Literatura,

Estar juntas

O romance da primeira autora negra a ganhar o Man Booker coloca mulheres historicamente invisibilizadas no centro de narrativa política

01nov2020 | Edição #39 nov.2020

Hattie, 93, vive na Fazenda Greenfields, perto da fronteira com a Escócia. Ela tem dois filhos, Sonny e Ada Mae, que deixaram a vida no campo para trabalhar como mineiro e operária de uma fábrica de sapatos, atraídos por uma Londres cada vez mais cosmopolita, até se tornarem “farrapos humanos”. Hattie acredita que todos esperam impacientes por sua morte para herdar a propriedade de 300 hectares onde vive desde seu nascimento, o que resolveria boa parte dos problemas de seus filhos. Mas crê também que, pela saúde precária deles, advinda de suas atividades profissionais, é possível que isso não ocorra. 

Durante boa parte do tempo ela recorda seu marido Slim, um ex-combatente americano que preferiu permanecer na Inglaterra a ter que voltar para a segregação de sua Geórgia natal. Enquanto o marido era vivo, Hattie votava nos trabalhistas — não queria desapontá-lo. Depois, passou a odiar a atitude bélica do partido e chegou a votar nos verdes até aderir ao Brexit. Ela vê sua descendência cada vez mais clara — os filhos casaram com pessoas brancas, já não se identificam como negros. Mas ela também não se importa — “boa sorte, por que ter o fardo da cor para te atrasar?”. Sua família está mais branca a cada geração, “e não queria nenhum retrocesso”.

Hattie é apenas uma das muitas personagens de Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo, que dividiu o Prêmio Man Booker em 2019 com Os testamentos, de Margaret Atwood. A obra, aclamada pelo público e pela crítica, tem acumulado muitos prêmios desde então. Filha de um nigeriano e uma britânica, Evaristo tem o sobrenome de provável origem portuguesa e que guarda uma relação curiosa com o Brasil: seu avô paterno era um aguda, descendente de yorubás escravizados que retornaram à Nigéria no século 19. A autora já tinha uma carreira consolidada como dramaturga e escritora em seu país, mas o galardão fez seu oitavo romance alcançar projeção pública além da Grã-Bretanha, sendo amplamente traduzido.

O livro é um tour de force narrativo complexo e imbricado que apresenta personagens inesquecíveis e explora temas próprios de nosso tempo. Sem protagonistas, o romance se torna a história de um coletivo representado pelas doze personagens que nomeiam os capítulos (à exceção do último e do epílogo). Todas são mulheres negras — além de uma personagem que se identifica como de gênero neutro e não binário — que vivem experiências particulares e coletivas numa sociedade patriarcal e estruturalmente racializada. Mas Evaristo não é condescendente na abordagem do tema, nem mesmo faz concessões às personagens, providas de complexidade, contradições e ambiguidade, o que as aproxima, sobretudo, de uma experiência possível de ser compartilhada por muitos em sua dimensão humana.

Ao abordar temas duros e complexos, Evaristo extrai graça e leveza de situações improváveis

Dessa forma, o romance se abre para um leque de temas como raça, classe, gênero, conflito geracional e sexualidade, trazendo uma abordagem política a partir das perspectivas das personagens sem, contudo, parecer panfletário. Um bom exemplo está no capítulo dedicado a Dominique, que se apaixona por uma militante americana, Nzinga/Cindy, mulher, feminista e negra, que se recusa a usar meias pretas — para não pisar na cor — ou mesmo calcinha preta: “eu nunca uso calcinha preta, por que cagar em mim mesma?”. Aliás, o humor é um grande trunfo na prosa da autora: ao abordar temas duros e complexos, Evaristo não flerta com um sentimentalismo que poderia dar um tom demasiado dramático às histórias. Pelo contrário, ela consegue extrair graça e leveza de situações improváveis.

Projeto singular

Evaristo constrói uma narrativa próxima à oralidade de suas personagens, trazendo vocabulário, fluidez e estrutura textual que revelam um projeto literário singular. Sua prosa, alicerçada na poesia, é desprovida de pontos e virgulas excessivos, o que a torna melódica e rítmica, dando uma dicção muito própria ao texto. É repleta de referências ao mundo pop: das celebridades do mundo das artes e ícones da cultura negra, passando por políticos como Obama e Trump, até as redes sociais, sem que essas referências afetem a natureza atemporal da obra. Os capítulos são perfis biográficos das personagens, fazendo com que o arco temporal do romance extrapole a Grã-Bretanha do pós-Brexit. Assim, transitamos por eventos que vão da Inglaterra dos homens brancos que enriqueceram com o tráfico de escravizados, passando pela diáspora causada pelas lutas de independência das ex-colônias britânicas, à desintegração do sonho de uma comunidade europeia da qual fizeram parte. Embora funcionem bem como pequenas novelas, os capítulos são interseccionais.

As mulheres têm distintas origens e idades e ocupam posições diferentes na sociedade britânica. Vivem uma trilha de dores e alegrias relacionadas à maternidade, à sexualidade, à vida familiar e social e ao seu lugar num mundo demasiado dividido, preconceituoso e hostil. Amma nasceu na década de 1960, trabalhou como garçonete até se tornar uma atriz e dramaturga que alcança relativo sucesso após muitos altos e baixos. Seus laços de amizade com Dominique e Shirley lembram a sororidade que ecoa nas obras de Toni Morrison e Buchi Emecheta. Yazz, sua filha, é uma “produção independente” que envolveu um amigo gay de Amma. Carole é executiva de um banco e se encontra no National Theatre para assistir à estreia de A última amazona do reino de Daomé, a mais recente produção de Amma. Sua mãe, Bummi, é nigeriana, imigrante sobrevivente de um país dilacerado por disputas coloniais e que fez sua vida como faxineira e depois proprietária de uma empresa de limpeza em Londres. Bummi se choca quando a filha decide se casar com um homem branco, frustrando seu sonho de vê-la casada com um nigeriano. Winsome, mãe de Shirley, retornou para Barbados, no Caribe, após anos trabalhando como fiscal de transporte público. Ela recebe todos os anos a família da filha em sua casa de praia e os conflitos adormecidos se tornam cada vez mais latentes. 

Garotas, mulher, outras tem tudo para se tornar um marco na narrativa de ficção contemporânea por sua estética única e pela abordagem precisa que faz do multiculturalismo da sociedade ocidental pós-colonial. Suas personagens são mulheres historicamente invisibilizadas na literatura europeia, que ganham força, protagonismo e mostram o que a ficção pode nos ofertar em diversidade e humanismo quando volta o seu olhar para experiências outras. O prêmio, sem dúvida, lançou um justo holofote sobre a obra plural de Evaristo. Nós, leitores, agradecemos.

Quem escreveu esse texto

Itamar Vieira Junior

Recebeu o Prêmio LeYa pelo romance Torto arado (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #39 nov.2020 em outubro de 2020.