Perspectiva amefricana,
À procura de meu bisavô
João Sampaio de Alcântara apareceu diante de mim num arquivo policial, revelando uma história política evitada na minha família
01nov2026 • Atualizado em: 30out2026 | Edição #111Quando penso em meu bisavô, a primeira recordação é do momento do nosso cumprimento. Ele sempre chegava aos encontros familiares sereno, com seu chapéu, e, após um giro de olhar como se me buscasse, assim que me encontrava, abria um sorriso e iniciava a brincadeira: “Juliana, era você que estava na roda com João?”.
Meu bisavô, seu João Sampaio de Alcântara, sempre me fazia essa pergunta quando nos encontrávamos. A pergunta vinha de “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, e só fui saber muito tardiamente, já na adolescência, que a brincadeira envolvia a escolha de meu nome. Minha mãe dizia que meu nome tinha duas origens, sendo uma delas a canção com João, José e Juliana dentro de uma roda que começa fazendo parte de um domingo no parque e termina girando depressa demais. A outra era um comercial do início dos anos 80 em que havia uma abelhinha chamada Juliana, convidada a ver uma estrela.
Pelo menos era assim que minha mãe contava — e histórias sobre a escolha de nomes talvez devam ser recebidas com alguma tolerância à imprecisão, porque pertencem às pequenas mitologias que as famílias constroem sem perceber. Sempre gostei mais da versão com “Domingo no parque” e acredito que meu bisavô também. Provavelmente, respondi uma centena de vezes a ele com um sorriso, uma gargalhada e um “era, sim, vô”; talvez, já adolescente, com certa inquietação juvenil sobre o porquê de tudo aquilo. Hoje, sinto falta.
Muitas famílias brasileiras, principalmente negras, têm na interrupção da história um ponto comum
Meu bisavô se chamava, ainda se chama, João Sampaio de Alcântara. Naturalmente, sei seu nome, mas o que não sabia era sobre o homem que começaria a surgir muitos anos depois, quando João Sampaio de Alcântara apareceu diante de mim em documentos que não haviam sido produzidos para que uma bisneta pudesse um dia conhecê-lo melhor.
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É desconcertante encontrar o nome de uma pessoa amada num arquivo policial ou judicial porque, ainda que o nome seja o mesmo, a pessoa chega a nós sob o olhar de outros, classificada por perguntas que não são as nossas. É como se a intimidade familiar encontrasse a linguagem administrativa e precisássemos descobrir, com isso, que espécie de conhecimento pode nascer desse encontro.
Durante muito tempo, a história política de meu bisavô coube em poucas informações, ditas aqui e ali na família. Dele mesmo nunca ouvi uma só palavra, senão posicionamentos políticos bem definidos, como quando ele me ensinou energicamente a diferença entre “invasão” e “ocupação”.
Só sabia, de modo vago, que ele havia sido preso, junto com o meu tio-avô, durante a ditadura militar. Nem uma só palavra comigo sobre isso, senão pela boca das mulheres da família. Minha avó sempre retomava esse tema quando percebeu que aflorava em mim uma ansiosa curiosidade política. Ela tentava me dissuadir indicando o trauma e o sofrimento que viveram com a prisão “de João”, como ela se referia a ele. Mais nada.
Vestígios
Famílias arquivam memórias de modo desordenado: enquanto um guarda fotografias, outro sabe os nomes de todos que ali estão, alguém se lembra da data, outro de apelidos, alguns documentos desaparecem, enquanto uma frase ou causo aparentemente banal atravessa gerações. Às vezes, uma informação importante se perde porque todos acreditavam que todos a conheciam, outra sobrevive como anedota, como a história de um amigo do meu bisavô que tomou um tiro de bala perdida no olho porque a curiosidade foi grande demais — e meus bisavós usavam essa história aterradora todas as vezes que a netaiada queria se debruçar à janela para acompanhar alguma confusão.
