Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Torquatransa

‘Transa’ ao vivo lembra Torquato Neto e a importância das transas que mantêm aceso o desejo de futuro

24ago2023 - 09h39 | Edição #73

Quatro dias depois de assistir ao show apoteótico (no palco) e apocalíptico (na plateia enlameada) com que Caetano Veloso celebrou os cinquenta anos de Transa no Rio de Janeiro, parti para Teresina. Lá, o animadíssimo Salão do Livro do Piauí, em sua 21a edição, dedicou uma sessão a Torquato Neto, poeta-monumento da cidade, uma das poucas em que um nome da cultura marginal, filho da terra, batiza solenemente escola e teatro. Para me preparar, voltei a meu trabalho de organizador dos dois volumes de Torquatália que, publicados em 2004, reúnem parte expressiva do que escreveu o dissidente vocacional da Tropicália.

Quanto mais pensava em Torquato, mais pensava em Transa, o show. Quanto mais ouvia Transa, o disco, mais ouvia nele Torquato como o fantasma da máquina, ausência que era pura presença naquele 1971 em que o disco era gravado em Londres e no ano seguinte, quando Caetano volta do autoexílio. O 1972 em que a ditadura comemorou o “Sesquicentenário da Independência” e celebrou-se os cinquenta anos da Semana de 22. Ano em que Torquato decide botar o ponto final na vida mais curta e fulgurante da contracultura brasileira.

‘Transa’ evocava indiretamente as transas múltiplas de Torquato, que usa a expressão profusamente na ‘Geléia Geral’

Antes de especular sobre o que Torquato “diria”, convinha consultar o evangelho da piração que é “Geléia Geral”, coluna que ele manteve, como uma ilha de insanidade, na modorra imposta à imprensa censurada de então. Não tem erro: Transa não escapara às alucinadas escrituras. O colunista que cultivava a ligação no mundo como uma espécie de superpoder — “enquanto eu estiver atento, nada me acontecerá” — registrou em 15 de janeiro: na “noite anterior”, ao lado de “alguns bons amigos”, escutara o “disco novo” de Caetano.

Com as desculpas de uma memória “fraca e estragada”, lembrava vagamente a primeira canção: “You Don’t Know Me”. A ele impressionou o que dominava “todas as longas e belíssimas faixas”: a citação de “canções, compositores e momentos da música popular brasileira interessantes”. A Torquato, Caetano parecia didático ao samplear antes do sampler “trechos de ‘Maria Moita’ (Lyra e Vinicius), ‘Reza’ (Edu Lobo e Ruy Guerra), ‘Consolação’ (Baden Powell e Vinicius), etc, etc, etc”.

Verbo e substantivo, transar e transa dizem respeito aos encontros intensos e aos resultados desses encontros

“Triste Bahia”, escreve Torquato, “transada sobre Gregório de Matos, traz uma montagem fantástica de sambas de roda da Bahia, num painel cheio de cores, alusões, sujestas e paisagens que vai deixar muito nego encabulado e muito nego maluco quando sair na rua”. A ele impressiona a versão de “Mora na filosofia”, o samba de Monsueto (“bonita demais”), e “Nine Out Of Ten”, a que se refere como a “cantiga que fala em Portobello Road”. “Em todas as faixas do disco”, destaca, “o violão (e a guitarra, principalmente em Portobello Road), de Macal marca uma presença absolutamente clara nos ouvidos de quem tem e se liga em prestar atenção”.

[Macal, Jards Macalé, estava no estúdio londrino em 1971 e no palco carioca em 2023, assim como Tutty Moreno na bateria e Áureo de Souza na percussão. Moacyr Albuquerque, baixista, morreu em 2000; Gal Costa, participação vocal no original, se foi ano passado, no 9 de novembro que é dia de aniversário e morte de Torquato. Convidada, Angela Rorô, não pôde estar no Rio para refazer a gaita presente no disco.]

Susto ou surto tropicalista

Naquela altura Torquato já tinha rompido com o tropicalismo e com “os baianos”. Em 1969 partiu com Ana Maria Duarte, sua mulher, para Paris e Londres. É desta temporada que fica flagrante, tão cheio de ressonâncias, em que ele entra no penetrável Tropicália, incluído por Helio Oiticica na mitológica exposição da Whitechapel Gallery. Sobre sua cabeça, o dístico: “a pureza é um mito”.

