Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Anos depois

Os novos tempos revelam as mãos como estranhas e revelam-nos estranhos uns aos outros

01maio2020 - 01h00 | Edição #33 mai.2020

Anos depois, o Fidel aparecia lá em casa e fui ganhando medo de lhe abrir a porta. Vinha esbaforido, parecia ter fugido à polícia, suado e sujo: “Sei que estás aí, abre, é o Fidel, não te faço mal”. Do lado de dentro, meu coração acelerava. Um dia, abri-lhe a porta, dei-lhe um pão com manteiga e fiquei a observá-lo enquanto o devorava, enojada com a forma como sujava os dedos. Dei-lhe duas bananas e uma moeda de cinquenta escudos. Ele deu-me um grande beijo melado de manteiga na bochecha. Disse-me que eu era mais bonita do que uma concha do fundo do mar. Tinha cabelo liso, em caracóis largos, pele da cor de um caramelo, unhas imundas e compridas. Quem nos visse juntos facilmente nos tomaria por irmãos, como fazia questão de dizer que éramos.

Foi deportado para Luanda, já eu era uma mulher. Não nos despedimos. Cumpriu pena na Jamba por homicídio. Morreu no dia em que o libertaram, atropelado por um camião. Tatuara minha cara nas costas, a partir de uma fotografia tipo passe que um dia lhe dei. No dia em que soubemos da sua morte, estive a pé toda a noite a pensar nessa tatuagem, atirada em uma vala comum, meu primeiro enterro.

Passei os últimos meses a pensar em mãos: nas minhas, nas das pessoas que amo, até nas de pessoas de que não gosto. Fui-me convencendo da existência de uma consciência das mãos, que nós desconhecemos, uma vida das mãos que nos couberam que nos diz muito pouco respeito: ninguém desenha as linhas da sua mão, nem a sua forma, nem a sua força. Relendo o que escrevi, vejo que falei de mãos sujas mas não disse nem uma palavra sobre lavá-las, muito menos lavá-las obsessivamente. As mãos resistem pouco a estes banhos: abrem-se gretas e cortes, ficam ásperas, sangram. As novas regras revelam-nas como estranhas e revelam-nos estranhos uns aos outros, com receio de nos tocarmos, de tocarmos onde não devemos, conhecendo-as como matéria tóxica — como veneno.

Fidel costumava aparecer sem ser aguardado, como um fantasma nas nossas vidas. Nunca nos perguntávamos onde passava a noite, onde comia, o que era dele. Ia e voltava, indesejado. Agora há pássaros de todas as formas à minha volta, mas não me consolam. Parecem não uma bênção, mas, vistos da janela, a tomada da Natureza: cantante, alegre, indiferente, implacável. Os pássaros continuam e descobrem novas rotas. Fundido o candeeiro da rua, vejo a noite no subúrbio pela primeira vez. O som é o do mar, que sobe a colina, tonitruante. Apagaram-se as buzinas dos navios e os street racers na via rápida: costumava pensá-los como deuses do asfalto enquanto dentro de casa nos acobardávamos.

O verbo mais bonito que ouvi nestas semanas foi usado pela poeta Stephanie Borges numa postagem de Instagram: “Tenho agradecido por tudo de bom que me aconteceu antes da quarentena e do luto. Estar com quem amo, de quem fica agora a saudade, ter me aventurado”. Parei neste verbo, que me comoveu e iluminou meu dia: “aventurado”. Como parecem agora insignificantes as vezes em que nos aventurámos. Que outra altura para a luz deste verbo. Podíamos ter ficado quietos e não ficámos; ter-nos deixado ficar; morrer de tristeza, pena, dúvida, culpa, medo. Quem é medroso sente agora a aflição do contágio do medo que habitualmente acarinha como uma medalhinha ao pescoço e pergunta: e se todos se tornarem parecidos comigo e tiverem medo da vida?

É aí que me vem de novo o medo de abrir a porta ao Fidel, de que fosse ele à porta. Que mal podia vir ao mundo, se fosse ele?, para além de vê-lo tomar banho e alimentar-se, estar aquecido por umas horas. Quem me dera baterem hoje à porta e ser essa doença de novo, sua cara feliz de nos ver, de saber que podia ficar para jantar, dormir numa cama lavada, mesmo que só uma noite. Ainda no outro dia tocaram à porta e pensei que fosse o Fidel, chegado do Além. Tremeram-me as mãos de medo. Era alguém muito baixo. Do orifício da porta, só distingui uma melena branca, despenteada: “Sou eu, menina, a pobrezinha, pode abrir, eu sei que a menina está aí”.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #33 mai.2020 em abril de 2020.