Política,

Gritos e sussurros

Arte de Aurora Cursino dos Santos, que foi internada em um hospício, narra a violência e a interdição da sexualidade vividas pelas mulheres

20abr2022 - 13h06 | Edição #57

Em meados da década de 1890, quando Aurora Cursino dos Santos nasceu em São José dos Campos, interior de São Paulo, operava-se uma revolução no pensamento ocidental em Viena, na Áustria. Sigmund Freud inventava a psicanálise a partir do corpo revolto da mulher. Seus primeiros escritos tratavam das histéricas que eram internadas aos borbotões em clínicas e hospícios pelo mundo. Pelo método de psicanálise, que se pretende de escuta, penetramos na sexualidade, nos traumas e tantas intimidades das mulheres daquele tempo, narradas por um homem. Ainda havia poucas que contavam em primeira pessoa suas experiências.

Nascida em 1896, Aurora Cursina dos Santos, moça do interior, apelidada “a caipirinha”, segundo a própria, muito cedo deixou a sua cidade natal, talvez por não aceitar um casamento imposto quando tinha dezesseis anos. Em 1919 morava no bairro da Lapa no Rio de Janeiro.

Numa noite daquele ano, ela saiu com o dono do jornal O Imparcial e deputado Eduardo Macedo Soares e uma trupe de boêmios. Tomaram uma num bar na Avenida Rio Branco. De lá partiram para o High Life Club, na Glória, onde os ricos, artistas, prostitutas de luxo e outros personagens da noite frequentavam seus amplos salões e jardins tropicais. Naquele sábado houve show de variedades e a Orquestra Brasil tocou. Beberam champanhe. Um jornalista levou Aurora para casa de automóvel. Ele subiu ao seu quarto e quis “praticar atos libidinais” à força. Ela gritou, as vizinhas apareceram e, no dia seguinte, foi à delegacia prestar queixa. Disse que ele arrancou sua blusa, mordeu sua boca e machucou seu braço. Ela fez exame de corpo de delito, que atestou as marcas da violência. Não sabia o nome do homem que a agrediu, mas afirmou que o deputado Soares poderia revelar a identidade do agressor. O político não foi chamado a depor, e o processo foi arquivado.

Drama feminino  

Com exceção de poucos documentos oficiais, como esse processo, sua história é contada por ela mesma em cerca de duzentas pinturas que criou no Hospital Psiquiátrico do Juquery em São Paulo, onde ficou internada entre 1944 e 1959. Olhando as imagens e lendo a profusão de textos que sua obra pictórica contém, vamos desenrolando um drama feminino: a violência e a interdição da sexualidade expressas igualmente pelas histéricas narradas por Freud e tantas outras mulheres. 

Aurora era prostituta, uma profissão ainda hoje discriminada mesmo em meios progressistas. Importa ouvir o que ela gritou e narrou não só porque ela exercia a prostituição. Mas, principalmente, porque ela era uma mulher violentada e revoltada. A memória, o delírio e a imaginação aparecem de mãos dadas misturando fabulação e realidade. A partir dessa ciranda delineia-se a obra, e muitas vezes é difícil identificar qual componente prevalece em cada quadro. Neste mês de maio, quando se comemora o dia da luta antimanicomial (18/5), lanço com Joel Briman, pela Veneta,  Aurora: memórias e delírios de uma mulher da vida. 

Igreja e cabaré

O que ela dizia, o que ela pintava?

Para começar, é importante frisar que havia um ateliê de pintura no hospital psiquiátrico a partir de 1949, onde ela produziu sua obra, coordenado inicialmente por uma outra pintora, Maria Leontina. Um de seus criadores foi o psiquiatra Osório César, que escrevia sobre arte e loucura desde a década de 20, além de colecionar muitas peças de internos do Juquery, onde começou e terminou sua carreira. 

Aurora pintava de maneira expressionista, às vezes com muita acuidade e talento, outras vezes com pinceladas mais brutas, menos harmoniosas, digamos assim, expressando a raiva que sentia. Transgredia as belas-artes naqueles dourados anos 50. Quando olhamos para seus quadros podemos ouvir muitos gritos e sussurros.

Ela esboça uma geografia de sua atuação na prostituição no Rio de Janeiro, em São Paulo, em regiões portuárias e na Europa. Num quadro, retrata-se no Largo São Francisco, no Centro do Rio de Janeiro. Ali, ela contracena com a estátua do Patriarca da Independência, José Bonifácio, e a loja de departamentos A Brazileira. No mapa da cidade, Aurora marca sua presença como um “pin-puta”: Estive aqui, ali, acolá, na rua, tocando o lado B da cidade, de noite enquanto o lado A dormia.

