Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

A anticultura bolsonarista

Racismo, anticomunismo e anti-intelectualismo marcam a política cultural bolsonarista, oximoro que traduz o governo a que serve

16jul2021 - 13h51 | Edição #47

Estava Mario Frias concentrado, já tinha chegado à metade da página da Wikipédia dedicada a Lina Bo Bardi, quando resolveu ir ao tuíter praticar um pouquinho de racismo recreativo. A rede social, que costuma passar pano na família numerada, foi implacável, como o é com todo mundo que não a interessa: apagou o post. Que maçada.

Lamento sinceramente o transtorno. Frias terá que começar tudo de novo. Na última vez que tentou se informar sobre quem foi a Bo Bardi e o que ela fez, o secretário especial precisou de dois assessores e gastou R$ 112 mil dos cofres públicos — custo da viagem educativa do trio à Bienal de Arquitetura de Veneza, que a homenageava.

A vida da secretaria de Cultura não é fácil. Afinal, há que se ter atenção máxima para qualquer avanço da Ruanê, a maquiavélica lei que Fernando Collor de Melo, esse Lênin, inventou para dar vida boa a esquerdopatas. A conspiração internacional comunista é tão ativa que a Secretaria teve que botar Bach e Deus na causa para tentar impedir a realização do Festival de Jazz do Capão, na Bahia.

Ao declarar o festival “antifascista”, os organizadores acionaram inadvertidamente o departamento de recibos da secretaria de Cultura. Trata-se de uma operosa repartição, que trabalha dia e noite, sobretudo num momento de glória da “política cultural bolsonarista”, aberração que eu já ia tratar como um oximoro mas desisti em respeito a seus formuladores, gente que mal sabe comer com talher e, como dizia Millôr Fernandes, ainda pode se machucar na corrida ao dicionário.

Série ruim

O ínclito (dá para ver no google, é menos arriscado) Frias é o quinto e mais longevo ocupante titular da Cultura, rebaixada de ministério a secretaria em total consonância com a cabeça de quem toma por intelectual um vidente de mafuá. Dos dois primeiros, ninguém lembra, sendo suficiente sublinhar aqui terem sido indicados pessoalmente por Osmar Terra. 

Já os dois antecessores do egrégio ocupante do cargo são inesquecíveis por nos proporcionarem o grotesco, alívio cômico necessário à tragédia de mediocridade em que soçobramos. Assim como este, aqueles tinham origem nas chamadas artes cênicas, ainda que não exatamente em seus mais altos momentos.

O primeiro começou na vanguarda até se descobrir à vontade na retaguarda da alma. Sentia um barato estranho quando ouvia Wagner e, na impossibilidade de invadir a Polônia, decidiu que salvaria nossa arte degenerada. Passou do ponto. E, qual um Goebbels de papel machê e brilhantina, derreteu em cena, diante do público.

Da segunda ocupante do cargo ninguém pode dizer que não entendia a alma do brasileiro. Cafona, reacionária e piegas, a Noivinha do Brasil Fascista fez de sua passagem pela pasta uma telenovela medíocre, gênero que estrelou por décadas. Chegou à pasta em meio a uma pantomima de festa junina, com a direito a metáforas indigentes com namoro e casamento. Desgraçadamente, a encenação foi interrompida antes do fim. Ficou faltando o delegado e a cadeia, um e outra metafóricos, é claro.

A política cultural bolsonarista, como eu dizia, é mesmo um oximoro – espero que já tenha dado tempo de visitar o Pai dos Burros. E também que, na corrida, ninguém tenha se ferido.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.