Literatura,

Medo de mulher

Personagens loucas na obra de Charlotte Brontë e Elena Ferrante são lembretes de como podemos nos tornar aquilo que mais tememos

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

No final do século 16 e início do 17, o rei James 1º da Inglaterra tinha tamanho pavor de mulher que pôs em prática um dos projetos mais ambiciosos e bem-sucedidos de demonização do sexo feminino. Durante o seu reinado (1567-1625), várias mulheres foram queimadas como feiticeiras. A vilania contra a mulher durante aquele período culminou com os julgamentos de Berwick, que levaram à morte na fogueira das chamadas bruxas em praça pública na costa da Escócia. 

Gradativamente a bruxaria saiu de moda e a loucura tomou seu lugar. Ainda no século 17, o médico inglês Edward Jorden escreveu A briefe discourse of a disease called the Suffocation of the Mother (Um breve discurso de uma doença chamada o sufocamento da mãe), um estudo que propunha abandonar a classificação de bruxas para que fosse substituída pelo diagnóstico da loucura.

Curiosamente, a normalização da mulher como bruxa, louca ou sujeito problemático foi abraçada também por mulheres que, controladas pelo domínio masculino, validaram e ainda validam tal estranhamento tão útil e fundamental à propagação do patriarcado.

A autora italiana Elena Ferrante ilustra bem esse conceito cultural da oposição feminina ao próprio gênero. Em História do novo sobrenome, um dos livros da chamada tetralogia napolitana, uma constatação da narradora aponta para essa evidência. Elena Greco, ou Lenu, identifica que o seu destino está tão traçado quanto o de qualquer uma das mulheres do bairro pobre onde vive, nos arredores de Nápoles. Não há diferença entre ela e Melina, personagem breve, aparentemente secundária, mas causadora de enorme abalo, pois também é uma espécie de rebelde. Para começo de conversa, Melina se seduz pela poesia como expressão artística. Não proponho debate algum sobre a qualidade literária — ou, provavelmente, falta dela — da poesia escrita pelo amante da personagem, Donato Sarratore, mas, dentro da crueza e aridez da rotina do cortiço onde mora com a família, os versos do vizinho podem possibilitar que, momentaneamente, Melina evite sentir a própria carne maltratada pela realidade. Mas talvez o principal obstáculo de Melina seja o seu pertencimento ao bairro. Ela demonstra estar à vontade com os insultos dos quais é vítima ao mesmo tempo que os distribui. 

O que falta a Melina sobra em Elena Greco. Elena sente incômodo com o seu lugar de origem. Melina, ao contrário, está em casa. A narradora, apesar das brutas circunstâncias de ininterrupta violência, observa o seu entorno com rara sensibilidade. Ao fazê-lo, me marca, como leitora, quando conclui que Melina, assim como as outras personagens femininas da sua comunidade, como Nunzia, Lidia, Maria e a própria mãe, Immacolata Greco, são mulheres muito jovens, de corpos novos, mas já inseridas profundamente no mesmo destino de suas mães e avós, uma sorte inevitável e já traçada muito antes de elas existirem — a não ser que um milagre aconteça e rompa abruptamente o curso social com novas consequências de classe e gênero. É, de fato, um milagre que Elena Greco escape daquela vizinhança. 

Elena Greco encontra à sua volta um frequente aviso de que permanecer e enlouquecer é possível

As armadilhas sociais e de gênero encontram terreno fértil para propagação sob o aval religioso presente e predominante na cultura italiana, particularmente do sul. Elena encontra à sua volta um frequente aviso de que permanecer e enlouquecer é possível. (A imagem da poverella em Dias de abandono, outro título celebrado da mesma autora italiana, é a própria Melina, a mulher desequilibrada e miserável, que deve ser evitada.) Melina tem filhos e sua sedução ou flerte com a fuga encontrada nos poemas de Sarratore sugerem a potência da personagem. Ainda assim, percorrer Melina — a poverella — é inevitável a tantas mulheres que permanecem. O escritor argentino Jorge Luis Borges chega a nos advertir que um autor escreve sempre o mesmo livro, diferenciados apenas o tempo, a idade e o ângulo sob o qual narra. Ferrante consegue percorrer esse caminho infinitas vezes sem jamais subestimar seu leitor, porque toca em questões que se desdobram em sua complexidade problemática e, por isso, são sempre contemporâneas.

