The Lady Betty Germain Bedroom at Knole, Kent (1845), pintura de James Holland (Yale Center for British Art/Paul Mellon Collection/Reprodução)

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A dificuldade de ler

As ferramentas da IA tendem a ser confundidas como uma alternativa respeitável à leitura

20maio2026 | Edição #106

Na última década e com intensidade nos últimos dois ou três anos, verifica-se uma tendência de retorno à close reading no campo dos estudos literários, um interesse renovado pelos seus princípios, objectivos e metodologias. 

Não se pode dizer que seja um desenvolvimento natural, muito menos um desenvolvimento lógico das tendências críticas — e está longe de ser um desenvolvimento dominante. Ainda que alguns dos seus modos de análise (que se generalizaram a partir do new criticism, distanciados já do puritanismo contra a análise histórica e contextual que as caracterizava) se tenham tornado prática comum, postos ao serviço de variadas sensibilidades e finalidades. Não é que se perspective uma voga formalista, mas uma vaga metodológica. Visto que a naturalizámos, a leitura minuciosa, atenta a estruturas internas, à ironia e à ambiguidade, é um forte candidato a essa vaga e tem sido objecto de algum interesse, nem que seja porque os estudantes revelam hoje uma alarmante incapacidade para a ironia e a ambiguidade.

Nessa tendência vinha, antes de mais, a tentativa de restaurar o bom nome a certas actividades em torno de poemas e ficções, que não são conhecidas por trazerem dinheiro às universidades. A promessa de um “método” que salvaguarde uma “epistemologia distintiva”, método cuja supressão, por via de cortes no financiamento do ensino e da investigação, numa escala sem precedentes, levaria (levará?) a um “evento de extinção na história do conhecimento”, conforme Jonathan Kramnick em Criticism and Truth (2023). 

A prova de vida que nos pedem consiste em assinar nossa certidão de óbito

Esta pressão apocalíptica sobre a nossa actividade se agravou ainda mais com o acesso desenfreado à IA. As suas ferramentas tendem a ser confundidas, para já pelos estudantes e em breve pelos decisores, como uma alternativa respeitável à leitura, isto é, à dificuldade da leitura, e, por conseguinte, ao estudo avançado da literatura. Logo, cedo ou tarde, à “racionalidade” do financiamento desse estudo. 

O súbito apelo da close reading acontece em óbvia reacção dos professores à anulação do seu modo de vida pela IA. Reacção, em parte, à ameaça social em face da ilusão de que tais ferramentas rivalizam com a docência e a discussão em aula; em parte, às pressões institucionais para que sejam admitidas e incorporadas nas práticas lectivas e avaliativas. (Normalização que implica uma complacência escandalosa a respeito da expropriação literária e intelectual em que se baseia o treino dos modelos que é suposto integrarmos através de “usos responsáveis”, seja isso o que for.) Se a prova de vida que nos pedem consiste em assinar a nossa certidão de óbito, estamos conversados.

A saudade da close reading talvez não seja senão uma reacção partilhada a acontecimentos extrínsecos. Trata-se da esperança em que a proximidade com o texto remova quaisquer obstáculos até ao contacto final com a forma: numa metodologia que devolva a sanidade, se não a salvação do “significado”. Irónica e radicalmente, isso aproxima-nos porém do mal-entendido de todo o estudante contemporâneo. A ideia de que há, para a dificuldade da leitura, um método de a obviar. Cada close reading é a história do encontro com essa dificuldade, que não se coreografa. Não se ensina a close reading e não se ensina sem a close reading.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “A dificuldade de ler”

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