Deslembramentos,
um petroleiro de flores
contar como quem relata e celebra a simplicidade do que é por vezes escrever e puxar a escrita a partir de um tema que nos fisgou
25nov2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100(…) e isso que é muito raro eu me lembrar do que sonhei. é uma T. T.: triste tautologia: acordo e lembro. (sei que) devia anotar e não anoto: volto a dormir e ao acordar já a vida verdadeira se sobrepõe à fantasia: “triste Cina, a minha”, dizia a mãe de uma personagem que agora desconsigo de apresentar.
mas acontece; às vezes. devo parecer um animal com a expressão de ter sido recompensado. lembro um bocadinho do sonho. ou umas pontas e farpas sobrantes. ou algo que pode lembrar algo que seja um pouco mais concreto. um som. até um cheiro. se eu me lembrar de um cheiro dentro de um sonho meu, se eu conseguir reproduzir esse conteúdo metafísico por algumas vezes, repetidas vezes, então nesse momento eu vivo uma pequena e intensa felicidade. os cheiros são labirintos vertiginosamente poderosos. ou escadarias.
*
há dias acordei com um sorriso ameno mas certeiro nos lábios. pude ler, digamos assim, a deformação muscular que os convocava para esse movimento externo. sorrir. o corpo sorri como se fosse um segredo entre duas pessoas que afinal (será) são uma só: a mente e o corpo. portanto: ainda que visível, um sorriso é também um segredo.
sorria pelo resto da lembrança. sorria porque esse resto me era suficiente embalo para curtos caminhos de imaginação. às vezes a escrita começa tão perto dos filmes internos. ver, imaginar, pressentir: sementes de escrita.
às vezes a escrita começa tão perto dos filmes internos. ver, imaginar, pressentir
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acordei com a sensação de que o próprio sonho, mais do que um oblongo desenho estirado (como um longo horizonte), fosse algo que pudesse ser encontrado e resumido por um título: um petroleiro cheio de flores. e isso (produzido pelo mundo dos sonhos) permite que eu viaje de fora para dentro. das palavras no título ao corpo do texto. as palavras como desenho e mapa de possibilidades. e foi a partir do título que fui vendo um gigantesco petroleiro a abarrotar de flores. não como lugar apertado. mas como esguio cesto metálico onde as flores, a passeio, olhassem o mar. em seco resumo, foi isto que vivenciei.
“e nós com isso…?”, diria o mais-velho ruy das barbas duarte de carvalho; ao que eu responderia: vim só contar, como quem relata e celebra a simplicidade do que é por vezes escrever e puxar a escrita a partir de um tema que nos fisgou, tanto pela potência afectiva quanto pelo eventual préstimo literário.
*
muitas vezes acontece ter saudades do camarada ruy (desculpem o desabafo). das suas secas lições certeiras. da sua voz modelada em mistério. da sua frontalidade ao dizer e ao olhar. se lhe puséssemos um deserto por trás, um pouco de vento e tabaco, talvez chegássemos a essa desmedida, propícia paisagem: um longo petroleiro cheio de flores.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
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