Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Intelectual Sem Posição: veredas

Você nunca receberá dele um zap com memes agressivos e muito menos as imundas fake news

14mar2019 - 15h14

Como eu ia dizendo antes de ser rudemente interrompido — que época para se viver! —, o anti-intelectualismo tem tantos nomes quanto o diabo no meio do redemunho. No Brasil de hoje há quem os decline de caso pensado — a torcida Ferrabrás não para de crescer. Outros, no entanto, julgam abjurá-los enquanto se aninham nos braços do Capiroto. Se os adoradores do Rasga-Embaixo dispensam consideração porque estridentes, os outros, discretos, estão promovendo uma lenta corrosão do que restou de vida inteligente entre nós.

Não, eles não são terraplanistas, não desqualificam a luta por direitos civis nem se opõem à descriminalização do aborto. Muito pelo contrário. Obedecendo uma lógica semelhante à da “escola sem partido”, afirmam-se como “intelectuais sem posição”. É aí que o Tisnado torce o rabo.

O Intelectual Sem Posição, de agora em diante ISP, é sutilmente anti-intelectual porque pode ser bem-informado, muitas vezes é bem formado, mas abre mão voluntariamente de características que fundam o intelectual público: a defesa mandatória de um ponto de vista claro, às vezes de uma causa e, sempre, de um conjunto de valores. Para os ISP a vida é, como dizia Nelson Rodrigues, a busca desesperada de um ouvinte.  Ainda mais se esse ouvinte clica, compartilha e, com sorte, viraliza — é nas veredas virtuais que o Danado faz a festa.

Para evitar tomadas de posição inequívocas, os ISP usam a média e o senso comum como régua e compasso para o que escrevem. Assim como a “escola sem partido” quer fazer passar por “neutralidade” sua ideologia conservadora, no dicionário dos ISP “independência” é sinônimo de ataques sutis e localizados, porém ostensivos, aos valores e às práticas da esquerda. Essa prodigiosa liga de posicionamentos escamoteados permite condenar a direita pelo que ela tem de indefensável, desde que não se esqueça de magnificar qualquer erro do outro lado — em suas encarnações mais vulgares, os ISP defendem inclusive direita e esquerda como um dualismo anacrônico.

O Facho-Bode aplaude, incógnito, numa plateia que, pouco disposta à trabalhosa mensagem da democracia, decidiu assassinar o mensageiro. 

Você nunca receberá de um ISP um zap com memes agressivos e muito menos as imundas fake news. Na imprensa ou na rede, o ISP oferece, ao contrário, minutos de autoproclamada sensatez e análises de salão devidamente desidratados de energia contestatória ou fagulhas de controvérsia. Fascinado por sua própria razoabilidade, o ISP não dispensa um perfume de teoria política — está na moda o Hannah nº5, assim batizado em homenagem àquela que, num tribunal de Israel, percebeu as astúcias do Azarape. Fino, elegante e sincero, o ISP que se preza salpica pelo menos uma gota por comentário.

Veementes do óbvio, enojam-se com a perspectiva de seus filhos voltarem a cantar o Hino Nacional, formados em pelotão na escola. Devidamente protegidos por óculos escuros, repudiam a família tuiteira como se nada tivessem com os corvos que ajudaram a criar. Não hesitam, no entanto, em apoiar um golpe de Estado na vizinhança porque, ora, ora, já chega dessa gente. Para eles, minions e militantes nasceram na mesma chocadeira. É aí que o Severo-Mor quer gargalhar, mas se contenta com um sorrisinho — pois é profissional e não está aí para chamar atenção.

Pendurados onde podem e sempre espreitando um galho mais alto, os ISP são desassombrados alpinistas. Quando reforçam o orçamento em palestras para cidadãos indignados, atacam o que a turba quer ver atacado. Quando decidem nos explicar o mundo, exibem seu equilíbrio de anedota, botando os pingos nos is e advertindo, sérios, que está na hora de o governo governar — “e não continuar como a esquerda, bla bla bla”. Afinal, o funcionário da platitude precisa manter-se longe dos riscos implicados no “drama da opinião”. E o lugar mais seguro é sempre aquele perto do poder. De algum poder. De qualquer poder. O Que Azeda se lambuza.

Em O anti-intelectualismo nos Estados Unidos, Richard Hofstader mostrava como esse fenômeno varria seu país de tempos em tempos — Pulitzer de 1964, publicado por aqui três anos depois, o calhamaço trazia memória viva do macarthismo. A perspectiva do tempo, que felizmente datou o livro, só dá uma certeza: a de que a conta da negligência virá, mais cedo ou mais tarde. Aliás, já está vindo: a cada texto anódino do intelectual sem posição, Olavo de Carvalho ganha ares de Jean-Paul Sartre.

O Manfarro se esbalda. Travessia.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).