O papel secundário de Melina emprega significados obscuros e que dão a ela uma caracterização profunda e rica. A opulência da sua complexidade seria suficiente para trazê-la ao cerne de qualquer narrativa como personagem principal. Mas não interessa aqui esse destaque, porque personagens como Melina são pequenos lembretes deixados pela trama para evitar que Elena Greco se torne como elas.

Louca do sótão

É interessante observar a profundidade de signos e símbolos em personagens de fundo como, por exemplo, Bertha Mason, de Jane Eyre, romance escrito pela inglesa Charlotte Brontë em 1847. Bertha, natural das Índias Ocidentais Britânicas e primeira mulher de Rochester (por quem Jane se apaixona), é uma personagem extremamente intricada e com variadas interpretações de simbologia e significado. É possível observar que o assombro causado por Melina, mulher pobre e que lavava as escadas do prédio, em Elena Greco não é exatamente diferente do estranhamento e repulsa causados por Bertha em Jane Eyre. Se olharmos nos detalhes mais sutis, notaremos que Jane se aflige com o que representa Bertha. O estranhamento de Jane por Bertha ilustra o desejo da narradora de se separar da personagem marginal, pretendendo, assim, fugir do que é a imagem da louca do sótão e recusar qualquer semelhança, inclusive futura, com Bertha. 

Há, porém, uma diferenciação que amplia e reforça a complexidade das relações entre as narradoras, tanto de Jane Eyre quanto de História do novo sobrenome. O desequilíbrio de Melina é normalizado no cotidiano das personagens de Ferrante. A vizinhança a diferencia, mas sua imprevisibilidade é naturalizada no convívio. Por outro lado, a relação com Bertha deve ser evitada e a personagem é apresentada como um problema a ser escondido. Quando Jane ouve gritos vindos do sótão, a natureza aterrorizante do que é oculto passa a assustar a narradora. Além disso, Rochester, que esconde Bertha, tenta assegurar que tais gritos vindos do último andar da casa não eram nada que merecesse atenção — chega a ser divertida a referência que Rochester faz a Muito barulho por nada, de Shakespeare, ao procurar justificar os ruídos como um ensaio para a tal peça. 

No livro The Madwoman in the Attic (A louca do sótão), as autoras Sandra M. Gilbert e Susan Gubar desenvolvem a ideia de  que Bertha em Jane Eyre não é o oposto de Jane, mas, interessantemente, o seu complemento. Em um dos trechos, as autoras propõem o aprofundamento na interpretação de que Bertha é Jane em seu lado mais verdadeiro e mais sombrio. Ela representa o aspecto colérico da menina órfã, a secretamente visceral Jane que tenta reprimir esse avatar desde seus dias de Gateshead. Cabe a interpretação, portanto, de uma Jane que, no seu melhor comportamento, está em disfarce, enquanto Bertha, escondida e louca, representa o cerne, as profundezas e os defeitos de Jane.                

Porém, tanto a louca de Jane Eyre quanto a de História do novo sobrenome são símbolos de elementos que, uma vez identificados, são rejeitados pelas protagonistas, e, apesar da proximidade física e do compartilhamento de espaços comunitários, Elena e Jane pretendem apagar de seus futuros a possibilidade de ingresso dessas mulheres em descontrole. 

Em ‘Jane Eyre’ a questão colonialista é fundamental para entender a relação entre Rochester e Bertha

Não proponho uma reflexão em torno da leitura entre boa/má, inferior/superior. Esse contraste, se enriquecesse o debate literário, estaria mais adequado à natureza da relação entre Elena e Lila e não entre o par Elena e Melina. Já entre Bertha e Jane a aplicação desse conceito de opostos é mais possível através da representação da razão em Jane e do desequilíbrio em Bertha.  

