Fragmento de Jovem mãe olhando para o filho, de William Bouguereau (1871) (The Metropolitan Museum of Art)

Onde Queremos Viver,

Mãe e filha

Não gostava que ela participasse nos seus aniversários, por ter vergonha dos seus modos

16dez2025 • Atualizado em: 19dez2025 | Edição #101

O ódio começara quando era adolescente. Nem todos passamos pelo momento de perceber a classe social a que a nossa mãe pertence, a nossa classe social, e sentimos vergonha por ela, vergonha que todavia não nos abarca porque pensamos então, por ingenuidade, poder escapar à nossa mãe e ao lugar de onde viemos. Talvez por sentir na filha essa vergonha, a mãe fazia-a ver que o seu destino era vir a ser igual a ela. Nessa profecia residia a raiz do ódio da filha por ela, talvez porque, detrás da ingenuidade, pressentia que a mãe tinha razão.

A mãe era um espelho em que as maneiras da filha eram meramente aprendidas e nisso mascaradas, inautênticas, falsas.

À mesa com os amigos, a filha escolhia o vinho, como uma conhecedora esquisita, ousadia a que Lurdes nunca se atrevera. Vestia Proenza Schouler sobre a lingerie sem graça que a mãe continuava a trazer-lhe da Loja da Marina, senhora que a vira crescer, nos subúrbios, de onde eram. 

Lúcia casou com um homem de outra classe social. Deslumbrada com a nova família, onde não aceitavam a filha, a mãe adorava o genro. A filha foi mãe, a certa altura. Descobria-se agora igual à mãe que tinha tido, nos gestos simples, naquilo que a irritava e a fazia perder a cabeça, na tristeza, na noção enfática do desperdício da vida que a maternidade lhe ia trazendo, mas também na força.

Lembrou-me nesses anos o caso da mulher que, começando por corrigir, no começo da vida adulta, os erros ortográficos dos recados escritos que a mãe lhe deixava pendurados no frigorífico, se tornou uma mulher sem qualidades, chegando aos cinquenta anos exactamente como a mãe, dando erros ao falar e ao escrever, de que não se apercebia, e não tinha quem a amasse a ponto de os corrigir.

Ao lado uma da outra eram a mesma. Todos os traços da cara da mãe que Lúcia achava feios — o queixo pronunciado e vincado ao meio, o nariz fino, as brancas amareladas, o duplo queixo, o cabelo nem liso nem encaracolado — eram agora seus.

Ao lado uma da outra eram a mesma. Todos os traços que Lúcia achava feios eram agora seus

Não gostava que a mãe participasse nos seus aniversários, por ter vergonha dos seus modos. A senhora chegava e punha logo o avental, passando a noite ao lava–louças. Lúcia achava que a mãe parecia uma empregada e que a cozinha era onde se sentia bem. Mas temia as trocas de palavras da mãe com os seus amigos quando estes iam à cozinha buscar um copo ou uma cerveja, os seus modos servis, os seus lapsos gramaticais. 

Temendo “o triste espectáculo” que era a mãe querer ajudá-la, deixara de a convidar para as suas festas de anos, que eram de noite, e almoçava com a mãe nesse dia para assinalar a data. E então, por momentos, vendo a filha pequena à mesa ao lado da avó e notando a indiferença da menina a tudo aquilo que na sua mãe a envergonhava, ocorreu-lhe o que seria se a sua filha viesse a ter vergonha de si quando crescesse, o que lhe provocou uma tontura súbita.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Mãe e filha”

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