O escritor pernambucano Raimundo Carrero (Heudes Régis/Divulgação)

Memória,

Mestre dos abismos e das ruínas

Artesão dos dilaceramentos, Raimundo Carrero foi face pública da literatura no Recife e em Pernambuco

23jun2026

Voz trovejante. Voz como a de todos os avôs, voz como a de todos os patriarcas. Morto em 16 de junho, aos 78 anos, Raimundo Carrero foi um homem de compleição robusta, olheiras fundas, gestos amplos. Foi um conhecedor dos sertões e das lamacentas entranhas do Recife, cidade que ele tanto amou. Como esquecer a presença do escritor? 

Nas conversas, falava de literatura, de pulsações para a escrita e também de safadezas. Era este o homem: semelhante a um profeta do Antigo Testamento e a uma divindade pagã. Era Abraão e Pã.

Existem pessoas que são como a face pública da literatura em suas cidades e estados. Carrero era uma dessas pessoas no Recife e em Pernambuco, tal como foi seu mestre, Ariano Suassuna. Ele já era um escritor reconhecido — vencedor dos prêmios Jabuti, Machado de Assis e APCA — quando nos vimos pela primeira vez. Publicava por editoras importantes e havia anos fazia sucesso com a sua tradicional oficina literária, uma das pioneiras do gênero no Brasil. 

Eu era estudante de letras na UFPE e nunca tinha visto um escritor na minha frente, embora acompanhasse um tanto da literatura brasileira contemporânea desde os tempos do ensino médio. Estávamos no ano de 2003 ou 2004, acho. Eu tinha abandonado o direito e entrado no curso de letras. Não recordo se Raimundo Carrero participou de uma aula de Lourival Holanda ou de Lucila Nogueira. A aula foi toda dedicada para que ele pudesse conversar com os alunos. Lembro de ouvi-lo com atenção e admiração. Eu já tinha a febre da literatura; sonhava um dia ter uma carreira como escritor de ficção.

Terminada a aula, venci minha forte timidez e fui falar com ele, com o apoio físico e moral da minha melhor amiga da faculdade. Levei dois livros comigo: o romance Sombra severa (publicado originalmente em 1986 e relançado em 2000 pela Iluminuras), uma de suas melhores obras e, até hoje, a minha favorita; e meu primeiro livro de contos, independente.

Carrero foi muito gentil. Bem-humorado, me disse: “rapaz, tu é um escritor então! Te vi ali largado na cadeira e não dei nada por você”. Me agradeceu por eu estar com seu livro e recebeu o meu com alegria. 

Na ficção sombria e cheia de paixões do autor, toda palavra escrita é como trauma exorcizado

Então falou: “vou dizer para você o mesmo que Ariano Suassuna me disse: se eu não gostar, não quer dizer que seu livro não presta; significa apenas que eu não gostei”. Saí daquela aula impressionado por um escritor consagrado ter me tratado como um colega. 

Não chegamos a ser amigos próximos, mas nossos caminhos se cruzaram várias vezes. Quem nos aproximava, sempre, era a literatura. Entrevistei-o em uma das suas últimas aparições públicas como escritor, em uma mesa em sua homenagem na Bienal do Livro de Pernambuco, em outubro de 2025. Sua fragilidade física era perceptível. Reclamou de dores e encerramos nossa mesa antes do previsto. Apesar disso, enxerguei nele a mesma febre de literatura de sempre; enxerguei em Carrero também a sua fundamental pulsão criativa. Pensei: ele ainda enfrenta a sua batalha.

Dono de um coração gigantesco, ao longo da vida Carrero participou de polêmicas literárias. Viveu sua vaidade, viveu seu orgulho. Ainda assim, a maioria dos relatos sobre ele, principalmente de escritores e escritoras mais jovens, são crônicas sobre seu apoio e sua gentileza. Além de sua obra, é disso que lembraremos.

Carga simbólica

Homem de profunda fé católica, Carrero foi um artesão dos dilaceramentos entre o sagrado e o pecado, vividos não somente pelos seus personagens, mas por ele próprio.

Ele não escreveu literatura fantástica, mas seus romances e contos tampouco são realistas. Trata-se de uma literatura sombria, violenta, cheia de paixões, que nasce de um lugar essencial — como se toda palavra escrita fosse um trauma a ser exorcizado. 

