Fragmento de Jovem mãe olhando para o filho, de William Bouguereau (1871) (The Metropolitan Museum of Art)

Onde Queremos Viver,

Todos playmobis

Na era da reprodutibilidade, uma óptima ideia de negócio: uma peruca fascista para cada português

16dez2025 | Edição #101

Portugal é o país desenvolvido com pior rácio entre salário e preço da habitação. É ainda, de forma geral, o pior país da Europa para passar o inverno, se não se for rico. A cigarra das nações. A pior climatizada. O inverno português é feio, desagradável, cheio de humilhações e sofrimento, com breves episódios soalheiros. A vida en abyme.

Por excesso de felicidade ou não vá Putin ter ideias, bandos de nórdicos mudam-se para cá, onde são acolhidos de braços abertos e carteiras ainda mais abertas. Não darão pela falta de outros nórdicos e de eslavos em geral, nem de russos em particular. Franceses e italianos são praticamente da casa; nuestros hermanos idem, por supuesto. Sefarditas fazem filas para se inscrever em Portugal como num casting de talentos. Nómadas vão e vêm nihilisticamente, sabe-se lá de onde e para onde. Americanos, idem. Grândola vila morena, Lisboa cidade loura. Turistas, vejo-os da varanda a boiar na direcção de Santa Apolónia em sucessivos cruzeiros iluminados, largando discretas descargas sanitárias ao largo das praias dos pobres, como um grande pai bêbado a mijar na piscina do hotel. É a tal “vocação atlântica” de que falavam os conservadores, há vinte anos. O devir gringo.

Quanto lixo vai na cabeça da juventude; só assim se explica a aversão a si mesmos

Tudo isto suscita debates acesos em torno das respectivas vantagens e desvantagens. Vantagens: poucas, quase só para os ricos. Desvantagens: sobretudo para a classe média e os pobres, que vão viver para o cu de judas e rachar de frio. Os transportes públicos abarrotam e há zaragatas raciais. E, obviamente, a culpa das desvantagens é dos brasileiros e dos africanos e dos hindustânicos. 

Esfrego os olhos de incredulidade e fúria ao ver que a juventude vota nisso, acredita nisso. Manuel António Pina gracejou uma vez que, em menino, dizia que queria ser Salazar quando fosse grande por achar que Salazar era uma profissão. Portugal está transformado nisto, menos o gracejo. Jovens mulheres abraçam a profissão de donas de casa submissas; querem ser mães numerosas cujos maridos ainda cofiam o buço e já ensaiam genuflexões ostensivas, como saudações políticas. E ao domingo genuflectem de braços estendidos, como cavaleiros do reino, que creem ser.

Quanto lixo, quanta má pornografia vai na cabeça da juventude. Só assim se explica a aversão a si mesmos, da qual se vingam na figura do estrangeiro, desde que seja pobre e escuro.   

Um jurista-comentador-de-bola (que a TV, na sua sábia compreensão da realidade, promoveu a líder da oposição) é o mais bem colocado para o lugar a que se candidata. Diz que vai salazar o país como um autêntico patriota. Olham-no com uma volúpia as subordinadas. Os noivos compreendem, não se zangam. Será gel? Será laca? Masculinidade pura? Por muito que vocifere, não se despenteia. Nem Milei, com suas bravas patilhas, nem o Johnson hairdo, submetido a sevícias várias, se compara àquela lusitana armadura. Que cabeça, que cabelo. Não é um avião; não é um pássaro; não é super-Camões. É o playmobil xerife. Na era da peruca na sua reprodutibilidade técnica, aí tem uma óptima ideia de negócio. Uma peruca fascista para cada português. 

E tem de haver a cabeleira baby para a moleirinha dos pequenitos. O pinypon Salazar. Todos diferentes, todos playmobis.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Todos playmobis”

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