Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Lista de infotografáveis

O rapaz árabe que diz à senhora ganesa que foram os americanos que formaram Osama bin Laden

19out2023 - 17h38 | Edição #75

Estas são pessoas e coisas infotografáveis que não quero esquecer que vi na semana passada:

O gigante doce, quase angelical, guarda do Social Services Office, a dar boas-vindas a todos, distribuindo graças, dizendo que ali não se pode comer nem beber água

Um veterano de guerra a rastejar, como no campo de batalha

Um homem a berrar consigo mesmo enquanto caminha, dando murros num fantasma

Duas raparigas aos beijos, a dançar na rua

Um casal: ele a ensina a andar de bicicleta, embora ele também não saiba andar de bicicleta

O senhor sem casa que pede para se sentar ao nosso lado, só para estar acompanhado

Uma mulher a berrar num ritmo quaternário noite fora

Dois amigos a jantar num banco de jardim sob chuva torrencial

Um cego surdo negro, a falar sozinho enquanto caminha

Um homem corcunda. Passeia o seu cão pequeno e velho. O cão guia o homem. A cabeça do homem quase toca no chão.

O senhor sem casa que pede para se sentar ao nosso lado, no banco de jardim, só para estar acompanhado, e ali ficamos os três juntos, até me virem as lágrimas aos olhos

Uma senhora japonesa de longos cabelos brancos, muito bela

Duas modelos brasileiras negras, a parar o trânsito enquanto falam de cocktails

A fumadora sempre de chinelos com as unhas dos pés muito sujas

Um homem negro que dorme sentado num muro, todas as noites, vestido com um manto e um turbante brancos

Uma mulher que dá saltos de trampolim dentro de um gabinete, sempre depois das 21, todos os dias, até as 24, sob o olhar atento do amante

Um homem que passeia dois cães negros, e parecem duas panteras, as coleiras de metal, ele vai parando, a falar ao telefone, e os cães param com ele, e logo retomam o passo, em círculos

Dois homens a fazer boxe na rua

June Leaf, a viúva de Robert Frank, à porta de casa, acompanhada de uma jovem mãe negra e do bebé desta, sentadas em bancos como velhas cabo-verdianas no bairro de Santa Filomena

Esquilos que se aproximam em vez de se afastarem e chegam perto e nos olham nos olhos

Um livreiro de unhas compridas, com um anel de caveira no dedo

A caixa de supermercado trans, olhos e lábios esborratados, que me chama my beautiful

Sam, o handyman egípcio, que não está para brincadeiras, e dá descomposturas ao funcionário mexicano

Os três paquistaneses da tabacaria, como três irmãos siameses, que perguntam, à minha entrada, one, two or three?

A japonesa a posar encostada ao arco no Washington Square Park, com chapéu de coco Christian Dior

O casal gay aos saltinhos na rua, trocando beijinhos no ar e o parêntesis em que, falando conosco, se revelam estupidamente snobs

O rapaz que vai louco pela rua e grita à multidão: give me water, I’m thirsty, the Asian community wants me to die of thirst!

O rapaz árabe que diz à senhora ganesa que foram os americanos que formaram Osama bin Laden

Um balão cor de rosa a subir o céu, ia perto dos helicópteros, até que deixei de o ver.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.