Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Atrás das paredes

Filho do branco em família de negros, Fidel era mais claro, mais esperto, mais burro, mais outro do que os outros

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

Anos depois, descobri que Fidel não sabia ler nem escrever. Era sua maior humilhação: tinha esquecido o que aprendera na escola, perdido no remoinho de esquemas e miséria que foi sua vida curta. Apareceu sem nome, desapareceu sem nome, chamava-se Fidel. Seria fácil contar a história assim, em três actos: descobrimento, morte, baptismo. É claro que se chamava Fidel por causa de Fidel Castro, era Angola durante a guerra civil. Mas começara antes como um gato resgatado, duas vezes baptizado. Não foi deixado à sua sorte e protegido por bons samaritanos. Meus pais o encontraram às costas da mãe moribunda, numa aldeia em chamas. Levaram-no para a casa dos meus avós, que lhe deram nome e guarida. Ali ficou como um filho entre os outros: onde comem três, comem quatro.

Filho do branco em família de negros, era mais claro, mais esperto, mais burro, mais outro do que todos os outros. E bode expiatório perfeito, gigolô, mágico, dançarino, sapo, gato borralheiro. Conheci-o mal me conheci e éramos parecidos, do mesmo amarelo anémico, razão de orgulho e dolo no nosso contacto com o mundo. Eu acabara de nascer, mas Fidel escolheu-me para sua irmã mal me viu. Achou-me sua cara, o bocado que lhe pertencia na família grande. Foi preciso morrer para eu entender que apenas éramos parecidos nessa mancha original e na cor das gengivas; que em todo o resto éramos estrangeiros, como Fidel sempre foi de todos a quem cabia amá-lo como se fosse um deles.

Sua mulher contou-me que tiveram uma filha. Não sei quem é o pai que a concebeu como não me lembro da última vez que o vi por mais que dê voltas à cabeça. Só duas imagens: os olhos muito abertos, numa fotografia em que sou ainda um bebé, ao colo de uma tia, a olhar-me fixamente. E sua voz, mãos, tronco nu sob blusão de cabedal, estarrecido de medo, à porta da minha casa, pedindo-me que o deixasse entrar porque o queriam matar. Não sei de onde fugira naquela tarde quente. Gritava como se perseguido por coiotes. Esmurrou a porta com força uma, duas, dez vezes. Estava aflito e parecia ter corrido quilómetros. 

Nuvem

Recordo ainda a voz de Fidel, rouca e monocórdica, atirada secamente, como estaladas na cara, e seu cheiro, fantasma que o seguia para o tornar indesejável. Usava só um blusão de cabedal em cima do tronco nu e sem pelos. O cheiro era como presença estranha, que tornava presente sua filiação incógnita a qualquer de nós na sala enquanto se via Fórmula 1. O perfume instalava-se como uma névoa. Éramos carne da mesma carne diante da televisão, depois da muamba, Fidel entre os irmãos, miúdos descalços, de pés sujos. Mas, ao mesmo tempo, era como se seu cheiro de homem antes do tempo ensombrasse as almas ainda incertas quanto ao futuro, mas já danadas, já apensas a uma nuvem que as acompanharia para sempre, toldando seu destino, sanidade e inteireza.

A primeira parte da história de Fidel por Djaimilia Pereira de Almeida

Vou hoje dentro desse cheiro nuvem carregada de chuva, sentada de novo aos pés da poltrona do meu avô. Fidel é quem fala mais alto, a voz mais curiosa, mais grave. Voo no seu cheiro a caminho do seu sangue, à procura da sua semente e do meu pecado, de novo na sala e lá fora Luanda cinza e lixo. Ainda cheira a feijão-manteiga em casa e a sabão azul e branco, as raparigas já areiam as panelas na cozinha, onde cheira a fuba de mandioca do grande saco de vinte quilos, veneno contra as baratas, leite em pó, tabaco no cinzeiro, copos sujos de uísque. Voo no cheiro de Fidel — e caio.

“Abre, Mico!”, gritou. “Abre por favor! Eles vêm atrás de mim para me matar, abre a porta por favor!” Chorava, gemia, tremia, do outro lado da porta, colando o olho ao orifício, como num exame ocular. Vejo-o a negro, grita com a cara colada à porta, treme, empurra a porta e ela range. Não sabia ler nem escrever. Está morto e enterrado numa vala comum. Mas levanto os olhos do ecrã, na noite pandémica de calor tórrido, e cheira a Fidel. Sinto-o atrás das paredes, fala-me do fundo do corredor, circunda-me, afoga-me, bate-me à porta.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.