Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Diante da censura

A conta de chegar é fácil até para quem é ruim de cálculo: sufoca-se a atividade intelectual, potencialmente crítica, e faz-se vista grossa a um judiciário militante

09jan2020 - 15h26

Uma ditadura não nasce ditadura, torna-se ditadura. E sempre com a ajuda, por atos deliberados ou omissões, de quem é ou será massacrado por ela. Não é por coincidência, mas por coerência, que na mesma semana aconteçam a censura judicial ao Porta dos Fundos, a censura oficial ao telejornal da Rede Brasil e o desmonte do setor de pesquisa da Fundação Casa de Rui Barbosa.

As metáforas vão bem, obrigado. Continua-se a falar em “ovo da serpente” quando há um ninho de cobras parrudas e excitadas, trabalhando incessantemente, enquanto parte ainda significativa dos que têm voz no espaço público preferem equalizar esquerda e extrema-direita, reclamar da ausência da oposição que eles mesmos se eximem de fazer em seus posicionamentos e, sim, até limpar a barra da ministra-pastora.

Antiintelectualismo e fundamentalismo religioso explicam as decisões da atriz e roteirista Letícia Dornelles, ora na presidência da Casa Rui, e do desembargador Benedicto Abicair, que assinou a proibição do especial de Natal do canal de humor. Ele tenta justificar a arbitrariedade invocando obediência à vontade de uma sociedade “majoritariamente cristã” que só existe na cabeça de fanáticos. Ela não tem muito o que explicar: ordens da chefia.

A conta de chegar é fácil até para quem é ruim de cálculo: sufoca-se a atividade intelectual, potencialmente crítica, e faz-se vista grossa a um judiciário militante. O resultado é um dia da marmota do autoritarismo, um eterno 13 de dezembro de 1968.

Nada mais estranho a esse mundo do que a Casa Rui. Seus pesquisadores trabalham com a memória, com a releitura crítica da história e, também, com a preservação de alguns de seus documentos preciosos. O Arquivo Museu de Literatura, aberto permanentemente a quem quiser pesquisar, é uma cápsula do tempo, um acesso à cabeça de mulheres e homens que dedicaram suas vidas à inteligência e, de diversas formas, a um país melhor. 

No projeto de Brasil ora em curso não há lugar para pessoas como essas. No país sustentado por um rebanho fascistóide nunca existiu ditadura. E, a julgar pelos expurgos na reportagem da Rede Brasil sobre a exposição dos cinquenta anos do Pasquim, jamais aconteceu a prisão de toda a redação do jornal.

No país do capitão, o general iraniano Soleimani, assassinado pelas tropas americanas, é um perigoso terrorista. No Brasil real, o presidente e seu ministro da Justiça reagem com um silêncio obsequioso – de sentido inequívoco – ao atentado terrorista contra o Porta dos Fundos.

Numa anotação de 1923, compilada por André Valias em Poesia, a indispensável antologia que organizou e traduziu para a editora Perspectiva, Beltolt Brecht simula um diálogo em que é perguntado por que seus livros estão numa lista negra como “anti-alemães”: “Os nacional-socialistas consideram apenas uma parte de todos os alemães como alemães. Os que têm uma opinião diferente daquela do sr. Hitler sobre a questão social eles consideram no geral como anti-alemães. E eu, assim como muitos milhões de alemães, tenho uma opinião diferente da do sr. Hitler sobre a questão social”.

O sr. H., como se sabe, viveu para perseguir quem dele discordava e, com apoio popular, chegou aonde chegou. Já o sr. B., o sr. B. que não é uma abjeção, jamais baixou a guarda para o autoritarismo. Para que não repita a Alemanha dos anos 1930 ou mesmo o Brasil dos 1960, o Brasil de 2020 nos obriga a escolher. E já.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).