Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

Kalunga k’atabula Waldemar yetu*

Promovido a ancestral no último dia 9 de agosto, Waldemar Bastos cantou o desencanto pelo desaparecimento dos sonhos políticos dos nossos pais

01set2020 - 01h00 | Edição #37 set.2020

“Eita! É quente que nem o Maranhão!” Estas terão sido as primeiras palavras que João Batista do Vale — ou João
poeta do povo, ou João pé de xote das rodas de bumba meu boi, João do circo e garimpeiro de formigueiros, João enxada na mão à boleia de caminhão, João pedreiro, neto de escravizados, repentista, ator, cantor e compositor — proferiu no instante em que a porta do avião se abriu, sentindo o bafo que anunciava a chegada do Cacimbo a Luanda beijar-lhe o rosto, num gesto de boas-vindas. No alto da escada, lembrando-se do avô que se dizia angolano, respirou fundo e deu o primeiro passo. A respiração saía-lhe ofegante e os degraus da escada que ligava o avião à pista do Aeroporto 4 de Fevereiro pareceram-lhe intermináveis.

Naquela manhã de maio de 1980, assim que alcançou o asfalto, tal qual o papa João Paulo 2º, sumo pontífice, fizera um ano antes na sua primeira visita oficial à Irlanda, João do Vale ajoelhou-se e beijou o chão. O gesto provocou um esbugalhar de olhos da comitiva protocolar da Presidência da ainda imberbe, e em guerra, República Popular de Angola, que esperava por ele e seus companheiros de viagem, entre eles Chico Buarque, Djavan, Martinho da Vila, Edu Lobo, Wanda Sá, Miúcha, Elba Ramalho, Geraldinho Azevedo, Dona Yvone Lara, Clara Nunes, João Nogueira e Dorival Caymmi. Era uma caravana de 64 artistas, técnicos e jornalistas batizada de projeto Kalunga, que visitava Angola a convite do secretário de Estado da Cultura, António Jacinto, para as comemorações do 1º de Maio — a primeira das 38 celebrações do Dia do Trabalhador com José Eduardo dos Santos à frente dos destinos da pátria que me viu nascer. 

Aquela era ainda uma Luanda do recolher obrigatório, do tempo dos cubanos e dos bôeres sul-africanos, os últimos a morderem-nos os calcanhares na tentativa de ocuparem o território. O país, então com quatro anos e seis meses, tentava ainda recuperar-se do novembro de 1975 e do maio de 1977, seguindo cheio de pressa rumo ao progresso, mas sem espaço para plantar na alma de todos os indivíduos, independentemente das diferenças ideológicas, étnicas e religiosas, a ideia de um país só. Uma Angola só, da floresta do Mayombe ao deserto do Namibe, do rio Cua, no Moxico, ao rio Lua, em Benguela. Um país cheio de urgência e sem tempo para chorar os mortos de uma guerra inteira que, no papel, se dizia civil, mas na realidade foi um conflito de escala internacional entre os EUA e a URSS. 

Projeto Kalunga

O projeto foi o primeiro grande evento cultural realizado por brasileiros num país africano, um acontecimento que deixou marcas profundas em todos os que dele participaram, principalmente os afro-brasileiros que, através da música, puderam experienciar a ideia do regresso. Não de um retorno ao lugar de origem, esse já não existia havia muito, mas sim aos vários desdobramentos da própria palavra Kalunga, a única que poderia identificar e consolar os nossos ancestrais. 

Kalunga, em kimbundo, significa eminente, insigne, grande, incomensurável, infinito; uma massa líquida que circunda os continentes, oceano; infortúnio, calamidade; a imensidade, o vácuo, o abismo. Na mitologia bantu, é o nome de uma divindade secundária. No Brasil, os seus significados multiplicam-se. Para as religiões afro-brasileiras, é tido como um elemento sagrado; no Nordeste, tal como afirmou Mário de Andrade, é nome dado a uma boneca de madeira vestida com trajes nobres, simbolizando uma princesa ou rainha africana morta. Sem ela, sem a Kalunga, o Maracatu não sai em cortejo pelas ruas. 

