Crítica Cultural,
Brasil, capital Buenos Aires
Os desmilitantes brasileiros alucinam a geografia política da região ao ver a vitória de Milei como derrota da ‘esquerda’30nov2023 | Edição #77Com a eleição de Javier Milei, o mais novo desclassificado à frente de um projeto fascista na América do Sul, a desmilitância brasileira redefiniu a geografia política da região. A julgar pelo que se tem lido, visto e ouvido desde 19 de novembro, o que aconteceu nas urnas argentinas foi uma derrota dazesquerda e do presidente do Brasil — que, até se prove o contrário, não estaria concorrendo à sucessão de Alberto Fernández.
Cada vez mais à vontade, os desmilitantes não têm pejo de levar à arena pública o que externam na privada. Dão o benefício da dúvida ou são abertamente entusiastas de qualquer curupira que se apresente como opositor, em algum nível, de qualquer esquerda. Vale tudo: juízes parciais, gângsteres disfarçados de líderes religiosos, filósofos escatológicos, fascistas assumidos ou enrustidos — e até economistas que se aconselham com cachorros mortos.
Nunca é demais lembrar que transigir com a intransigência não é virtude democrática, mas tibieza moral
Seria o caso de cogitar aqui uma dissonância cognitiva, um distúrbio como o do homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Mas nestas latitudes Oliver Sacks não teria assunto: o que parece desvario é procedimento. A partir de uma lógica elementar: a cada reação crítica à ascensão de um direitista, venha ela de tuiteiro ou de uma autoridade, deve corresponder uma reprimenda judiciosa à esquerda como um todo.
Contorcionismo retórico
Os austeros desmilitantes condenaram o presidente do Brasil por não ter citado nominalmente o General Ancap ao reconhecer em nota oficial, como é de protocolo, sua vitória nas urnas. Foram menos peremptórios quando Milei convidou apenas o Inelegível à sua posse. E se calaram quando a futura chanceler argentina veio a Brasília, num domingo, convidar Lula para a cerimônia.
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É surpreendente, mas não espantoso. Basta verificar a ocorrência dos adjetivos “excêntrico” e “radical” para descrever alguém que tem como plataforma a extinção do Banco Central e a dolarização da economia. Isso para não falar do uso irrefletido, sem adversativas, de expressões como “ultraliberal” ou “anarcocapitalista”. Não deixa de ser admirável o contorcionismo retórico para evitar o que não se quer nomear.
Nunca é demais lembrar que transigir com a intransigência não é virtude democrática, mas tibieza moral. Ao normalizar Milei como excentricidade e usá-lo como escada para atacar o governo imperfeitamente democrático do Brasil, cheio de problemas bem concretos e complexos, o desmilitante ajuda a criar condições favoráveis para cevar aberrações semelhantes para o pleito de 2026.
O minion da esquina agradece.
Matéria publicada na edição impressa #77 em janeiro de 2024.
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