Em Jane Eyre a questão colonialista é fundamental para contextualizar a relação entre Rochester e sua prisioneira, a mulher negra, vinda da Jamaica, com quem veio a se casar. Também em História do novo sobrenome a opressão e a normalização da violência masculina se dão em cada entorno da geografia habitada pela protagonista e, pontualmente, entre Melina e Sarratore. Exatamente como Bertha, Melina é categorizada como a louca e deve ser, por isso, mantida à distância, presa ou inferiorizada, se não no sótão, no seu escapismo delirante e na sua relação com os versos do amante. Similarmente a Melina, Bertha também é a figura da louca que expressa o caráter grotesco, animalesco, descontrolado e, especialmente, imprevisível. É a imprevisibilidade que pontua a dificuldade de convivência com o desequilíbrio, com a loucura. Assim como Melina perde a cabeça por sua paixão por Sarratore, Bertha nutre uma paixão avassaladora por Rochester. 

Há uma outra curiosa intersecção na composição entre Melina Cappuccio e Bertha Mason. Tanto Ferrante quanto Brontë demonstram profundo interesse em literatura médica. Ferrante claramente investiu tempo de leitura e estudo na psicanálise. Ela nos diz sobre isso em seu livro de textos Frantumaglia. Há, sem dúvida, a intenção e o cuidado ao tecer a narrativa ficcional de suas personagens levando em conta a complicada, obscura e difícil natureza psicológica de suas mulheres. Modern Domestic Medicine foi um livro que pertenceu ao pai de Charlotte, Patrick Brontë. A autora claramente se interessa em investigar o papel da medicina na deterioração e na salvação do corpo e da mente. Esse mesmo volume sobre medicina, que está hoje na British Library, em Londres, traz observações e anotações tanto de Patrick Brontë quanto da própria Charlotte. 

Raiva

Além desse cruzamento, há ainda uma motivação semelhante nas personagens e em seu entorno: tanto na relação de Elena com Melina como na de Jane com Bertha existe, inegavelmente, a presença da raiva, da miséria, da violência. No caso da obra de Ferrante, a raiva é exposta nas relações cotidianas pautadas por gritos, ofensas e falta de refinamento e privacidade no ambiente comum. Em Jane Eyre, a narrativa é pontuada e motivada pela orfandade, confinamento, prisão psicológica. A raiva seria, portanto, uma característica clara comum a essas personagens.  

Os surtos dessas figuras marginais também são marcados por serem elas agressivas fisicamente. O processo de canalização da raiva de cada uma delas envolve destruição de objetos, gritos e violência. A escolha das autoras por cada objeto utilizado durante as crises traz uma simbologia muito delicada: o ferro de passar roupas que quase atinge Nino, o filho de Sarratore, pode nos sugerir a restrição de Melina à prisão doméstica, ao papel exaustivo de dona de casa e de habitante daquele bairro miserável. O véu de noiva destruído por Bertha não deixa de ser um artifício para cessar a possibilidade de um amor iminente da rival. 

Ambas as mulheres devem ser escondidas. Ambas são clandestinas. Ambas apresentam ameaça pela inabilidade de adequação a comportamentos convencionais e por serem imprevisíveis. Ambas as narradoras têm medo dessas mulheres exatamente como pretende a sociedade machista, ao tratá-las como inadequadas, espíritos femininos animalescos impróprios à domesticidade.

Portanto, não é acidente que as autoras se utilizem de um recurso tão sofisticado quanto o da inserção da mulher louca como pano de fundo para uma espécie de janela que se abre esporadicamente para o terror psicológico do espelho das protagonistas. Bertha e Melina estão ao fundo, mas não desaparecem. Ao contrário: elas vêm e voltam em giros como os de um carrossel que nos permite vê-las de passagem, mas pulsantes, de onde têm ambas o papel de nos assombrar, perturbar e ameaçar sob o signo da possibilidade de nos tornarmos, a qualquer deslize, aquilo que mais tememos. 

Nota da autora
“Medo de mulher” faz parte de uma pesquisa para um livro de não ficção a ser parcialmente desenvolvido durante residência literária em Portugal em 2021.

Quem escreveu esse texto

Nara Vidal

Escritora, é autora de Mapas para desaparecer (Faria e Silva), Eva (Todavia) e Shakespearianas: As mulheres em Shakespeare (Relicário).

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.