Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Jornalistas no espelho

Jill Abramson mostra como as empresas jornalísticas ainda não conseguiram resolver os problemas causados pela ‘disrupção digital’

25abr2019 - 12h32 | Edição #22 mai.2019

Quem é chegado a estatística poderia apurar as ocorrências da palavra “autocrítica” na imprensa brasileira de 2016 para cá. Seria útil um Datasemancol que mensurasse quantas vezes o autoexame crítico de procedimentos e juízos foi cobrado de outros e quantas da própria corporação. Não é preciso ser especialista para arriscar que a primeira cifra superaria quatro dígitos. A segunda, cabe em duas mãos. 

Hoje sob cerrado ataque de autoridades federais, estaduais e municipais, parte importante da imprensa insiste em fazer a egípcia e raramente admite o quanto colaborou, com atitudes e omissões, para a ascensão da extrema direita que tenta trucidá-la. Em abril, a tentativa de censura pelo Supremo Tribunal Federal, por exemplo, deu palanque a estridentes paladinos da liberdade que há não muito tempo nada disseram quando se impediu que um ex-presidente preso concedesse entrevistas. 

Sob esse aspecto, o que falta no Brasil de Bolsonaro abunda na América de Trump. Em menos de um ano, duas estrelas publicaram livros bem diferentes entre si indicando que não, as instituições jornalísticas não estão funcionando normalmente. Seymour M. Hersh é do tempo em que fatos valiam mais do que comentários. O “eu acho”, diz ele na autobiografia Repórter (Todavia), é o epitáfio da profissão. Jill Abramson, primeira mulher a comandar o New York Times, construiu sua carreira numa época em que interesses comerciais não se sobrepunham aos editoriais. Em Merchants of Truth (Simon & Schuster), faz a crônica sombria de um mundo em que arestas éticas foram arredondadas para que corporações sobrevivessem no mundo digital.

Inspirado no clássico The Powers that Be (1979), em que David Halberstam narrava as trajetórias do Washington Post, do Los Angeles Times, da CBS e da Time, Mercadores da verdade – O negócio das notícias e a luta pelos fatos conta as histórias do New York Times e do Post em paralelo com a ascensão do BuzzFeed, da Vice e, com menos destaque, do Facebook. O livro que a inspirou, observa Abramson, mostra como o jornalismo ajudou os EUA a atravessar sérias crises morais (o macartismo, o Vietnã, Watergate); o que escreveu associa a desorientação de empresas tradicionais e a heterodoxia das chamadas “inovadoras” às problemáticas coberturas da guerra do Iraque, dos abusos da nsa e da campanha que levou à vitória de Trump. Não é por acaso, sublinha, que o atual presidente seja ele mesmo um produto de malversação de princípios da imprensa que ataca. 

O pecado original do jornalismo americano — e de outras latitudes — estaria para Abramson nas investidas contra a separação de Igreja e Estado, jargão usado para estabelecer as fronteiras entre editorial e comercial. O ano de 2007, quando foi lançado o primeiro iPhone, seria o marco para o fim desse pensamento “secular” e fiador de independência. A derrocada de princípios é parte da “disrupção digital”, que ao tornar a notícia onipresente terminou por deslegitimar quem a produzia. Para que pagar por jornal ou revista se tudo termina fatalmente linkado e compartilhado? Como continuar a produzir informação sem ser pago por isso?

O BuzzFeed e a Vice estão entre os que melhor resolveram essa equação pelo lado financeiro, mas não pelo editorial — apesar de terem investido pesado em jornalismo sério, sempre pairou sobre ambos o uso e abuso da chamada “publicidade nativa”, ou seja, a difusão de material publicitário com aparência de editorial. O Post e o Times, por sua vez, ainda penam para equilibrar contas e não saíram incólumes da refrega, tendo chamuscado sua credibilidade com o “infomercial” e, o que é pior, assimilado princípios de viralização do chamado “conteúdo”, também conhecido como notícia. 

Acenos facilitadores

A receita do que é compartilhável obedece sempre ao apelo emocional ou extraordinário do que se posta, ou seja, tem pelo menos um pezinho na pieguice ou no sensacionalismo. Num caso e no outro, aposta-se em algum aceno facilitador ao público, que pode e deve ser provocado, mas jamais desafiado ou incomodado. Tanto faz se o BuzzFeed aposta em basset hounds e listas de links embolados com notícias ou se a Vice supostamente ofende os bons modos com a visceralidade cosmética que fez sua fama: ambos contemplam, sempre, o impulso compartilhador de leitores.  

É óbvio que o Times e o Post não embarcaram com tudo nessa estratégia. Mas o que se depreende do detalhado relato de Abramson — e também de comentários de Hersh — são os efeitos colaterais que advém dessa lógica. Em entrevista recente à Folha de S.Paulo, ele disse que seu trabalho sempre foi oferecer ao editor “histórias que tinham o mesmo apelo de um rato morto infestado por piolhos”, fossem elas a denúncia do massacre de My Lai na guerra do Vietnã ou, na invasão do Iraque, a revelação das torturas de Abu Graib. 

Jill Abramson, por sua vez, dedicou-se ao jornalismo investigativo e, também, à complexa arte de dirigir redações antes de assumir a coluna no Guardian que assina desde 2016. Sua passagem pelo comando do New York Times, pouco menos de três anos entre 2011 e 2014, foi em suas palavras uma “derrota épica”, combinação de sua resistência a determinados passos no mundo digital com indícios fortes, bem fortes, do machismo estrutural da empresa. 

Ambos apontam um único antídoto possível para a cretinização do jornalismo: a reportagem. “Sou partidário das hard news. Escrever notícia mesmo é muito mais complicado”, disse Hersh na mesma entrevista. As hard news, lembra Abramson, “são assim chamadas porque desafiam leitores, aumentam seu conhecimento, ampliam sua perspectiva, apresentam a eles informação baseada não em suas vontades, mas no que acontece no mundo”. 

Antes mesmo de ser publicado, Mercadores da verdade foi criticado — com base em provas não corrigidas — por imprecisões, atribuição equivocada de informação e até plágio. Abramson admitiu os erros e corrigiu-os. Um embaraço, sem dúvida, mas que só acontece com quem não se contenta com o “eu acho”. E nos oferece mais do que listas sobre o mundo que desmorona lá fora, na tal realidade.   

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #22 mai.2019 em abril de 2019.