Crítica Cultural,
De Oswald a Torquato
Cinquenta anos depois da Semana de 22, a morte do poeta da Geleia Geral marcou o esgotamento do tropicalismo e denunciou a "massa falida fingindo ser biscoito fino"21dez2021 | Edição #53“Questão de método: em 72 vejo prevejo veremos a restauração do pior espírito Semana de Arte Moderna 22 comemorado em retrospectiva”, escrevia Torquato Neto há exatos cinquenta anos, em janeiro de 1972. A efeméride do modernismo não passaria incólume pela Geleia Geral, coluna da Última Hora que o poeta mantinha como dissidente vocacional — tropicalista autoexilado da Tropicália, superoitista em guerrilha contra o Cinema Novo, vanguardista radicalizado contra a vanguarda. Aquele ano, em que a ditadura sanguinária importou com fanfarra os restos mortais de d. Pedro 1º para celebrar um século e meio da Independência, legaria a 2022 outra data redonda, esta sombria: em novembro, horas após celebrar o aniversário com amigos, o poeta abriu o gás. Aos 28 anos, deixou um bilhete: “Pra mim chega”.
Comemorar o centenário da interminável Semana é também lembrar que, há cinquenta anos, um dos principais artífices do tropicalismo botou um ponto-final em sua história. A perspectiva do tempo reforça a coerência de um de seus versos mais repetidos, e Torquato segue cumprindo a sina anunciada pelo tal “anjo doido, com asas de avião”: “Vai bicho, desafinar o coro dos contentes”.
Síntese implacável
“Vejo cada dia mais Oswald de Andrade tornado patrimônio da civilização brasileira”, observa Torquato, obsessivamente alerta à institucionalização que ronda toda ruptura. “Vejo os artistas cultuarem Oswald de Andrade e produzirem enxurradas de versalhadas — saladas na mesa farta de figurações melosas”, prossegue, destacando como exceção o estreante Chacal, que então lançava seu primeiro livro, Muito prazer, Ricardo. Na síntese implacável da Geleia Geral, a energia crítica oswaldiana, que percorreu grandes momentos do tropicalismo, estaria se desvitalizando como farsa: “A massa falida fingindo ser biscoito fino”.
Não é difícil entender por que Oswald, o mais radical dos modernistas históricos, até hoje resistente ao afã hagiográfico de seus cultores, falava especialmente a um poeta que não se conformou à poesia por constatar que a poesia não se conformava mais à poesia, ao compositor que mirou em Vinicius de Moraes mas não se acomodou à canção, ao cinéfilo que se fez cineasta por não ter mais paciência para assistir a filmes. Na primeira edição da Geleia Geral, Torquato registrava algo que “leu no Pasquim” e que considero uma chave possível para sua inquietação intelectual: “Estar bem vivo no meio das coisas é passar por elas e, de preferência, continuar passando”.
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O diálogo com Oswald é explícito em “Geleia geral”, a canção gravada no disco-manifesto Panis et circencis, de 1968, e que três anos mais tarde Torquato escolheria para batizar seu jornalismo de invenção. Do “Manifesto antropófago”, Torquato cita literalmente o princípio “a alegria é a prova dos nove” e a referência a Pindorama — o “matriarcado” que, na canção, designa o “país do futuro”. Nas Memórias sentimentais de João Miramar, vai buscar a dupla de substantivos “brutalidade jardim”.
Mais interessante, acho, é pensar nas repercussões menos diretas de Oswald em Torquato e no tropicalismo a partir do “Manifesto da poesia pau-brasil”, lançado em 1924, quatro anos antes do “Antropófago”. “A poesia pau-brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal”, propõe o poeta modernista, antes de declarar, com a convicção própria das declarações de princípios: “no jornal anda todo o presente”. Mais adiante, na enumeração final, que projeta os idealizados “brasileiros de nossa época”, afirma: “Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais”.