Também há nomes que desaparecem, parentes dos quais sabemos apenas a proximidade consanguínea e nada mais. No meu caso, basta recuar uma geração além de João, Damiana e Joana para que a paisagem comece a nublar. Sei que meu bisavô migrou do sul da Bahia para São Paulo e que minha bisavó indígena fugiu, muito nova, para se casar. Mas não conheço nenhum parente, nenhuma outra história, qual povo e etnia, qual é o fio que nos conecta. Quem eram meus trisavós, o que faziam, como viviam, que histórias conheciam sobre os próprios pais, de que lugares vieram antes que João viesse de lá? Quanto mais recuo, mais a genealogia deixa de ser formada por pessoas e passa a ser composta por perguntas.
Muitas famílias brasileiras, principalmente negras, têm na interrupção da história genealógica um ponto comum. Poucas gerações bastam para que a pesquisa encontre mudanças de nomes, deslocamentos, registros incompletos, documentos que não sobreviveram. O desejo de desenhar uma árvore que avance ordenadamente nos séculos encontra uma história na qual determinadas vidas foram registradas segundo necessidades administrativas, que nada tinham a ver com a vontade de preservar sua continuidade. A experiência concreta dessa interrupção é estranha.
Quando comecei a procurar João, eu possuía alguns fragmentos, ainda que não soubesse quais poderiam ser chamados de memória, quais pertenciam às histórias familiares e quais precisariam ser procurados, reconstruídos, desconsiderados. O arquivo que encontrei parecia oferecer pistas e alguma estabilidade. Havia, diante de mim, um papel, datas, números de processo, aspas, informações novas. Mas a estabilidade foi momentânea.
Encontrei não só meu bisavô na ditadura, mas um trabalhador que havia sido preso por liderar uma greve
Nesse desconforto, fui em busca de leituras sobre memória e arquivo e encontrei a professora e antropóloga Ann Laura Stoler. Para a estudiosa de mulheres e colonialidade, era importante que arquivos coloniais não fossem tratados apenas como depósitos de informações do passado, mas como registros de tecnologias de governo, de lugares nos quais podemos observar como o poder produziu aquilo que julgava saber sobre as pessoas que administrava.
Isso mudou a minha procura. Percebi que os arquivos da repressão não me entregavam simplesmente o João, mas também categorias pelas quais uma instituição o enxergou e categorizou, reduzindo-o a um subversivo, ainda que conservando vestígios. Havia uma dificuldade adicional, porque eu queria encontrar meu bisavô, enquanto o Estado, naquelas páginas, queria apenas tachá-lo como “componente de célula subversiva” ou “incitador de guerra subversiva”.
Tive que lidar com o desencontro permanente de estar diante de um arquivo que sabe onde alguém esteve numa determinada data, mas nada sabe sobre aquilo que ele contou aos filhos quando voltou para casa, lidando com uma vigilância que produzia uma forma peculiar de intimidade — cheia de informações e um tanto indiferente à pessoa que as viveu. Mas não me dei por vencida. A cada qualificante novo do Estado, eu me empunhava de vontade de seguir cada rastro. Um certo orgulho, que já existia mas era um tanto acanhado, foi tomando conta de mim.
Indícios
O italiano Carlo Ginzburg escreveu que o conhecimento e a história são construídos por indícios, por pequenas pistas que permitem formular hipóteses sobre uma realidade que já não podemos observar. Uma investigação familiar segue isso: um nome leva a outro, uma data permite uma busca, uma referência a um sindicato, uma nova informação muda a importância do que se lembra de ter escutado. Por não termos o acontecimento diante de nós, acabamos seguindo rastros.
Nas trilhas, encontrei não apenas o meu bisavô na ditadura, mas um trabalhador da construção civil com uma história política anterior. Seus arquivos indicavam que havia sido preso nos anos 50 por ter sido uma das lideranças de uma greve. Os documentos não dizem bem quando, nem o local e as circunstâncias, mas no depoimento João sabiamente desconversa e diz que só pretendia melhores condições de vida e sustento para nossa família. Astuto.
As narrativas políticas tornam compreensíveis experiências coletivas por meio de palavras — trabalhadores, movimento sindical, categoria, classe — que condensam milhares de vidas. Numa pergunta que revela uma ideia organizada sobre formação política, embora a minha não tenha sido assim, busco compreender em que momento João começou a se entender politicamente.
