Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Dançar sobre a água

Para o fotógrafo Robert Frank, morto em setembro passado, as cidades podem ter um caráter hostil e impiedoso — e, tal qual o mar, sempre tiram algo de nós

01nov2019 - 00h05 | Edição #28 nov.2019

Na morte do fotógrafo suíço-americano Robert Frank, em setembro passado, recordei um documentário sobre sua vida e obra, Leaving Home, Coming Home: A Portrait of Robert Frank (2005), de Gerald Fox. No estúdio, velho, cansado, despenteado, mostrava o trabalho da mulher, a artista June Leaf, que lhe sobreviveu. Lembro-me das esculturas cinéticas de June, de como nas paredes do estúdio desarrumado havia negativos rasurados com marcadores, obras inacabadas, pilhas de livros, recortes encardidos, caixas de película. Relembro a impaciência de Frank diante da câmara: “Não sou um actor”, bradava, exasperado.

Noutra cena, na rua, a propósito do preço das rendas na cidade de Nova York, afirmou que a cidade é como o mar: “Tira sempre alguma coisa de ti”. Ao fundo, os ruídos da cidade sobrepunham-se às suas conclusões de ancião: sirenes de ambulância estridentes, conversas ao telemóvel, em passo rápido, buzinas de táxis, autocarros e carros de polícia, a banda sonora hostil de um imaginado centro do mundo. A memória da sua voz contra o barulho da cidade evoca a natureza misteriosa da intimidação, a origem sensível do medo: a forma como a hostilidade é, por vezes, a face do lugar onde vivemos — impiedosa e triste, apesar dos sorrisos — e não um atributo das pessoas com que nos relacionamos. “Tens de ser novo, tens de ser forte”, dizia o velho fotógrafo, para aguentar a maré da cidade.

Viver já é político

Na morte de Robert Frank, sua analogia entre a cidade e o mar me levou de volta ao seu estúdio, onde imaginei June sozinha com as suas esculturas frágeis, ela mesma uma escultura de mãos magras. “Sempre acreditei que a maneira como vivemos já é política”, afirmou Frank certa vez em uma entrevista, frase tornada manchete no catálogo da exposição Robert Frank, Books and Films, 1947–2018 — uma edição especial do jornal alemão Süddeutsche Zeitung em colaboração com a editora de Frank, Steidl Verlag —, impresso em papel de jornal. “Cheap, quick and dirty, that’s how I like it!” (“Barato, rápido e sujo, é como eu gosto!”), afirmara Frank, entusiasmado, perante a ideia do catálogo despretensioso. A maneira como vivemos já é política, até se a maneira como vivemos forem dois velhos num estúdio, sozinhos e despenteados, surdos, enquanto a selva da cidade, através dos vidros, os tenta aniquilar.

Será que é mesmo verdade — ou é apenas um cinismo repugnante — que da porta das nossas casas para fora absolutamente ninguém quer saber de nós? E do lado de dentro: que revoluções, insurreições, revoltas, golpes de Estado, armistícios se fazem à mesa da cozinha, entre torradas, geleia e nódoas de café?

‘Tens de ser novo, tens de ser forte’, dizia o velho fotógrafo, para aguentar a maré da cidade

Não sei onde terminam as cidades. Às vezes, o fim acontece no centro do vulcão, no lugar onde o bulício é mais intenso. As cidades parecem morrer a partir do centro e preservar a vida nas franjas, onde se sobrevive. As pessoas andam apressadas, as ambulâncias apitam, as máquinas trabalham, as motas zumbem, mas, debaixo delas, há ossos, terra, água. À semelhança do mar, a cidade oculta a morte. Fazem-se cada vez mais achados arqueológicos em Lisboa. Acontece quando se escava a terra para as fundações de novas unidades hoteleiras e parques de estacionamento. Mortos há milhares de anos, esqueletos de mãos dadas sobre o peito, pratinhos e tigelas, dentes desirmanados, brincos, fiapos de cabelo, esculturas cinéticas soterradas. Há vida que só a destruição revela. 

Mas, onde termina a cidade, para lá da morte que ela alberga, sobre a qual andamos, que somos nós? Não sei quanto tempo precisamos de caminhar até encontrar o lugar onde dizer: “Isto já não é Lisboa, é outro lugar que ainda não conhecemos”. Volto à morte debaixo dos nossos pés e ao nosso sapatear sobre ela. Instalamos a nossa dança em cima daqueles que vieram antes, dançamos como se não houvesse amanhã, tentamos manter a cabeça à tona da água. “Foram todos almoçar fora”, dizia sobre os seus amigos mortos o velho Frank, em 2005: “É assim, quando se chega a velho”.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #28 nov.2019 em outubro de 2019.