Naquela altura, Torquato já tinha voltado ao Brasil e à Tristeresina, contaminando jovens poetas locais com sua energia transgressora. E ao falar de Transa parecia fazer uma revisão crítica do tropicalismo, como se o disco fosse uma síntese não declarada do movimento: a abertura ao pop, ao rock e ao reggae, as letras em inglês, o mergulho na MPB canônica, o samba urbano, o samba de roda, a bossa e o Recôncavo, a poesia setecentista e a poesia desbundada, a montagem como sintaxe.

Daqui vou uma vez mais a Caetano, à sua rememoração, nas páginas de Verdade tropical, do que lhe pareciam os pontos decisivos da personalidade de Torquato e de sua importância no susto ou surto tropicalista. Caetano escreve:

Torquato já tinha aderido ao ideário transformador: os Beatles, Roberto Carlos, o programa do Chacrinha, o contato direto com as formas cruas da expressão rural do Nordeste — tudo isso Torquato já tinha digerido e metabolizado com espontaneidade suficiente para deixar entrever sua apreensão da totalidade do corpo de ideias que defendíamos. (…) Ele superara as resistências iniciais por possuir uma inteligência desimpedida. A partir de então, sua concordância com o projeto passou a ser orgânica, e se algo podia parecer preocupante era justamente sua tendência a aferrar-se aos novos princípios como dogmas e a desprezar antigos modelos com demasiada ferocidade. (…) Torquato mostrava-se pronto para se tornar um arauto algo intransigente.

Três ideias aí são essenciais para definir Torquato. A “inteligência desimpedida”, que aponta para a abertura ao novo; a “ferocidade”, que inquietava Caetano mas é sinal inequívoco de convicção; e, finalmente, a disposição de enunciar os princípios estéticos, a função, não sem ironia, de “arauto” — ainda que, para o gosto de Caetano, um arauto “algo intransigente”. Desenha-se assim a inteligência aguda e indócil de Torquato, em trânsito frenético entre música, cinema, poesia e jornalismo. Em trânsito frenético no trânsito frenético das coisas. 

Transa evocava indiretamente as transas múltiplas de Torquato, que usa a expressão profusamente na “Geléia Geral” — e não apenas porque é uma gíria da moda. Verbo e substantivo, transar e transa dizem respeito aos encontros intensos e aos resultados desses encontros. Transa e transar, ser transeiro, é inseparável da conotação sexual pois funda-se no desejo. E todo desejo é futuro, é o movimento necessário para um futuro possível, de concretização do que existe ainda como vontade. De casamento a uma publicação, o que se diz “não ter futuro” é o que não envolve mais ou nunca envolveu desejo.

Transa e transar, ser transeiro, é inseparável da conotação sexual pois funda-se no desejo. E todo desejo é futuro

“Projeto”, termo corrente e um tanto asséptico, também é uma proposição lançada para o futuro, mas “transa” é a energia vital dessa projeção. Foram as transas que arremeteram Transa, o disco, de 1972 para 2023 — quando Transa, o disco e o show, também atualizam o desejo num futuro imediato, em tudo aquilo que hoje nos move. Tudo o que Torquato transou atualizou o desejo, produziu futuro — até que ele deixou de querer e, com coerência devastadora, deixou na folha de um caderno: “De modo q Fico”.

Torquato foi o transeiro por definição, realizou uma ideia de intelectual dissonante, artista que é crítico, crítico criador que não discerne prática de reflexão e produz sem freios ou limites. Torquatália, nome sempre provisório desta obra ainda em movimento, é uma máquina de futuro nos dois sentidos, no futuro extenso, que em 2023 nos leva a falar dele, e no contágio de gente de toda idade e em toda parte, nos transeiros de uma Teresina nada triste: George, Viriato, Isis, Salgado, Thiago e tantas outras e outros.

Já dizia ele:

Escrever não vale quase nada para as transas difíceis desse tempo, amizade. Palavras são poliedros de faces infinitas e a coisa é transparente — a luz de cada face distorce a transa original, dá todos os sentidos de uma vez, não é suficientemente clara, nunca. (…) Cumpra essa de escrever somente o que não pode ser de outra maneira e não tem mais outro jeito — como sempre — e aproveite pra curtir a transa do nosso tempo e da nossa precisão: vá inventando, vamos todos inventar como no jardim da infância, descobrindo, descobrindo, revelando, deixando pronto, guardado.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.