Subway (1934), pintura de Lily Furedi (Smithsonian American Art Museum/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

A secretária

Pode ser que eu e famílias como a minha não sejam senão sobrevivências, acidentes coloniais

28abr2026 | Edição #105

O avô mandou fazer a secretária a um carpinteiro em Moçambique. O interior das três gavetas guarda inscrições coloridas a caneta feitas por nós em pequenos. Ali sentado aprendera a escrever o meu pai, ali fiz os deveres da escola primária, lembro-me de não chegar com os pés ao chão. Quando era menina, ficava no meu quarto, única peça de mobília além da cama, sobre a qual a avó pousava a máquina de costura. Acendia uma luz de presença porque eu tinha medo do escuro e adormecia aterrorizada com a sombra que o cadeirão da secretária projectava na parede. Parecia-me um monstro. 

Foi-se fazendo feia, os cães da casa roeram-lhe as pernas. Envelhecida à medida que a avó, que cuidava dela, foi envelhecendo, apesar de ser boa e imponente, perdeu a graça. Relíquia colonial, não passa nas portas e não encaixa na mobília do presente. Sujeita a configuração de todas as salas em que entra. Ou a divisão gira à sua volta ou a secretária estraga qualquer sala. 

Quando a herdei, o meu pai ficou um pouco magoado por não ser ele a herdá-la. Recebi-a como uma passagem de testemunho, tentei sentar-me e escrever. Sem êxito. O cadeirão de origem, roído e rasgado no assento, não valia o arranjo e já não se vendem cadeirões cujos braços sejam à sua altura, tive de arranjar outro, que risca o verniz nas arestas. Sento-me e escrevo. É uma herança desconfortável. Demasiado baixa para os cotovelos, que, apoiados, obrigam a encurvar a espinha, e sob o tampo não há como cruzar a perna.

Manca, cansada, a peça ultramarina não desperta mais memórias boas

Esperava que o espírito do avô revivesse ao tocá-la, mas a peça é o oposto do avô que me educou: sisuda, inadequada, molesta, opressiva. Testemunho de quê? Carrego-a de casa em casa em memória dos meus avós brancos, jovens colonos, a chegar a África nos anos 50, levados por sonhos cuja dimensão colectiva me enfastia e degrada. Sonhos os quais abomino e em relação aos quais a minha própria existência era vista como uma abominação. 

O jovem engenheiro que a mandou fazer por medida certamente não poderia imaginar o seu destino póstumo. Este fóssil está para o passado colonial português como uma metáfora material daquilo a que Elizabeth Anscombe chamou “sobrevivência”. Pode ser que também eu e famílias como a minha não sejamos senão isto: sobrevivências, acidentes coloniais. Sobram entre nós partes do mundo de onde ela veio: nas feiras de antiguidades, na cabeça e na casa de algumas pessoas, em cartas a directores de jornais, nas estruturas que nos subjugam. Metonímias caducas. O tempo vai passando e vão perdendo até o seu valor sentimental. Manca, cansada, ressequida, a precisar de conserto, a secretária ultramarina não desperta mais memórias boas, transporto-a sem vontade. Deveria pô-la à porta do prédio ou convertê-la em lenha, mas arrasto-a comigo por um carinho sem ambiguidade.

Este inverno, mandei restaurá-la. O arranjo revelou o verdadeiro tom da madeira: sanguíneo. Percebi que nunca a havia visto, ao longo de tantos anos. Desisti de tentar escrever onde aprendi a escrever e transformei-a num tampo de flores e perfumes. Enfim, inutilizei-a. Olho-a e penso que venci. E, depois, olho outra vez, imóvel e definitiva, e percebo que não há modo de a vencer.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “A secretária”

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