lugar que de direito me pertence nas páginas imorredouras da História”.

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.