Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Os muitos sentidos do espaço

Loïc Wacquant diz que há uma teoria urbana perdida nos escritos de juventude de Pierre Bourdieu, que articula as dimensões simbólica, social e física

01set2023 - 00h00 | Edição #73

Olhar cidades do alto costuma nos causar fascinação. A mudança de escala permite uma perspectiva de sobrevoo impossível do ponto de vista de quem caminha. Estar mais perto do céu transforma casas e pontes em miniaturas, criando uma relação com a cidade que se aproxima das brincadeiras da infância. Mas o olhar do alto também é fascinante porque nos permite enxergar padrões territoriais.

Agrupamentos no espaço dão concretude impressionante a desigualdades sociais, como se fosse possível não só vê-las com muita clareza, mas quase tocá-las. Se os conjuntos de casas pobres estão longe daqueles onde moram os ricos, se eles estão justapostos ou ainda se ocupam enclaves de precariedade em meio à riqueza — cada uma dessas configurações evidencia como distribuímos desigualmente renda e oportunidades de acesso, escancarando clivagens de classe.

O espaço simbólico apresenta uma topografia de categorias cognitivas por meio das quais recortamos a diversidade empírica do mundo, classificando pessoas, lugares e objetos

A proximidade do céu também pode nos dar uma sensação de controle, do poder de quem consegue ver de cima. E, dessa perspectiva, podemos nos apressar e achar que entendemos tudo, ou pelo menos a lógica desse mapa, para concluir que o espaço urbano nada mais é do que um rebatimento, ponto a ponto, das desigualdades sociais mais ou menos visíveis a partir de outros anteparos que não o território. Em Bourdieu in the City, infelizmente ainda sem tradução para o português, o sociólogo Loïc Wacquant parte justamente dessa cisão. A estrutura do espaço social se manifesta em oposições espaciais; não há espaço, em uma sociedade hierarquizada, que não seja também hierarquizado.


Bourdieu in the City, do sociólogo Loïc Wacquant, ainda sem tradução para o português

Há um efeito importante na inscrição dessas diferenças no mundo físico, em que o espaço urbano se torna um registro do equilíbrio das forças sociais de um período. Mas vamos dar um passo em falso se entendermos que a transposição de um plano a outro acontece suavemente, sem descompassos ou ruídos. E é aqui que Wacquant nos convence de que os conceitos do sociólogo francês Pierre Bourdieu sobre as cidades nos permitem trilhar caminhos fecundos, que dialogam mas também desafiam uma parte da teoria urbana.

Não há homologia perfeita entre relações sociais e espaço construído. Replicações variam; desarticulações, lacunas e vãos nos provocam a repensar uma matriz conceitual que aposte na correlação espelhada. Wacquant é incisivo ao defender que as categorias de Bourdieu não ajudam se a ideia for acrescentar um verniz erudito ou comprar um pacote completo em que cada conceito do autor precisa ser empregado como num check-list. Os conceitos precisam ser colocados para trabalhar, é preciso restituir sua agilidade para apreender o mundo. E, para isso, o autor se utiliza de uma tríade de conceitos bourdieusianos: espaço simbólico, social e físico.

Tríade

O espaço simbólico apresenta uma topografia de categorias cognitivas por meio das quais recortamos a diversidade empírica do mundo, classificando pessoas, lugares e objetos. É uma grade mental que sedimenta, em nosso próprio corpo, o nosso modo de ver o mundo. Já o espaço social designa a distribuição de agentes em posições objetivas determinadas pela alocação de recursos ou de capital, seja ele econômico ou cultural. Por fim, o espaço físico nos remete ao construído, que não se reduz à paisagem em que nossas ações cotidianas acontecem.

Ainda que esses conceitos tenham sido desenvolvidos ao longo da vasta obra de Bourdieu, Wacquant defende que há uma teoria urbana perdida em seus escritos de juventude, que explicita essa triangulação e seus diferentes modos de conexão e desarranjo com maestria. Cada um desses espaços é denso, com especificidade histórica. E a realocação forçada em massa na Argélia colonial na década de 60, por um lado, e uma pequena província francesa, por outro, foram os pontos de apoio para o jovem Bourdieu mostrar a força dessa triangulação.

Milhões de argelinos foram assentados forçadamente em acampamentos militarizados — e aqui o controle e a marcação do espaço são centrais tanto para a imposição do poder colonial quanto para a resistência local ganhar corpo. Para Bourdieu, o acampamento é, ao mesmo tempo, uma formação proto-urbana — à medida que mina as bases das formas tradicionais de existência, forçando a anonimidade e o individualismo próprios da cidade — e anti-urbana — à medida que priva os ocupantes dos recursos mais básicos, incluindo o espaço e o tempo, forçando uma adaptação à condição de suspensão das referências.

A cidade é o lugar da produção e da colisão de múltiplos habitus contraditórios

O espaço de extrema coerção é uma urbanização fictícia e real, subvertendo hierarquias tradicionais; e não à toa o acampamento era chamado de blad, a palavra berbere para cidade. Estruturas mentais e sociais estão intimamente correlacionadas com divisões físicas no espaço, com diversos desalinhamentos.

Já a província francesa mostrou para o jovem Bourdieu uma oposição entre o modo de vida camponês e o citadino. Ele registrou os fluxos matrimoniais, cujos circuitos e trocas se tornaram desacoplados do espaço físico: a intensa busca por parceiros em outras cidades desvincula o espaço social de sua base geográfica e é impulsionado pelos valores que haviam se tornado fundamentais — valores urbanos opostos a uma ideia enraizada de tradição. A triangulação moldou as escolhas e a forma de vida, seja numa tranquila cidade da França ou no extremo da violência de Estado na Argélia.

Ao trazer Bourdieu para a cidade, Wacquant oferece um quadro de referências precioso. Além da tríade dos espaços, o autor explica que a cidade é o lugar da produção e da colisão de múltiplos habitus contraditórios, dedica um dos capítulos do livro para pensar a relação entre estigma e espaço urbano e outro, também inestimável, sobre prisões e cidade. Bourdieu in the City condensa o diálogo entre Wacquant e Bourdieu — sorte a nossa ter essa conversa convertida em livro.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.