Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Chapéu para o coração

Conheço as saudades das pessoas que não existem: os livros terminam e as pessoas dentro deles continuam

12jan2020 - 23h01 | Edição #30 jan/fev.20

Até há pouco, só conhecia as saudades de pessoas que existem, aquelas que já morreram ou que não vemos há muito. Agora, conheço as saudades das pessoas que não existem, as que inventámos e que nos acompanharam enquanto as criámos. Termino um livro e não acontece logo. Mas, aos poucos, as saudades invadem-me. Serão saudades do tempo passado com eles, deles ou de mim? É mais parecido com ter saudades de um sonho que se costumava ter do que com as saudades que costumava sentir de personagens de filmes, depois de os ter visto. Os livros terminam e as pessoas dentro deles continuam. Sentir falta delas é um pouco como ter saudades da nossa vida, de um aspecto do nosso passado. Ainda me é insuportável imaginar essa continuação, a persistência dessas figuras que, não sendo de carne e osso, me acompanharam mais como figurantes de um sonho repetido do que como gente que conheci um dia e que deixei de ver.

Tenho procurado exemplos da origem da literatura no quotidiano, tomando a parte pelo todo: o fumo de cigarro vindo da varanda da casa do lado — soprado pelo patriarca que vejo em pijama a olhar pela janela, por barbear, velho regressado à casa dos filhos para não morrer desacompanhado —; os trambolhões dos meninos que moram no andar de cima e que entram no prédio chegados da creche com o ímpeto de centuriões; os assobios do casal de cima, enquanto a filha ata os sapatos sozinha, com que Eudora Welty começou as memórias dos seus primeiros anos como escritora; os passos da senhora africana que anda aos caixotes de lixo à meia-noite; a farda da outra, que namora montras de loja enquanto passeia os meninos dos patrões; o automóvel preto do namorado da filha dos vizinhos da frente; o incenso a arder na casa da vizinha de baixo, os gatinhos que ela alimenta e que suplicam comida a horas certas. A imaginação apodera-se das sinédoques como as saudades das personagens que não são saudades nossas, mas do que foi a vida enquanto duraram perto de nós. Recordo-me delas, mas têm o corpo que tem um chapéu que conhecemos a alguém que amámos: um chapéu para o nosso coração.

Mesmo desconexas, as partes do dia enchem-me de saudades dos amigos dos últimos anos, gente que nasceu da vida e ganhou corpo e me ganhou a mim. Quero que não morram nunca, não no sentido de serem lidos para sempre, mas no de não morrerem mesmo, como nós morremos; ao mesmo tempo, não suporto sabê-los meus sobreviventes.

Enquanto habitam a minha casa, sonho com eles, mas nunca têm cara. Não sei como odiá-los, porque conhecê-los é fazer-lhes a corte, namorá-los, tentar ver como é a cara da moça que surge sempre de costas entre a multidão — e nos intriga. Será saudade deles, ou saudade desse namoro, de os ver cobrirem-se à medida que a gente se aproxima, sempre tão púdicos, sempre tão difíceis, sempre tão comprometidos. Ou será saudade de me ver chegar perto, amante obstinada, saudade de me ver fazer-lhes a corte, pela qual me apaixonei? Depois, desaparecem. Só regressam em dias de chuva que correram mal. São lembranças de alguma coisa, ou doutros dias cinzentos: saudades mais de uma disposição que de pessoas.

Nunca existiram, mas cada livro é um cemitério, e a vida outro. Passeio-me entre os jazigos, presto homenagem, não se condoem nem devolvem cortesias, nem piropos. São flores de plástico que ornam sepulturas num pequeno cemitério de aldeia aonde ninguém vai a não ser a minha autocomplacência. Escrever está entre as coisas mais tristes do mundo: ter duas mãos por companhia e a cabeça em fogo para logo ver o fogo apagar-se sem ninguém ver. Ou, então, quem sabe, essa gente de papel voga por aí e vê-me à janela, quando abro as persianas. Pensa: lá está ela — e continua. E as nossas mãos são só um aspecto do sonho que, na verdade, desconhecemos, e elas é que conhecem.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #30 jan/fev.20 em janeiro de 2020.