Torquato fez do jornalismo campo de experimentação, misturando concretismo e modernismo
O fascínio pelo mundo coalhado de informações ecoaria de diversas formas em Torquato e no tropicalismo. A começar pela própria letra da canção-manifesto: “na geleia geral brasileira/ que o Jornal do Brasil anuncia”. Em “Domingou”, outra parceria com Gil, a perspectiva do dia passeando num Rio de Janeiro idílico não prescinde da referência ao noticiário:
O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que eu quero saber
As notícias que leio conheço
Já sabia antes mesmo de ler ê ê
Em “A coisa mais linda que existe”, a enumeração tão comum nas canções de Torquato com Gil incorpora o jornal ao encontro amoroso:
O apartamento, o jornal
O pensamento, a navalha
A sorte que o vento espalha
Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim
Em “Alegria, alegria”, Caetano Veloso homenageia o jornal O Sol, que contempla “nas bancas de revista”, e se pergunta: “Quem lê tanta notícia?”. “Lunik 9”, de Gil, também parte do alerta: “Nos jornais, manchetes, sensação/ Reportagens, fotos, conclusão”. Parque industrial, que Tom Zé gravou em Panis et circencis, repete o título do único romance de Pagu e incorpora o sensacionalismo:
A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar
É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado
É somente folhear (e usar)
Assim como inspirou o futurismo italiano e o modernismo brasileiro, o mundo impresso no jornal teria papel importante no tropicalismo e, de muitas formas, na trajetória de Torquato. Em 1966, chegou a ser titular, no Jornal dos Sports, da coluna Música Brasileira. E foi uma redação que o acolheu quando, depois de romper com tudo e todos, voltou de uma temporada crucial entre Paris e Londres. Era 1970 e a ditadura entrava num dos períodos mais violentos quando conseguiu uma vaga de copidesque no Correio da Manhã, o mesmo jornal que na década de 20 publicara o “Manifesto da poesia pau-brasil”. O anonimato e a burocracia da função não condiziam bem com sua inquietação e importância, mas garantiram o ganha-pão num momento de escassas definições. A partir de agosto de 1971 — e até março do ano seguinte — faria do jornalismo um campo de experimentação, misturando em sua Geleia Geral Ezra Pound e Ivan Cardoso, Luiz Melodia e Antonin Artaud, concretismo e modernismo.
Experimento radical
“Apostando em Oswald de Andrade quando disse ‘no jornal anda o presente’”, escreveria Heloisa Buarque de Holanda, “Torquato descobre esse presente maior do que o fato e trabalha na composição de um mural em mosaico, quebrado, fragmentado, insuspeito”. Para ela, a Geleia é “um superlonga-metragem da época”, um experimento radical levado a cabo no coração do jornalismo empresarial, então submetido à censura e desde sempre às determinações do senso comum. Torquato, porém, não fazia distinção entre as formas de se expressar.
Em setembro de 1971, usando a coluna como se fosse um bloco de anotação público, escrevia: “Imprensa é a última moda. Quem não pode mais fazer filmes e quem perdeu o interesse por teatro, quem se liga demais no movimento pop internacional e quem já se cansou de todos os jornais que existem, quem acha que deve fazer alguma coisa e quem está louco pra pular do lado de fora — enfim, quem quer e pode está transando jornais e revistas para curtição geral”.
Não raramente o colunista dirigia-se aos leitores com um “alô idiotas”, e mais de uma vez repetiu a parábola que fala tão de perto ao Brasil de 2022: “Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi”. Em outra ocasião: “Leve um boi e um homem ao tal matadouro. O que berrar menos merece morrer. É o boi”.
Por ignorância ou negligência, a Censura passava batido pela coluna. Torquato não seria poupado, no entanto, pelo espírito simplório do jornalismo. Em 12 de novembro de 1972, o jornal O Globo estampou num título: “Torquato Neto parecia feliz, mas se matou de madrugada”.
Matéria publicada na edição impressa #53 em janeiro de 2022.
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