Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Os que se deixam levar

Ao refletir sobre a omissão individual como cúmplice do nazismo, ‘Os amnésicos’ faz pensar nas tarefas para um Brasil livre da extrema direita

09mar2022 - 17h18 | Edição #56

Quem é você no Bozistão? Um “grande criminoso”, executor da delinquência de Estado? Apenas “criminoso”, que mete o loko amparado pela leniência institucional? Ou seria mais exato definir-se como “pequeno criminoso”, que se beneficia de expedientes mais leves? Estaria entre os que “se deixaram levar pela corrente”, deu uma fraquejada na “escolha difícil” ou nem imaginou, veja só, que um cultor da tortura se comportaria assim?

Na Alemanha de 1945, essas categorias organizavam as respostas a um questionário distribuído entre cidadãos comuns para aferir responsabilidades individuais por crimes de Estado. Já nos primeiros passos, o longo e tortuoso processo de desnazificação demonstraria que a normalização da barbárie teve como sólido pilar a vasta e silenciosa multidão dos Mitläufer — termo alemão para definir aqueles que, em uma combinação de “pequenas cegueiras e pequenas covardias”, se refugiaram na omissão.

Trata-se de gente simpática e a princípio pacífica como Karl e Lydia, avós paternos de Géraldine Schwarz, jornalista franco-alemã que remexe o baú para dar concretude perturbadora a um dos traumas definidores do século 20. Os amnésicos: história de uma família europeia (Âyiné) mistura memorialismo, ensaio e reportagem para reconstituir os caminhos nem sempre óbvios do apoio ao nazismo e projetar suas sombras sobre o presente. “A história não se repete”, escreve ela, “mas os mecanismos sociopsicológicos permanecem os mesmos que, em um contexto de crise, nos levam a nos tornarmos cúmplices irracionais de doutrinas criminosas.”

Karl estava entre os 8 milhões de membros do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Não foi notadamente atuante ou entusiasta, mas a prova de “arianismo”, exigida na filiação, garantia tranquilidade para tocar sua pequena empresa de derivados de petróleo em tempos turbulentos. Lydia passou ao largo da militância, mas, como a maioria de seus compatriotas, era fascinada pelo Führer, tido como salvador da pátria depois da Primeira Guerra. Achava possível que alguém o adorasse “sem se considerar um nazista”. Em Mannheim, onde sempre viveram, testemunharam, entre o indiferente e o impassível, as “procissões de centenas de judeus” deportados para os campos.


Os amnésicos: história de uma família europeia (Âyiné), de Géraldine Schwarz

Em 1948, quando o casal julgava bem encaminhada a reconstrução da vida numa cidade que também se reerguia das ruínas de bombardeios, uma carta provocaria a reviravolta digna de ficção. Na correspondência, advogados de Julius Löbmann, que escapara do extermínio e se estabelecera em Chicago, reivindicavam uma substancial indenização com base em uma lei de reparação para cidadãos judeus espoliados: dez anos antes, em 1938, Karl Schwarz comprara a empresa dos Löbmann por valor bem abaixo do de mercado, como era comum no contexto da perseguição.

Os cinco anos de correspondência entre Karl, Julius e os advogados encarnam as dificuldades e sutilezas na articulação de memória histórica, consciência individual e responsabilização. Karl parecia sinceramente convicto de que não havia conexão entre a transação comercial e o regime criminoso que a proporcionou. Chega a argumentar que o sofrimento terrível do nazismo tinha se estendido às duas famílias, mesmo sabendo que parte dos Löbmann morrera em Auschwitz. Até ser fulminado por um infarto, em 1970, acreditava que o pagamento da indenização tinha feito dele vítima de uma terrível injustiça.

Memória coletiva

Volker e sua irmã — ele, pai de Géraldine, ela, a tia que se oculta num pseudônimo — cresceram no pós- -guerra como típicos descendentes dos Mitläufer. Na casa dos Schwarz a guerra era pouco evocada além do drama da reparação comercial. A palavra “holocausto” jamais fez parte do léxico familiar. Se, pelo menos até Os amnésicos, a “tia Ingrid” manteve cautelosa distância dos detalhes, Volker amadureceu e formou-se intelectualmente escrutinando os entrelaçamentos da vida deles com a história. “Esse mobiliário, em particular o da sala de jantar, que exalava a grande burguesia”, diz Volker a Géraldine, “não correspondia à classe social dos meus pais.” Os móveis suntuosos, concluiria sem dificuldade, foram arrematados, a preço baixo, no comércio de bens expropriados dos judeus.

A normalização da barbárie teve como sólido pilar a vasta e silenciosa multidão que se refugiou na omissão

A família que nasceria do casamento de Volker com Josiane, francesa e futura mãe da autora, traria complexidade ainda maior ao acerto de contas com a história. Não menos intricada é a França de Vichy, autoridade colaboracionista que patrocinou deportações para campos nazistas. Também no enfrentamento à ocupação, a célebre re- sistência é um composto de atos de genuíno heroísmo e mitologias duradouras. No trânsito entre os dois países, seus passados e seus presentes, Os amnésicos se assemelha a uma versão de câmara de A tristeza e a piedade e A memória da justiça, documentários em que Marcel Ophuls trata da culpa e da responsabilidade na França e na Alemanha, respectivamente.

É impossível atravessar o livro sem pensar no Brasil de 2022. Mais especificamente, nas imensas tarefas para o Brasil pós-22 caso derrotemos nas urnas a extrema direita que corrói a democracia. Foi por meio da contínua manipulação da memória coletiva que se avançou perigosamente na normalização do culto à ditadura e ao poder militar, nos elogios à tortura como autodefesa e no extermínio desabrido de populações vulneráveis.

As fake news não falseiam apenas o presente, mas o passado imediato. E tão grave quanto a rasura do que nos é próximo — e infinitamente mais discreta e insidiosa — é a malversação das instituições de preservação da memória, em que o impulso de reescrever o passado pode envolver bloqueios à informação e destruição de documentos.

Criação coletiva, o estelionato da história depende tanto do que se faz quanto do que se omite, do que se diz e do que se cala. A história de Karl e Lygia é real demais para ser uma fábula, mas soa como advertência inequívoca: você até pode se deixar levar, mas a história cobrará sua conta. Em geral, com juros insuportáveis.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.