Coluna

Ondjaki

Deslembramentos

Uma casa na marginal de Luanda

Onde fica o lugar da memória? Se o longe de repente se confunde com o perto, e se de um sorriso se faz saudade e esse lugar parece perto e não se pode mais tocar?

24mar2023 - 04h51 | Edição #68

há livros que são pontes para um tempo. mas o tempo é, desde sempre, um labirinto complexo e pessoal.

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(às vezes) lembro da infância: as primeiras escritas. eram dias tão novos que eu nem sabia ainda que o mundo ia existir para mim como um labirinto de lugares e de pessoas. escrever, no futuro, seria reorganizar o lugar dessas coisas, cruzando os afectos com as convicções e, mais tarde, as urgências me fariam escrever.

lembro de algumas madrugadas. misturo os tempos, não sei separar a água da nascente da água da foz. o rio como vida que correu. e as margens, que se imaginam fixas, são pessoas como os outros e nós mesmos.

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há janelas que se abrem para nós como portas e ao debruçarmo-nos sobre elas estreamos aquilo que chamaremos de nova porta e de outra janela. tudo (des)trocado, e tudo a servir. o mundo é um lugar em curva aberta.

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lembro dessa casa (de afectos) que era a “casa da tia Tó” (e do tio Joaquim). lembro de um chá ou de alguém na varanda. ou os passos quietos, certeiros, da tia Tó a preparar (na noite anterior) o iogurte do dia seguinte.

no pesado corredor escuro, entre portas vazadas de belos entrançados de madeira, uma senhora de muita idade parecia pregar o seu sorriso às paredes e caminhava mais devagar do que todos nós. (ela) era tão devagarosa que talvez (se) tivesse esquecido de morrer. o seu sorriso não ofendia nem provocava. antes aplacava a rapidez da correria das crianças.

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era uma casa cheia de livros a transbordar para dentro dela. há livros que são para sempre uma ponte para um lugar chamado tempo onde, ao lembrar demais, ou saber demais, se corre o risco de ficar preso ao vazio de nem ter sido nem vir a ser.

e eu — uma criança — pensava que Eugène Ionesco era um senhor francês que tinha escrito um romance chamado “o solitário”. isso foi num tempo que hoje já posso chamar de antigamente. e foi nessa casa. junto à grande e linda baía de Luanda.

apresentação

recuando: as crónicas que aqui vou escrever e que receberam este nome de “deslembramento” serão assim, como aqui se pressente: transbordo entre memórias, afectos, visitações a lugares que existiram, saudades que quase cicatrizaram e até entrevistando pessoas que já andam em outros voos.

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a casa que hoje venho lembrar é uma das casas da minha infância. explico, em telégrafo familiar: a tia Tó era a irmã da minha mãe. o tio Joaquim, o marido dela. estória linda a dele e a deles. ele era padre. e preso político (antes da independência de Angola). e ela gostava dele. e ele veio a gostar dela. o padre teve que pedir autorização à Igreja para deixar de o ser. isto era coisa para demorar, mas não demorou. quando se casaram, ele ainda estava preso. era, portanto, um ex-padre envolvido (na época) em “actividades terroristas”.

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passam anos. eles (o ex-padre e a tia Tó) já casados viviam em Luanda. eu nasci em Luanda. muitas vezes na minha infância e sobretudo na adolescência passava os fins de semana na casa deles. um apartamento amplo, num segundo andar, de cuja varanda se podia olhar a baía de Luanda, o mar todo atlântico, os pescadores em canoas errantes, as árvores que brincavam de ser a margem da baía. uma varanda cheia de mosquitos e de conversas.

era uma pequena aldeia aquele apartamento. as conversas. o tio. a tia Tó (pediatra, atenta, corajosa, inventiva, íntegra, mãe, tia e filha da avó Agnette, mais tarde conhecida por “Avó 19”). os filhos deles, meus primos-como-irmãos. e, por vezes, a avó Encarnação a circular no escuro dos corredores sempre de sorriso aberto (uma borboleta transparente e escura).

por isso apetece dizer: cada aldeia é sim um mundo inteiro, aos poucos.

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[entretanto, no futuro] a noite em que vi o livro apertadinho entre os outros. aquele livro. tinha um cor bonita e densa, não me posso lembrar se era azul carregado ou roxo adormecido. “o solitário”. peguei nele, retirei com cuidado. o tio Joaquim fumava o tempo, sim o tempo, sentado na sua cadeira, e olhou por cima dos óculos dele. sorriu. “Ionescu… boa escolha”. e eu sentei-me ao perto dele, do cachimbo, da música que ele ouvia (Nina? Louis Armstrong? Ella? Mahalia Jackson?), do cheiro a conhaque e do som silencioso do mar da baía que não fazia som porque não se mexia. e abri o livro.

e foi tão importante, esse livro, para mim, durante tantos anos.