Personagens, espaços, cenas, enredos — todos os elementos narrativos estão impregnados de altíssima carga simbólica. As vidas inventadas estão destinadas ao martírio e ao sacrifício. Os pensamentos dos seus personagens, suas taras e traumas (há muitas taras, muitos traumas) se perdem nos labirintos da indagação a respeito da salvação de suas almas. 

Deus existe, mas quando falará?, perguntam-se. E o diabo? É real, porque ele é nada mais nada menos do que cada ser humano. São personagens que vivem em estado de delírio. Cometem crimes, vivem amores incestuosos, enlouquecem. Como estamos sempre muito perto deles, como vivemos o mundo ao seu redor, mediados pelas suas paixões, é difícil saber o que é real ou não nas histórias.

Já as imagens que cria são saturadas. Os lugares, o Recife e o sertão pernambucano retratados são socialmente reconhecíveis, mas impregnados de uma ameaça demoníaca. Tudo parece prestes a desabar — as casas e os homens e as mulheres com frequência desabam nas narrativas. 

A literatura de Carrero pode ser comparada a altares barrocos esquecidos em igrejas abandonadas e caindo aos pedaços. Igrejas invadidas por animais daninhos, ratos, morcegos, aranhas, serpentes venenosas. Esses bichos são os seus personagens. Esses bichos são você e eu — é o que os romances do escritor parecem nos dizer. 

Corpo literário

Nascido em 1947, em Salgueiro, no sertão pernambucano, Raimundo Carrero foi vítima de um câncer. Sua saúde esteve sob cuidados redobrados desde 2010, quando sofreu um AVC. Como tudo em Carrero era literatura, seu corpo doente virou um corpo literário. Colocando-se como personagem, publicou aquela que é a melhor das suas obras tardias, O senhor agora vai mudar de corpo (Record, 2015). Um livro fascinante, que hoje poderia ser lido como uma autoficção insólita, plena de delírios e sombras.

Sua estreia como autor maduro foi no contexto do Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna, com A história de Bernarda Soledade: a tigre do sertão (1975), bonito e trágico romance com tons regionalistas fantasmagóricos. Na Bienal do Livro de Pernambuco de 2025, Carrero disse ao público que esse era o seu livro favorito entre os mais de vinte que escreveu.

Carrero nos legou uma obra cuja leitura causa um desconforto extremamente necessário

Seus livros mais significativos foram escritos entre a metade dos anos 80 e o começo dos anos 2000. Barrocos, violentos e eróticos, eles conciliam de maneira eficaz importantes influências: o romance nordestino de 30, os experimentalismos modernistas, as crônicas policiais, o experimentalismo de autores do boom latino-americano. Recomendo, além dos romances já citados, Maçã agreste (1989), Somos pedras que se consomem (1995), As sombrias ruínas da alma (1999), O amor não tem bons sentimentos (2000) e A vida é traição, a última obra publicada pelo autor em vida, em 2025. 

Não posso deixar de citar, igualmente, o clássico manual de escrita criativa Os segredos da ficção (2005), lançado num momento em que as poucas obras de referência sobre o tema no Brasil eram basicamente traduções.

Visibilidade

Em Pernambuco, ao longo de décadas, Carrero também atuou como jornalista, professor de escrita criativa, gestor público de instituições ligadas à cultura, crítico literário e dramaturgo. Muitos no Recife o admiravam mesmo sem nunca ter lido seus livros, embora provavelmente tenham lido suas crônicas na imprensa e na internet. Sua carreira foi longeva e prolífica, mas, por motivos que deverão ser investigados por pesquisas acadêmicas, ele nem sempre teve uma visibilidade nacional contínua e condizente com a importância de sua obra. 

Um dos seus melhores leitores, o escritor e crítico José Castello, afirma, no ensaio “Uma escrita só lâmina”, que Raimundo Carrero “despreza as manobras de superfície e se atém ao sumo da vida, não se esquivando de enfrentar aquilo que ela oferece de mais perturbador”. Em seguida, conclui: Carrero tem “coisas perigosas a dizer”. 

É partindo do risco, mas também do prazer de oscilar na borda do precipício, que o mestre dos abismos e das ruínas nos legou uma obra original, cuja leitura causa um desconforto extremamente necessário. 

Quem escreveu esse texto

Cristhiano Aguiar

É autor de Gótico nordestino (Alfaguara).

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