Deslembramentos,
faz um quarto de século
há momentos na vida em que somos convidados a divergir da verdade absoluta, a criar uma nova versão de nós mesmos
22jul2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #961.
redizer: um modo angolano, moçambicano ou brasileiro de dar novo corpo à estória. não necessariamente por invento; mas antes por um crescendo de detalhes antes omitidos.
2.
foi num almoço em lisboa, com o editor angolano jacques arlindo dos santos: já havíamos resolvido a refeição e os primeiros mujimbos (fofocas). o editor colocou a questão abertamente: ele estava a preparar uma nova colecção que tinha que ver com a independência de angola. ficção, mas nesse viés: angola, 1975. já tinha grandes nomes garantidos, ele afirmava. agora era garantir os pequenos nomes sem garantia. mas: tinha que ser romance. alguma ideia? algum caminho?
3.
há momentos na vida em que somos convidados a divergir da verdade absoluta.
o que deveria eu dizer? que estava imerso e encantado com o universo dos contos? que era isso que eu andava a adorar ler mais do que escrever? que acordava com mil ideias para contos curtos e que as ideias se desdobravam e apenas rendiam mais contos curtos? rapidamente, após terminar o copo de vinho, eu decidi que era urgente, naquele instante, criar uma nova versão de mim mesmo. divergi.
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— calha bem, falarmos nisto — limpei a boca com o guardanapo.
escondi as mãos pegando no guardanapo no colo, porque suava como um apostador de poker
para mim era uma pausa para pensar, para ele era o gesto de alguém que sabia perfeitamente o que dizer. — por acaso estou a meio de um projecto que tem a ver com isso.
— com “isso”?
— a temática da independência.
— a sério?!
— sim, a minha infância, os meus pais que se conheceram na guerrilha a lutar pela independência…, todos os amigos da rua e da escola que são a primeira geração pós-independência. — isso é promissor, rapaz.
— e, claro, os camaradas professores cubanos. tudo isso…
era como na pesca. segurar a cana para sentir a linha. buscar saber se o peixe já mordeu mesmo a isca. e o jacques tinha mordido.
— e mais?
— “mais” não te posso contar — brinquei.
— ai é? por quê?
— porque além de editor também és escritor.
— tás com medo que eu te roube a ideia, rapaz? — ele riu com o sorriso dele todo.
— não, não é isso — esclareci. — é que ainda estou a escrever e não sei bem o resto. mas a ideia central é esta que te contei. te interessa?
— sim, claro. gostei, pá. quando é que me mostras isso?
4.
estávamos nos últimos dias do mês de maio do ano 2000. o editor da chá de caxinde tinha mordido a estória. já dizia o meu avô anibal: “não é só a isca. é o modo como se prepara o anzol”.
— tenho mais de metade escrita… creio que mais uns dois meses — escondi as mãos pegando no guardanapo no colo, porque suava como um apostador de poker.
— então, em agosto falaremos… — disse o meu primeiro editor angolano.
5.
a 12 de agosto eu enviava a primeira versão. assustadoramente muito parecida com a última.
Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025.