Ela cria alegorias, como uma cena da praia de Copacabana, onde deve ter “batalhado” (se prostituído) no Cabaré Mère Louise, que figura ao lado da Igrejinha que nomeou o bairro e foi demolida em 1918 para a construção do quartel do Exército contíguo ao Forte, que já estava lá a partir de 1914. Da igreja ao cabaré, ela data a cena entre 1914 e 1918, nos informando que começou a sua carreira de prostituta na Cidade Maravilhosa nessa década. A colônia de pescadores que existe até hoje no chamado Posto 6 é também figurada no quadro em primeiro plano. Aurora nomeia a pintura de Nas malhas da lei. Há ali uma rede que se sobrepõe à parte marginal da imagem, as putas e os pescadores, os trabalhadores sendo inquiridos por um investigador acompanhado de um coronel e um deputado. A bandeira nacional coroa a imagem, hasteada num coqueiro, enquanto padres espreitam de dentro da igreja. A bandeira também figura em outra alegoria na qual ela e outras mulheres severamente vestidas a carregam sob o olhar vigilante de uma freira, provavelmente carmelita, diante do Hotel Avenida na Avenida Mem de Sá, na Lapa, onde também morou em 1935. O convento carmelita, no pé do Morro de Santa Teresa, assistiu ao velho bairro dos Arcos se tornar boêmio. 

A violência contra a mulher começa com meninas. Os quadros de São José evocam cenas rurais, às vezes idílicas, às vezes não. Num deles, intitulado O rapto de Aurora Cursino, ela está numa carruagem passando por uma rua da cidade, noutro ela escreve que foi vítima da maçonaria. Seja a narrativa fantasiosa ou memorial, a violência predomina. Mas sua fé em Nossa Senhora, Aparecida ou das Dores, permanece, suas representações se repetem, como santinhos de devoção.

Aurora esteve no Juquery quando havia mais de 7 mil internos, na maioria mulheres

Outras pinturas mostram que Aurora também batalhou em São Paulo, onde encerraria sua carreira. Em um quadro ambientado na cidade, ela escreve “Sombras, Mulher da…”. Uma mulher com seios de fora é enlaçada pela gravata de um homem, enquanto outros os espreitam. 

Outro quadro alegórico funde seu passado e presente: a década de 50, internada no hospício, e a lembrança de uma Pauliceia desvairada da década de 30. A São Paulo onde Zequinha de Abreu e sua orquestra animavam a noite e as rádios. 

O compositor de “Tico-tico no fubá” e “Branca” lançava sucessos todos os anos e vendia suas partituras nas lojas de música. Uma delas, a valsa “A noite desce…”, dedicou à sua “aluna Aurora Cursino”. Aurora lhe devolveu a dedicatória pintando o compositor em alguns quadros. Num deles fazem sexo no hotel São Paulo, provavelmente o Hotel Piratininga, que existe até hoje na Praça General Osório, próxima à Estação da Luz. Zequinha de Abreu morreu do coração num quarto desse hotel em 1935. Do outro lado da rua vemos a representação da Estação Ferroviária da Sorocabana. Ali do lado ficava a sede da empresa, na Estação Júlio Prestes, que depois foi ocupada pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops). Na imagem, Aurora está ligada a uma porção de fios que vêm de um aparelho que descreve as partes de seu corpo em palavras. Esse aparelho aparenta ser um misto de máquina de eletrochoque e rádio. Assim ela parece condensar sua vida de hospício com o passado boêmio, musical, erótico.

No mesmo ano em que foi musa da valsa, 1932, Aurora figurou entre as 140 inscritas no curso emergencial de enfermagem da Cruz Azul. Tratava-se de um curso preparatório de uma semana para as candidatas atenderem soldados nas trincheiras da chamada Revolução Constitucionalista, a guerra civil de São Paulo contra o Brasil de Getúlio. Já acostumada a cuidar de homens, ela possivelmente se lançou numa aventura de guerra.

Maternidade

Outro tema que cintila na obra da pintora é a maternidade. Talvez seu quadro mais pungente seja um em que ela se pinta nua com o ventre aberto, e dentro do útero uma criança se alimenta de seus seios no lugar de ter um cordão umbilical. Um psiquiatra que estava presente disse que, enquanto ela pintava, falava dos nove filhos que teria parido. Esses filhos aparecem em várias pinturas. Há também cenas de entrega para adoção, raptos, abortos. Em outros, ela evoca o famoso verso do poeta parnasiano Coelho Neto, “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração”, também apropriado anos depois pelo poeta Torquato Neto na canção “Mamãe, coragem”, gravada por Gal Costa no álbum Tropicália.

O que se sabe do fim de sua carreira não é exatamente animador. Se puta nova é a um só tempo adorada e desprezada, quando velha só sobra o desprezo social. Tentou trabalhar de arrumadeira, mas não se deu bem com o serviço. Passou a dormir em albergues noturnos. De lá, um passo para a internação em manicômios: antes de ser transferida para o Juquery, ficou três anos no Hospício de Perdizes, no Largo Padre Péricles. Em 1944 começaram os seus longos quinze anos de estadia na grande colônia dos arredores de São Paulo. Esteve lá quando havia mais de 7 mil internos, na maioria mulheres. Alguns anos antes de morrer, foi lobotomizada.

Aurora Cursino dos Santos contou sua história pintando e gritando para ser ouvida. Um quadro seu apoteótico parece adequado para transformar essa história em uma utopia. Ela está no alto, empunhando uma arma, enquanto seu duplo criança faz o mesmo. Rodeadas de homens, soldados, padre, político, polícia. Ela sozinha contra o patriarcado. 

Quem escreveu esse texto

Silvana Jeha

É autora de História da tatuagem no Brasil, publicado pela Veneta.

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.