Kalaf Epalanga: “Ver os artistas africanos da nova geração ocuparem espaços que julgávamos proibidos ou só ao alcance dos artistas afro-americanos é inspirador”

Entre os visitantes, o que melhor encarnou o espírito divino de Kalunga foi João do Vale, que, todas as noites em palco, lindo como um deus tchokwé, de pés descalços e microfone na mão, arrebatou plateias com as histórias cantadas de um Brasil que lhes era desconhecido, mas cujo lirismo combativo e intuitivo tocou nos corações dos angolanos que viam ser-lhes negadas a paz e a soberania. Entre os artistas angolanos que dividiram o palco com os brasileiros, a grandeza de Kalunga manifestou-se na voz de Waldemar Bastos, o músico e compositor angolano que nos morreu neste 9 de agosto. Nasceu em São Salvador do Congo, hoje M’Banza Congo, a capital do antigo e poderoso reino do Congo e também a maior cidade da África subequatorial antes da chegada dos portugueses. Nela encontra-se a Catedral de São Salvador do Congo, a igreja colonial mais antiga da África Subsaariana, edificada em 1492. Foi nas suas ruínas — que, reza a lenda local, foram construídas por anjos durante a noite — que o papa João Paulo 2º, quando visitou Angola, em 1992, fez questão de realizar uma missa. Os bakongos chamam-na de Igreja Kulumbimbi, um “lugar de poder ancestral”, na língua kikongo. 

Kalunga foi o primeiro grande evento cultural realizado por brasileiros num país africano

Para os bakongos, a sua filosofia é apresentada na forma de cosmogramas que simbolizam os grandes ciclos do Sol, da vida, do universo e do tempo. Ao centro do círculo, uma cruz que o divide em quatro etapas. Kalunga é a linha horizontal que separa o mundo dos vivos do dos mortos, e é também a linha que simboliza o mar como uma grande necrópole a conectar mundos. 

Waldemar Bastos foi promovido a ancestral. A música que criou, ao longo da sua vida terrena, sempre carregou essa espiritualidade e, talvez por isso, depois da visita do projeto Kalunga a Angola, o autor de “Velha Chica” atravessou o mar rumo ao Brasil, onde gravou o celebrado Estamos juntos (Odeon, 1983). A obra contou com as participações de João do Vale, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Martinho da Vila, que havia lançado uma versão brasileira de “Velha Chica” no álbum Sentimentos (RCA, 1981).

Martinho da Vila fala sobre o embranquecimento de Machado de Assis

Em seu refrão, “Velha Chica” tem os versos que fazem parte da formação política de muitos jovens angolanos nascidos depois da Independência: “Xê, menino, não fala política, não fala política”. Versos que cantam um desencanto ganho à nascença pela queda dos pilares que sustentavam o sonho dos nossos pais — sonhos, por um lado, desaparecidos sem deixar eco, e, por outro, tais como ruínas da Catedral de São Salvador do Congo, escombros de um longínquo antigamente que ainda podem ser avistados nas entrelinhas de discursos e desabafos saudosistas daqueles que viram os colonos portugueses abandonarem Angola. “Não ousem resgatar as utopias que resistiram”, respondem-nos irritados quando lhes perguntamos sobre o momento em que o sonho virou pesadelo. “Não se atrevam a restaurá-los, não são do vosso tempo. Faltam-vos os calos, falta-vos vida. Estes são os nossos sonhos, monumentos de um império que nunca chegou a existir. Deixem-nos envelhecer em paz.”

Os sonhos são sempre inquietantes, sobretudo os sonhos políticos, perigosíssimos, principalmente quando nos esquecemos deles à medida que os revolucionários do antigamente se tornam burgueses da actualidade. Waldemar fez das canções exortações humanistas para os angolanos. Pois ele sabia que sonhos não realizados podem sempre voltar, feito assombrações, para nos tirar o sossego. Podem até nascer da mente de um único indivíduo, mas, tais como vírus infecciosos, as utopias idealistas são contagiosas e rapidamente passam a ser sonhos de outros também. Atravessam fronteiras e gerações, plausíveis de sofrerem adaptações, alterações para melhor ou para pior, dependendo do fim que lhes é dado. Mas esses “sonhos monumentos”, ideias que não são novas, estão nos mesmos lugares que as situam aqueles que lhes deram vida quando eram candengues, rebeldes e com todo o futuro pela frente. Um futuro pelo qual valerá a pena morrer e entregar-se nos braços de Kalunga.

* Kalunga levou o nosso Waldemar.

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #37 set.2020 em julho de 2020.