É estranho receber parte da trajetória de um antepassado pelas mãos de quem o considerou suspeito
Ninguém acorda numa manhã tendo adquirido uma identidade política completa, com genealogia intelectual, programa, consciência do seu lugar na história. A memória que tenho de meu bisavô é de um homem bem formado, convicto e que sabia que precisava passar essa consciência para as gerações vindouras da família. Penso na maravilha desse homem negro vindo do sul da Bahia, pedreiro, se encontrando com organizações, companheiros, livros, compreendendo formas coletivas de vida e noções de justiça social. E, não satisfeito, se reivindicando comunista.
Às vezes, tento recuar mais no tempo e imaginar um João antes de tudo isso. Penso nos pais dele, na sua cidade, pergunto o que faziam, que relação tinham com o trabalho, que histórias contavam sobre dinheiro, autoridade, justiça, pergunto o que um menino negro aprendia observando os adultos antes mesmo de possuir palavras para aquilo que observava. Me reconheço, com uma infância na qual os adultos não faziam nenhum esforço para tirar as crianças da sala quando o assunto era política. Como um pacto silencioso, quase ritualístico, passavam a contar casos, histórias, discutir posicionamentos, falar de sonhos e lutas que só fui entender muitos anos depois.
Para a menina sempre de laços vermelhos no cabelo, sonho era uma boneca Barbie negra e a luta era acordar todos os dias às 5h da manhã para atravessar a cidade no colo da mãe ou da avó rumo à creche. A política em minha família é como parte da vida. Alguns posicionamentos são ditos como óbvios. Só fui entender que não eram frequentando a casa de amigos. Entre o lugar de onde João veio e o homem que encontro décadas depois, existe uma infinitude de experiência que nenhum documento consegue preencher, e a vontade de compreender esse intervalo precisa conviver com a possibilidade de que partes dele tenham desaparecido definitivamente.
Zumbi
É estranho receber parte da história de um antepassado pelas mãos de quem o considerou suspeito. Tento imaginar uma reunião da célula que, pelos arquivos descobertos, se chamava Zumbi. Uma sala, talvez cozinha, um quintal, um bar, uma conversa num ponto de ônibus, codinomes, uma reunião em luz baixa, de falas em baixo tom e um camarada contando que foi escalado para ir a Cuba pela organização. Não sei se meu bisavô falava muito, se preferia escutar, se levava alguma irritação do trabalho e mais estímulo para a luta.
Nos arquivos, disse que foi em apenas um encontro, viu do que se tratava e foi embora para nunca mais voltar. Como mandava o script. E o treinamento? O arquivo chamava de “célula”, “aparelho”, meu bisavô chamava de casa de “fulano de tal”, conhecido de obras e do bairro. Essas aproximações fabulativas me interessam no fracasso da reconstrução, justamente porque nunca se completarão. Posso alargar progressivamente o campo de possibilidades no qual João agiu. Não é fácil.
A dificuldade aumenta conforme percebo que o afeto deseja interioridade. Saber que alguém foi preso é uma informação. Mas saber que foi preso seu bisavô, o João que brincava de ciranda com Juliana, produz perguntas que a informação, por si só, não satisfaz. A cada página, quero saber se teve medo, e imagino que sim. João dizia que coragem não era não sentir medo, mas saber que, apesar dos perigos, era preciso seguir. Quero saber o que sentiu, o que pensou quando voltou para casa, o que disse à minha bisavó. Queria reconhecer no homem que conheci alguma marca daquele outro que os documentos revelam.
A literatura tem recursos magníficos para oferecer essas respostas, especialmente quando quem escreve conhece o desfecho e pode retrospectivamente distribuir sinais que façam uma vida parecer coerente. Mas mergulhar em arquivos sobre meu bisavô exige o contrário: preservar as incoerências, os espaços vazios que o impedem de se transformar num personagem e o mantenham humano. E aí está a dificuldade de se trabalhar com indícios: exigem a hipótese como disciplina.
O arquivo de meu bisavô me ofereceu pegadas suficientes para que uma trajetória aparecesse; ao mesmo tempo, me indicou coisas que jamais encontrarei. É impossível não perguntar o que fazer com essa história depois de encontrá-la. A descoberta de uma trajetória política na família produz uma tentação autoexplicativa poderosa.

