Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Mapa da metrópole inapreensível

Livros do fotógrafo Tuca Vieira refletem como o espaço urbano pode ser representado em mapeamentos e atlas fotográfico

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

Em “Do rigor da ciência”, Jorge Luis Borges conta que a arte da cartografia de um determinado império havia chegado a tal nível de perfeição que “o mapa de uma só província ocupava toda uma cidade”. Com o tempo, o colégio de cartógrafos desenvolveu ainda mais a sua técnica, elaborando um mapa que correspondia, ponto a ponto, ao próprio território do império. O narrador afirma que as gerações seguintes começaram a ver inutilidade nesses mapas dilatados. Foram, então, abandonados às inclemências do tempo, restando apenas vestígios. O propósito de Borges é levar os problemas de representação ao limite — e não à toa alguns comentadores denominam esses textos de contos filosóficos. Se o mapa equivale a seu objeto, se é tão transparente que reproduz todos os seus ínfimos detalhes, a representação perde sua razão de ser. A representação e seu objeto precisam ser distintos para que a relação possa se estabelecer; não há representação na completa identidade, há apenas mimese. A mera reprodução não acrescenta novas camadas de sentido. Quanto maior a fidelidade da equivalência, menor a capacidade de expandir ou de orientar o conhecimento.

Mas Borges é sempre um ilusionista. Nesse pequeno conto, opera uma série de deslocamentos pouco perceptíveis à primeira vista. O relato sobre o trabalho dos cartógrafos nesse império é atribuído a um tal Suárez Miranda, pretensamente extraído de um livro intitulado Viajes de varones prudentes, de 1658. É um viajante que conta sobre algo no passado, e o próprio Borges se apresenta como editor dessa espécie de verbete. Borges lê Suárez Miranda, que lê os cartógrafos que são desacreditados pelas gerações seguintes desse império, em uma estrutura em abismo — caminho que parte de um espaço de representação imaginário e que aponta para outros espaços imaginários em seu interior, num percurso que se dirige cada vez mais para dentro. O paradoxo não está apenas nos mapas tão extensos que se confundem com o objeto — a cidade —, mas também na estrutura do conto, que joga com os níveis de tempo e espaço para enfeixar representações dentro de representações. O mapa não orienta, e quem conta tampouco pode servir como guia.

O que deve ser representado?

Os mapas não são inocentes, diz Tuca Vieira em Salto no escuro. Por mais que a pretensão de objetividade esteja implícita — mapas nos ajudam a ir de um ponto A a um ponto B, indicam rotas e caminhos, revelam distâncias —, mapas são autorais. Se há um autor ou uma autora, há escolhas do que deve ser representado e do que deve ficar de fora. Por isso a suspeita em relação a esses artefatos; é preciso desconfiar da bússola, colocá-la em perspectiva e sob o escrutínio da crítica.

O tema do mapeamento é central neste novo livro de ensaios do fotógrafo Tuca Vieira. Para o autor, é a própria possibilidade de encontrarmos orientação que está em xeque no mundo em que vivemos. Vieira fala de uma capacidade perdida de nos situarmos, de uma paralisia generalizada que se expressa em uma atrofia de estabelecermos coordenadas seguras. Com mapas cada vez mais sofisticados e mais precisos — dos satélites que nos mostram os territórios em detalhados planos plongée ao Google Street View, que cartografa no plano da rua —, o paradoxo se instauraria na medida em que são as próprias relações sociais que se esquivam, em uma aceleração sem precedentes. Diante de um hiperespaço inapreensível, qualquer caminho é um salto no escuro.

A ideia da impossibilidade de representar é levada tão a sério que, em vez de imagens para ilustrar o argumento, o livro traz espaços em branco, marcados por molduras quadradas e legendas que sugerem o que deveria estar representado ali. A ideia de Baudrillard de que as imagens são superfícies visuais sem conteúdo é levada às últimas consequências. Cabe ao leitor e à leitora imaginar enquanto lê, sem receber um símbolo já pronto. O movimento se torna ainda mais ousado por vir de um dos mais argutos e excepcionais fotógrafos do espaço urbano.

A perda de referências

O argumento do livro perde força quando a impossibilidade de representação é transposta para todos os âmbitos da vida. Vieira escreve sob a chave da “perda” — de referências, de orientação, de projeto —, como se houvesse um passado em que todos esses pilares estivessem muito bem assentados, como se o problema da representação tivesse ganhado uma solução adequada em algum momento na história. As transformações tecnológicas do capitalismo recente ou o pós-modernismo — para usar uma referência de Vieira — teriam desestabilizado essa equação, aniquilando nossa própria capacidade de ser e estar no mundo. Borges provavelmente abriria um sorriso.

