Onde Queremos Viver,
Um quarto
Os traumas e os desejos estão muitas vezes presos aos espaços: entrar neles entretém fantasias
20maio2026Em Marriage, série britânica criada por Stefan Golaszewski para a BBC One (2022), reparei que há na casa do casal protagonista uma divisão esquecida: o quarto onde dormem. Ao contrário do resto da pequena vivenda, arrumada e estimada, o quarto é uma despensa, com roupa suja dispersa e roupa lavada por passar a ferro, caixas amontoadas, nada que o embeleze a não ser o papel de parede triste e bege, como é a roupa interior de Emma (Nicola Walker) e Ian (Sean Bean). Existem nas casas divisões que esquecemos, que por vezes coincidem com as divisões onde esquecemos. Com frequência, esquece-se o quarto, onde só se entra de noite. O casal tem uma obsessão com a limpeza. Sempre que passam por uma embalagem deitada ao chão, na rua, apanham-na e deitam-na fora.
O esquecimento do quarto onde dormem assinala os silêncios que os unem, o seu mutismo tenso, aflitivo, os segredos que não partilham, mais do que aqueles que partilham. Interessa-me porém a ideia de uma divisão subtraída, descuidada, e que essa divisão coincida com o lugar onde sonhamos e descansamos. Será que o descuido se pega à esperança que temos nos sonhos, ao ânimo com que encaramos a noite?
Este quarto conduz-me ao modo como as casas são à semelhança dos seus moradores e parecem até prever o futuro. Pode ser-se infeliz numa casa cuidada, até numa casa abastada. Mas a distribuição dos nossos esquecimentos encontra muitas vezes uma tradução nas zonas de luz e de sombra da casa onde vivemos. Parece que nos conseguimos esconder dos outros, até dos mais próximos, mas não nos conseguimos esconder da nossa casa.
Nenhum estranho pode entender o que une duas pessoas, todo casamento é um mistério
Então, pergunto-me, se o quarto descuidado revela de facto o que desune o casal ou o revela no que tem de mais íntimo. Se um quarto onde ninguém pode entrar, porque está desarrumado, um quarto de que o casal tem vergonha, se um quarto assim não será um segredo entre os dois, que de olhos fechados conhecem os seus cheiros e as suas inclinações profundas, o ressonar, o transpirar, a cara com que cada um acorda.
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Penso no oposto, a cama cheia de almofadas decorativas que vi noutro filme, e exasperava o marido, por não entender por que haviam de as ter, visto não terem utilidade (tiravam-nas da cama todas as noites e voltavam a pô-las na manhã seguinte). Ou a mulher divorciada que conheci: e só era capaz de dormir em lençóis imaculados, sem um odor.
Os traumas e os desejos estão muitas vezes presos aos espaços. Entrar neles, chegar perto, reaviva a memória, entretém fantasias. O quarto de Emma e Ian talvez assinale como todo o casamento tem em vista o seu próprio fim, a morte. No seu quarto, não revivem senão o contínuo adiamento que é a sua vida madura. Pouco conversam. Omitem um do outro os factos banais e redentores. “Vinte e sete anos”, diz Ian a Emma. “As vezes em que me salvaste de cair no poço.” Emma cala-o com um beijo.
Quanto mais tempo passa, mais concluo que nenhum estranho pode entender o que une intimamente duas pessoas. Todos os casamentos são um mistério, porque todas as pessoas são um mistério. E, contudo, a toda a hora, a literatura faz-se da especulação em torno desse enigma.
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