Penso em meu bisavô comunista, em minha avó e sua paixão pelo teatro — essa é outra história que ainda devo contar —, e busco oferecer explicações sobre minhas escolhas. Elas certamente passam por eles, ainda que não como uma linha fiel. Gosto de pensar que algo teria começado ou continuado nele e passado pelas gerações, e aquilo que fiz depois seria uma continuidade de algo que já estava lá. Mas logo recobro a consciência da realidade. Não recebi de meu bisavô um relato organizado.
Esse desejo de continuidade reverbera em Walter Benjamin, sob uma concepção de história que recusa um passado em sequência homogênea. Trazemos significados reconhecíveis por nós, porque também existe uma história daquele que olha, ou seja, de nós mesmos. Meu bisavô não estava nos anos 50 preparando explicações para a vida da bisneta. Isso sou eu que encontro a partir de vestígios e leio por meio de perguntas que pertencem somente ao meu tempo. Talvez seja isto que complique minha ideia de herança: uma parte importante daquilo que poderia chamar de legado só se tornou visível quando comecei a procurá-lo.
Há uma relação em duas direções: uma que chega até mim do passado de modo fragmentário, deturpado por repetições; outra que minhas perguntas do presente fazem aparecer nos vestígios. É difícil falar em vestígios sem pensar em Christina Sharpe, na esteira deixada por aquilo que passou, mas também na permanência de uma história cujos efeitos não cessaram quando o acontecimento terminou.
Para famílias negras, procurar os que vieram antes talvez signifique mover-se por essa esteira, encontrando não somente aquilo que sobreviveu dos antepassados, mas as condições históricas que determinaram o que poderia sobreviver, sob qual forma e registrado por quem. Se Benjamin me ajuda a perceber que o passado se torna legível a partir das perguntas de um determinado presente, Sharpe complica a própria distância entre esses tempos, porque alguns vestígios não chegam até nós como objetos deixados para trás e continuamos vivendo dentro da história que os produziu.
Na roda com João
“Juliana, era você que estava na roda com João?” A pergunta de meu bisavô retornava frequentemente conforme eu avançava na leitura dos arquivos. Não porque tenha descoberto nela algum código, mas porque pensava no que ela dizia sobre aquele sujeito descrito como subversivo. Pensava naquela música, composta naquele contexto, se cruzando com a história daquele homem, culminando em meu nome. O próprio movimento desse pensar uma roda quase perfeita. Mas a pergunta persiste.
Quando descobrimos que alguém viveu acontecimentos que consideramos significativos, os gestos começam, invariavelmente, a ser lidos como sinais. Mesmo que saibamos que não o são. Não consigo pensar na pergunta da mesma maneira. Quando criança, só bisneta do biso João, alcançava apenas a brincadeira, o afeto, sem imaginar que ali estava um homem disposto a lutar, por todos os meios necessários, por justiça e liberdade. Hoje, se ele estivesse vivo, já centenário, eu logo pegaria um gravador e garantiria a entrevista.
Continuo procurando por João. Ainda há documentos para encontrar, nomes para rastrear, lugares para localizar, perguntas a fazer para outros familiares que conviveram com ele. Ainda busco respostas que talvez não encontre em documento algum. A cada novo vestígio, alguma coisa se acrescenta. Sigo construindo um arquivo que nenhuma instituição produziu, com minha mãe contando a história de uma abelhinha chamada Juliana, com a música de Gilberto Gil cortando diferentes épocas da minha vida, ampliando seu significado. Essas lembranças não corrigem os documentos, pertencem a sistemas diferentes de conhecimento e de intenção.
Não espero, com o fim dessa pesquisa, ter construído um retrato completo, porque há diferentes versões de meu bisavô: o da família, o do partidão, o da clandestinidade, o marido, o pai, o tio, o biso, o menino, o homem que resolveu migrar. Hoje posso abrir um documento e encontrar João Sampaio de Alcântara descrito por pessoas que jamais imaginaram que uma bisneta o procuraria ali tantas décadas depois. Fecho o arquivo e resta aquela pergunta como uma das poucas coisas que chegaram diretamente dele até mim e que, justamente por não explicar nada, continua fazendo companhia a tudo aquilo que ainda preciso descobrir.
Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026. Com o título “À procura de meu bisavô”
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