Quando transposto ao plano da política, o argumento leva Vieira a afirmar que “não há no horizonte da humanidade nenhum vislumbre de mudança radical, nenhum grande projeto coletivo, nenhuma revolução”; restariam “as migalhas do sistema e a luta individual pela sobrevivência, como os personagens que rastejam nas ruas chuvosas” da cidade do filme Blade Runner: o caçador de androides (1982). A democracia vira ilusão, projetos coletivos são condenados a fracassar.

A coleção de fotos mostra casas autoconstruídas, esquinas simples, sem muitos pontos de atenção

Mas talvez seja o próprio quadro de referências em que o livro se movimenta que deixe de fornecer lentes para ver conflitos sociais e mudanças, especialmente sob a bandeira, cada vez mais urgente, de reivindicação de aprofundamento da democracia. 


Jardim Miranda D’Aviz, em Mauá

Muito mais interessante é a ideia que contrasta o mapa como objeto e o mapeamento como uma prática, atribuindo possibilidade de ação e criação de sentidos, mesmo em tempos tão turbulentos. O mapeamento “é uma técnica natural de iluminação gradual e lenta do território desconhecido, que vai se revelando à medida do deslocamento. É o oposto de um salto no escuro”. Ainda que o símbolo da projeção de luz tenha uma recepção controversa, para dizer o mínimo — basta pensar no iluminismo —, há aqui a possibilidade de construção de caminhos, individuais — e, por que não, coletivos —, para projetos que tateiam diante da obscuridade.

A paisagem da cidade

Tanto é assim que Atlas fotográfico da cidade de São Paulo e arredores concretiza justamente uma prática de mapeamento. Se Salto no escuro prefere substituir as imagens por molduras a serem preenchidas, o Atlas é um livro de fotografia. Segundo o autor, “o atlas é um objeto tão fascinante quanto o próprio mapa. E não é simplesmente uma coleção de mapas, mas um objeto cultural com características próprias. O atlas é um artefato que pretende reduzir o mundo ao tamanho de um livro”. Como coleção de coisas singulares, o atlas permite a viagem, um deslocamento no tempo e no espaço, tal qual o viajante de Borges.

O Atlas se orienta por um mapa de quadrantes que cobrem o território da cidade de São Paulo e também seus arredores — Guarulhos, Barueri, Itapecerica da Serra e outros municípios vizinhos. A cada quadrante corresponde uma foto. O jogo de correspondências entre o mapa e a foto faz com que o leitor e a leitora operem um movimento de ligue os pontos, juntando peças em um quebra-cabeças de peças que se encaixam por serem contíguas no território. 

As imagens deixam de lado o plano aéreo, muitas vezes utilizado para representar São Paulo. Para Vieira, esse plano desumaniza as relações na cidade, adotando um olhar divino e totalitário. As fotografias do Atlas se colocam ao nível da rua e não se propõem a ser espetaculares. Pelo contrário. O autor afirma que procurou uma “visão média”, tentando evitar tanto o extraordinário quanto o pitoresco. A coleção de fotos mostra cenas cotidianas, em sua maioria de espaços periféricos. Casas autoconstruídas, esquinas simples, sem muitos pontos evidentes de atenção. A São Paulo de Tuca Vieira é também vazia — a maioria das imagens não apresenta nenhuma figura humana. É, claramente, um movimento intencional. Ao evitar as pessoas, Vieira chama atenção para o espaço construído de maneira primordial, para construções e ruínas. Vemos uma São Paulo cinza, mas também muito colorida em muros que gritam em amarelos e laranjas. A perspectiva é sempre a menos óbvia, convidando o leitor e a leitora a interrogar o lugar do qual se olha. As mais diversas tipologias aparecem nessa coleção: conjuntos habitacionais, shopping centers, postos de gasolina, igrejas, comércios populares, casas feitas de lona em ocupações, espigões residenciais que contrastam com casinhas térreas.

São 406 fotos, mas o mapa não coincide com o próprio território. É representação, não equivale a seu objeto, ainda que haja a tentativa de simbolizar a cidade em sua totalidade. É um deslocamento de um viajante que se movimenta pelo espaço urbano e faz escolhas, propondo um olhar próprio e específico. Há elementos visíveis e outros fora do plano, como em qualquer mapa. Acrescenta, portanto, camadas de sentido e nos convoca a uma leitura ativa.

Lidos juntos, os dois livros propõem reflexões que entram em tensão. A impossibilidade de se orientar se encontra com a prática ativa de mapeamento. Mapa e labirinto se confundem e interseccionam em um labirinto de representações.  

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.