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[entretanto: em outubro de 1992] à hora do almoço. e era sábado. e o que parecia um rumor de chuva em trovoada afinal era uma guerra em Luanda. de poucos dias, assim seria. mas o que é essa palavra guerra no corpo de uma criança? a tia Tó foi ficando nervosa. o tio Joaquim foi à varanda espreitar a tarde e a cidade. carregava no ouvido esquerdo um potente rádio que apanhava ondas curtas muito internacionais. e voltou com cara séria: “isto não é chuva. é a guerra”.

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tudo isso numa casa só. tantos livros. tantas vidas. tantos sorrisos, tia Tó. tantos segredos, tio Joaquim. tantas conversas, prima Naima. tantas tardes. tanta dor no peito de se ser adolescente. tanta lágrima. tantas noites lindas, tio. tantos livros teus. tudo isso numa casa só. como diria a Avó Agnette: casa é uma coisa que se encontra.

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a beleza de contar algo que nos foi contado, tem uma película de espuma que a protege da mentira: eu conto aquilo que julgo lembrar daquilo que me foi contado. não posso nem afirmar, jurar que “foi assim”. mas posso sentir com todas as forças: foi assim que me disseram que aconteceu. isso me deixa numa estranha e linda paz.

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quantas avós poderíamos encontrar naquele espaço? porque “avó” em Luanda é um território sem horizonte de chegar. a avó Leocádia era minha avó só porque éramos da mesma rua. a avó Maria era minha avó por ser avó da Charlitta. a avó Graziela era minha avó por ser mãe da tia Rosa. a avó Quina chamávamos assim por respeito dos cabelos dela de avó e por ser mãe do tio Joaquim. e a avó que agora preciso de invocar, a avó Xica, era a irmã da minha Avó Nhé. portanto, minha tia Avó.

o que vou quase contar é o que andava a avó Xica a fazer na varanda da casa da tia Tó. onde por vezes me cruzei com ela. e onde aquilo que conto me foi contado e hoje já sinto como lembrança minha. (doce perigo da memória: atravessa a fronteira e ocupa lembranças alheias.)

a avó Xica começou a passar tardes e tardes na casa da tia Tó. eu também. por razões bem diferentes. a tia Tó explicava muito bem o sistema digestivo da galinha. uma matéria difícil que saía nos exames da escola. todos os anos, naquela época, era solicitada por alguém da família a “preparar”. aquilo me confundia. eu tinha que estudar os sistemas não sei das quantas de uma galinha (filha da puta!).

eu estava lá, durante esses dias, por causa de uma galinha. passava as tardes a estudar, e ler os esquemas que a tia Tó preparava com o carinho dela para que o mistério das entranhas se tornasse claro para um exame.

a avó Xica estava lá para aprender a escrever, por extenso, com letra fluida, o seu nome. havia, segundo entendi, um papel no banco a ser assinado. mas a avó Xica tinha de o assinar bem, fazendo crer que sabia ler e escrever. e a professora foi a tia Tó.

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o som da casa se alternava: ora era o papo, perto do pró-ventriculo, entre o duodeno e o cólon. ora era a voz da tia Tó: “ó tia, então já não tínhamos desenhado bem o ‘f’? assim parece uma cobra desmaiada!”. a avó Xica fazia teatro de estar zangada. eu sei por que ela me piscava o olho. naqueles dias tinham conseguido chegar ao “Fra”, ainda sem o “n”, e tinham poucos dias para completar “Francisca”.

fazia mais teatro: “eu para estudar preciso de beber”. e a tia Tó dava cervejas, bem geladas porque ela não gostava de cerveja quente; e eram várias e muitas. o filho da avó Xica (o tio António) deixava as grades para toda a semana. tudo isso numa casa só.

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houve um dia em que a tarde estava bonita na varanda. a avó Xica já tinha bebido muitas cervejas. em vez de ficar zangada, a tia Tó estava triste. creio que estava cansada de tantos esforços nessa vida de Luanda. olhava para o mar como se o mar fosse mais longe que a vida dela. acho que a avó Xica teve pena. pediu uma folha de papel. e uma caneta.

eu que estudava na parte de dentro fui a correr entregar os materiais. a tia Tó ficou muito surpreendida a olhar para as mãos da avó Xica. ficámos de testemunhas do precioso momento: a avó Xica começou a desenhar o nome dela, devagar e bem. não falou nada. não hesitou nada. parecia letra da quarta classe. mas escreveu: Francisca.

retirei o papel bem assinado por ela. a tia Tó ia falar uma qualquer coisa mas a avó Xica falou primeiro (para mim): “vai buscar uma cerveja bem gelada que os médicos já me disseram que faz mal beber cerveja quente”.

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eu fui. a tia Tó ficou na varanda da casa dela a olhar o fim do sol naquele dia sobre o mar da baía de Luanda e ninguém pensou mais no sistema reprodutivo da galinha.

a avó Xica bebeu cerveja. o tio Joaquim chegou mais tarde. a avó Encarnação começou a preparar o corpo para os movimentos silenciosos que iria fazer durante toda a madrugada.

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fazia antigamente em Luanda toda.

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.