Política,

Canções de resistência

O discreto protagonismo de Dona Ivone Lara na saúde mental brasileira

19abr2022 - 17h15 | Edição #57

A tarefa de retratar a Dama do Samba é inestimável: essa ancestral teve um protagonismo fundamental na vanguarda do samba e nos primórdios da ruptura com o aparato manicomial na realidade brasileira. Não sou capaz de dissertar com a maestria que sua grandeza exige, mas espero contribuir para a divulgação de sua importância para a saúde mental.

É pela noção de encruzilhada que seguirei para produzir encontros entre corpos e sabedorias transgressoras ancestrais. Venho trabalhando com a noção de “cruzo antimanicomial” para discorrer sobre desobediências éticas, estéticas e poéticas construídas por diferentes ancestrais que por aqui passaram e deixaram suas pegadas e memórias. Portanto, para iniciar, pedirei licença à ancestralidade, já que “alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho”.

Nunca pensei que pudesse escrever sobre um encontro que não existiu fisicamente, mas que se faz a partir dos escritos e narrativas quando recupero o percurso de Dona Ivone. Recordo-me do dia em que li o primeiro prontuário de minha mãe e descobri uma parte de minha vida, já que desconhecia os motivos que a levaram às primeiras internações no mesmo hospital psiquiátrico onde nossa Dama do Samba trabalhou e construiu seu percurso na saúde mental.

Nascida no bairro de Botafogo, Zona Sul da cidade do purgatório, da beleza e do caos, foi criada em Madureira, logo após ficar órfã de pai e mãe, aos treze anos. Todas as vezes que deixava o colégio interno e passava alguns dias na casa da tia, Dona Ivone Lara participava das festas e rodas de samba e de chorinho. Inúmeros encontros ocorreram até que pudesse chegar à encruzilhada antimanicomial. Podemos destacar a vivência com a cultura negra, traço marcante e fundante, no bairro de Madureira e o acesso à música clássica, aprendida na escola.

Após concluir os estudos no colégio interno, ela foi pressionada pela família a procurar emprego. Como não desejava trabalhar em fábrica e seguir o destino operário, procurou outras opções. Lendo o jornal, soube de um concurso para a Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Participou da seleção e ficou entre as dez primeiras classificadas, com direito a uma bolsa de estudos. Durante a formação, já demonstrava interesse em cursar especialização na área da psiquiatria. 


Dona Ivone Lara a caminho de um ensaio, c. 2005 [Acervo de família]

Formada enfermeira, em 1943 atuou por seis anos na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Zona Oeste da cidade. Em 1947, matriculou-se no curso de serviço social e retomou os estudos. Para Graziela Scheffer, autora de Serviço social na cadência da memória das pioneiras cariocas (EDUERJ), a trajetória de Ivone Lara coincide com os primeiros passos da profissão. Ela foi uma das primeiras profissionais negras formadas em serviço social no país. 

A música como método de intervenção proporcionava a valorização da cultura popular negra

A Dama do Samba trabalhou no Centro Psiquiátrico Pedro 2º, no bairro Engenho de Dentro, até a sua aposentadoria, em 1977. Seu trabalho era desenvolvido sob a supervisão da psiquiatra Nise da Silveira, que lhe permitia utilizar a música como estratégia de tratamento na seção de terapêutica ocupacional. A música como método de intervenção proporcionava a recuperação e a valorização da cultura popular negra, além de viabilizar rupturas com as práticas psiquiátricas hegemônicas que silenciam e destroem as singularidades. 

Nesse caminho, é possível afirmar que temos uma prática de aquilombamento realizada por Dona Ivone Lara. Por meio das atividades desenvolvidas, eram recuperados valores culturais, sociais, éticos, estéticos e afetivos que foram/são silenciados pelas práticas manicomiais. Ao retomar esses valores por meio da música, produziam-se deslocamentos importantes para afirmação das identidades, o que seguia na contramão do aparato manicomial assentado na internação, no isolamento, na medicalização, no controle do corpo e da subjetividade e na sujeição da existência. 

Eu estou aqui, o que é que há?

No livro Trabalho, gênero e saúde mental: contribuições para a profissionalização do cuidado feminino (Cortez Editora), buscamos problematizar a naturalização e essencialização do cuidado executado, majoritariamente, por mulheres negras na saúde mental. A partir da experiência dos serviços residenciais terapêuticos — moradias financiadas pelo poder público —, procuramos identificar o perfil das trabalhadoras que executam o trabalho do cuidado. Foi possível comprovar que as mulheres negras permanecem ocupando os trabalhos mais subalternos e invisíveis, mesmo em uma política que propõe a ruptura com o modelo conservador. Além disso, damos destaque ao silenciamento dessas mulheres na construção da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial brasileira. 

Nesse caminho, é importante dar destaque à potência do encontro entre Nise da Silveira e Ivone Lara no Centro Psiquiátrico Pedro 2º, porém seguimos questionando sobre o apagamento do seu trabalho e das suas contribuições para o campo. É curioso quanto a sua atuação como profissional da saúde mental ficou silenciada por muito tempo e segue reduzida à experiência de Nise da Silveira. Indagamos: quem pode ter o trabalho reconhecido e valorizado? Tal questionamento não se restringe apenas à Dama do Samba, como podemos identificar na coletânea Racismo, subjetividade e saúde mental: pioneirismo negro (Hucitec Editora), que propõe retomar as contribuições de diferentes protagonistas negros que atuaram/atuam na saúde mental. Mulheres negras permanecem sendo colocadas na “zona do não ser”, tendo seus corpos, histórias, memórias, afetos e subjetividades submetidos a dominação e exploração.

No mês da luta antimanicomial é fundamental recuperarmos o protagonismo de Dona Ivone Lara — e de muitas outras mulheres negras — na construção do questionamento do aparato manicomial. Em Mulheres e loucura: narrativas de resistência (Autografia), Melissa de Oliveira demonstra como diferentes mulheres brasileiras lideram experiências de mobilização e coletivização de resistência. A autora evidencia que os espaços de poder e representação são ocupados por homens, enquanto as mulheres comandam organizações e coletivos antimanicomiais.


Dona Ivone Lara [Acervo de família]

Quando desvelamos o silêncio sobre a atuação de Dona Ivone Lara, produzimos fraturas no pacto que sustenta a perpetuação do racismo e do patriarcado. Reduzindo sua experiência à carreira musical, deixamos de compreender suas multiplicidades. É fundamental quebrar o silêncio e permitir que as canções de resistência entoadas dentro do hospício ganhem eco. Em tempos de afirmação do aniquilamento, é urgente evidenciarmos práticas que produziram/produzam fratura e promoveram/promovam a valorização da vida.

Quem escreveu esse texto

Rachel Gouveia

Professora da UFRJ, escreveu os livros Trabalho, gênero e saúde mental: contribuições para a profissionalização do cuidado feminino (Cortez, 2018) e Teorias e filosofias do cuidado: subsídios para o Serviço Social (Papel Social, 2018).

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.