Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

Adivinhe a cor

Por que em todas as culturas a corda sempre arrebenta do lado mais escuro — e o que ainda podemos fazer sobre isso

01jun2021 - 01h00 | Edição #46

Em um sábado de agosto de 2014, em Chicago, o lendário grupo Outkast actuou no palco do emblemático festival Lollapalooza. A dupla Big Boi e André 3000 havia decidido comemorar o vigésimo aniversário de seu clássico de estreia, Southernplayalisticadillacmuzik, interrompendo um hiato de dez anos com uma ronda por alguns festivais de verão. No momento histórico, André 3000 aproveitou a ocasião para nos relembrar o porquê de muitos aficionados por hip-hop, quando discutem sobre quem é o maior rapper de todos os tempos, o colocarem numa categoria só sua. Naquele dia, o autor de “Hey Ya!” subiu ao palco vestindo um de seus macacões-manifesto, elevados a peças de arte pop, com direito a exposição na feira Miami Art Basel e que, em mais de quarenta festivais, geraram tanto ou mais debate que as performances do grupo, chocando a audiência com frases enigmáticas, provocativas e de teor político. No palco do Grant Park, o mesmo que recebeu Barack Obama para seu discurso da vitória em 2008, o slogan de André Lauren Benjamin dizia: “Em todas as culturas, as pessoas mais escuras sofrem mais. Por quê?”.

De que adianta continuar o diálogo sobre racialização quando o termo racismo foi esvaziado de seu significado, banalizando-se a ponto de se tornar insuficiente para apelar ao bom senso? Diante de números assustadores — a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, e 71 % das pessoas assassinadas no país são negras —, dezenas de ongs e movimentos sociais  têm divulgado a campanha “Imagine a dor, adivinhe a cor”. Figuras públicas e pessoas comuns vestiram a camisa num misto de orgulho e consternação diante do óbvio. Em todas as culturas, as pessoas mais escuras sofrem mais. Por quê?

Oito mil africanos atravessaram a fronteira que separa as cidades marroquinas de Fnideq, Beni Ansar e Farkhana de Melilha e Ceuta, dois territórios pelos quais muçulmanos e católicos se batem há séculos, desde que o Rochedo de Gibraltar e o Monte Hacho passaram a ser identificados como os Pilares de Hércules. Foi lá que Camões, o maior poeta português, perdeu o olho. E, pelo número de vidas que todo ano dão à costa naquelas praias, tudo indica que é ali, nas únicas fronteiras terrestres entre um país da União Europeia e um Estado-membro da União Africana, que os europeus perderam a capacidade de ver e se solidarizar com a dor do outro. 

De que adianta falar sobre racismo quando o termo é insuficiente para apelar ao bom senso?

Registros não faltam. Volta e meia os jornais noticiam mais uma catástrofe, e as redes sociais são inundadas de imagens icónicas que poderão muito bem vir a concorrer ao Pulitzer. É o caso das fotografias do menino Alan  Kurdi em uma praia turca em 2015, dando rosto e nome à crise dos refugiados da Síria e, mais recentemente, da imagem que ilustra o braço de ferro diplomático entre Rabat e Madri, onde uma assistente social da Cruz Vermelha aparece abraçada a um jovem senegalês em prantos, depois de este ter sobrevivido às correntes frias e traiçoeiras da praia de Tarajal. Esta última correu o mundo fazendo da assistente social símbolo do humanismo ibérico e, ao mesmo tempo, arma de arremesso político entre esquerda e direita, enquanto os sobreviventes, as pessoas que deveriam realmente importar, eram enviados de volta para o sítio de onde nunca deveriam ter saído: o lugar mais distante em que os milhões de euros que a União Europeia deposita nos cofres turcos e marroquinos conseguem enfiá-los.

Arte

Outra artista que não tem medo de abordar pautas que lhe são importantes é M.I.A., uma das refugiadas mais celebradas do universo pop. Em 2015, o vídeo de sua canção “Borders” trouxe o debate da crise dos refugiados para espaços em que só esperaríamos ver Bono Vox com um megafone na mão. No vídeo, a cantora, artista plástica e designer nascida no Sri Lanka, a quem Oprah Winfrey alegadamente chamou de louca e terrorista, atua ao lado de um grupo de refugiados. Juntos, trepam cercas de arame farpado semelhantes às de Ceuta e Melilha e atravessam o mar em pequenas embarcações de pesca. O vídeo é impressionantemente belo e soturno, carregando uma mensagem política contundente e crítica dos Estados democráticos que constroem fronteiras para separar os “ricos” dos “pobres” deste mundo. 

Realço a forma irónica e debochada como M.I.A. zomba do ativismo de conveniência a que as redes sociais nos habituaram. Em uma cena, ela usa uma camisa do Paris Saint-Germain com o logótipo do patrocinador Fly Emirates substituído por “Fly Pirates”. A ousadia não passou em branco: o clube de Neymar exigiu que ela retirasse o vídeo das plataformas digitais, cessasse todo uso da imagem e da marca e os indemnizasse. Em entrevista, comentando a forma arrogante como um dos clubes mais ricos do mundo abordou a questão, ela lamentou que a imagem e a mensagem principal do vídeo tivessem sido ignoradas.

Da mesma forma, o slogan de André 3000 passou ao largo de muita gente, e só ao fim de seis anos e com o ativismo de movimentos em defesa de vidas negras é que ele voltou a dar-lhe destaque, com uma linha de t-shirts com 100% dos lucros doados para a organização Movement for Black Lives. E assim, quase de fugida, como nos últimos anos tem feito com a sua arte, o músico de Atlanta apontou uma resposta possível. Se todos nós dermos não só a nossa voz, mas também o nosso dinheiro, a causas que nos são importantes, sem esperarmos o salvador branco de plantão, talvez consigamos, mais do que responder, resolver o porquê de em todas as culturas as pessoas mais escuras continuarem a sofrer mais.

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.